Se puder, vá mesmo!


Foto de Paulete Matos

É conhecida a enorme dificuldade da sociedade civil portuguesa em articular-se de forma organizada. Interpretações das causas há várias; ocorre-me a recomendação da Carla para a análise em “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos Últimos Três Séculos”, lembro-me da de José Gil, em “Portugal, hoje – o medo de existir”. Elementos úteis para perceber esta carência de cidadania; e outros haverá. Tenho para mim que uma das causas é a aversão intrínseca dos portugueses à organização; organizar-se é abdicar de um pedacinho de individualismo por mor de uma causa cívica – uma cedência inadmissível para grande parte dos portugueses (sendo-lhes mais fácil tratando-se de uma causa caritativa). Poderia sugerir várias outras razões que contribuem para essa letargia cívica, mas vou directa ao assunto que aqui me traz:

Incitei aqui à participação numa manifestação por uma justa causa – e foi tão justa que foi noticiada a nível internacional. Incitei à participação nesta, porque era esta que se ía realizar nesse dia, como já incitei à participação noutras. Pois não faltaram comentadores a perguntar: então e contra a “irresponsabilidade que permite que morram mais de cem pessoas em incêndios?“; então e contra a corrupção? Isto para já não falar no carimbo de “manifestações idiotas”.

Ou seja, por uma de poucas vezes, consegue-se um posicionamento da sociedade civil que leva algumas centenas de pessoas às ruas; e na opinião de vários comentadores, isso não está certo, porque há outras situações que também mereciam – tanto ou mais – manifestações. Caros comentadores, concordo plenamente, apoio totalmente e muito gostaria de ver centenas de milhares de pessoas manifestando-se contra essas e outras situações. E não só manifestando-se, mas também exercendo a cidadania por meio de outras possíveis formas organizadas (que a meu ver, já de si são poucas, tanto a nível nacional como europeu). Por exemplo, quanto à referida corrupção, o conhecimento e acompanhamento dos gastos da sua freguesia, da sua câmara, um controle apertado e organizado pelos cidadãos, ao nível local. Coisas que exigem algum tempo e trabalho mas que tornam uma sociedade mais matura, mais democrática, mais viva.

Comments

  1. Não posso concordar nada que as pessoas não se manifestem! Eu não estou nas típicas redes sociais, não sei o que por lá se passa, mas bem ouço os meu colegas de trabalho, todos os dias a falar da indignação do dia. Seja porque alguém descobriu o que o José Cid disse há dez anos, ou outra indignação parola do género. Ou então basta ver, e lá está, eu não vejo, mas ouço todos os dias na Antena 3, pois até se fez uma rubrica na rádio pública e tudo, intitulada: “Não me obriguem vir para a rua gritar”, porque ao que parece, as caixas de comentários das notícias são mais bonitos que feios.

    E não passam agora as pessoas a dizer que já não se pode dizer nada, que há sempre uma voz de bota abaixo? Não passam os humoristas agora a dizer que de caminho não podem fazer piadas sobre nada? Mas mudou alguma coisa? As pessoas mudaram? Não, não mudaram. Simplesmente agora, com a internet, as pessoas gostam de exprimir, quase ao segundo o que acham sobre determinada coisa e quem é alvo dessas críticas deixa-se levar pelas vozes do contra, e não pelas vozes favoráveis, porque lá está, o mal vende muito melhor que o bem, basta olhar para as capas dos jornais e revistas, e nunca como agora tivemos um jornalismo de merda.

    E eu desde que me lembro, e já nasci na “democracia”, que nunca vi os portugueses manifestarem-se muito, tirando algumas exceções, como os polícias secos contra polícias molhados, a PGA, contra a plantação de eucaliptos em 89, ou por causa das gravuras rupestres, ou por causa do aumento das portagens da ponte 25 de Abril e pouco mais. Aliás, tivemos até há pouco, o governo que mais ataques fez aos direitos das pessoas, e poucas manifestações do povo houve, tirando certos grupos, muitas vezes até mais favorecidos, que estão sempre em greve.

    E é normal que cada vez mais, as manifestações violentas se façam a nível do clique. E depois de uma manifestação violenta nas redes sociais sobre os juízes que evocaram a bíblia para justificar uma pena (e essa é a gravidade da situação para mim) esta semana já ninguém se lembra de nada, e teremos outra indignação violenta sobre outra coisa qualquer. E esse é o problema da internet: é a diferença do real e do virtual. Uma luta verdadeira, um amor verdadeiro, ninguém esquece. Uma luta virtual feita nas redes sociais é efémera, e tal como o inseto que tem esse nome, no máximo tem dois dias de vida.

  2. Rui Naldinho says:

    As pessoas têm o direito de se indignar. Tal como têm o direito de discordar dos motivos que levam a essa indignação.
    Agora, alguém que se desculpabiliza, minimizando os efeitos da participação cívica de uma parte da sociedade numa manifestação desta natureza, argumentando com a necessidade de dar a voz a outras que no seu entender considera mais importantes, muitas delas legítimas, sem dúvida, esse alguém, em abono da verdade, não está minimamente interessado em dar o seu contributo a nenhuma delas.
    Aceito melhor que alguém se demarque de uma iniciativa, por razões de carácter psicológico, religioso ou até de ordem moral, do que a falácia do, “há coisas mais importantes do que essa”.
    Vendo bem, percebe-se que para uma boa parte dos cidadãos, as coisas só são importantes, quando os seus efeitos lhes tocam na pele, caso contrário são indiferentes.

    • JgMenos says:

      «os juízes que evocaram a bíblia para justificar uma pena (e essa é a gravidade da situação para mim)»
      Sem dúvida um facto inaceitável se considerarmos que a Bíblia é evocada todos os dia em milhares de missas em milhares de igrejas do país por gente que também veste uma farda especial para o fazer.

      Um grande despautério sem dúvida!!!

      • ZE LOPES says:

        Ah! Ah! Ah! Olha o Menos a ser irónico! Ai que o Menos irónico é tão cómico!Ah! Ah! Ah! Ai que nem posso!

  3. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Como alguém que já se manifestou várias vezes (e ainda guardo na lembrança as grandiosas manifestações contra o governo de Passos Coelho por causa da TSU – que finalmente desencadeou a revolta dos portugueses), e procura exercer a sua cidadania em diversos fóruns (não só online) concordo com a publicação acima.

    Não concordei com o apelo da Ana na altura, (não pela manifestração em si, mas pelos motivos), e manifestei-o, mas não posso deixar de estar solidário com ela no apelo ao exercício da cidadadnia (seja contra ou a favor), pois só assim poderemos construir um Portugal melhor.

    Se todos os cidadãos enfrentassem o dia-a-dia sem medo e exercessem a sua cidadania, certamente teríamos governos mais responsáveis (porque mais escrutinados) e não teria sido, nomeadamente, tão fácil a grupos como “Ricardo Salgado y sus muchachos” ter andado durante anos a pôr e dispor de tudo e todos neste país.

    Também não teria sido tão fácil a um governo e um presidente cometer um crime de lesa-pátria como foi o AO90 (na altura, recorde-se, houve um abaixo assinado com mais de 120 mil assinaturas pugnando pela recusa do mesmo, e não têm faltado manifestações contra – ainda agora). No entanto, as autoridades lá vão andando, certamente convictas da “brandura” dos portugueses.

  4. JgMenos says:

    Afinal qual foi o motivo do ajuntamento?

  5. Toma e embrulha! says:

    Estavam a decidir se mandavam o Menos à merda ou não!
    Parece que o resultado foi um sim!

  6. Então você estava à espera de muita gente ?
    Porque?
    Não sabe que o nosso direito tem a sua origem nas chamadas fontes de direito são:
    -O Costume
    -A Jurisprudência
    -Doutrina.
    Como sabe os nosso costumes estão fortemente ligados á tradição religiosa Judaico-Cristã. Logo citar a Bíblia é citar uma das fontes de direito por via indirecta.
    Evidentemente que no Ocidente a Lei não é a Bíblia , ao invés dos povos muçulmanos p.e. em que a lei é o Corão. No entanto muitos dos nossos costumes/valores morais, ainda hoje estão de acordo com muitos preceitos bíblicos e são aceites pela esmagadora maioria das pessoas.
    Por isso não se iluda.

    Rui Silva

    • ZE LOPES says:

      Oh, Rui Silva! V. Exa. está a jusdelirar a uma velocidade impressionante! A sua teoria sobre a “origem do nosso direito” vai certamente ficar nos anais das mais famosas juscalinadas até hoje produzidas!V. Exa. não percebe nada, mas nada aqui é mesmo nada, do que diz!

      A sua teoria económica é, todos sabemos, baseada no seu aturado estudo dos Almanaques do Tio Patinhas. Pensava que nunca seria possível, mas a sua cultura jurídica é ainda mais indigente!

      Ora bem, não perdendo muito tempo:

      1. Falta uma “fonte de Direito”: a LEI!
      2. O Costume não tem nada a ver com o que vem na Bíblia. O Costume é UMA PRÁTICA SOCIAL! Se V. Exa. tem visto por aí lapidação de adúlteras, e não disse nada a ninguém, então é um verdadeiro liberal!
      3. “Citar a Bíblia é citar uma das fontes de direito por via indirecta”. Sobre isto, só posso dizer: Ah! Ah! Ahhh! AAAAhhhaaa! Ahhhhaa! Ahhhhahahahahah!

    • ZE LOPES says:

      Ah! Ah! (Eh, pá, ó SIlva, desculpe, mas é mais forte que eu). Olhe, não pense que a Doutrina é o que lhe ensinou o Padre da Freguesia! Ah! Ah! Ah!

    • ZE LOPES says:

      Já estou a antever a sentença da “Operação Marquês”: “Aquele que de vós nunca um banco roubou que atire a primeira pedra”. É o tribunal a citar a Bíblia ou seja, “uma das fontes do direito por via indirecta”.
      Receio é que os lesados do BES já estejam a acumular pedregulhos…

      • ZE LOPES says:

        Não me tinha lembrado, mas o tribunal, no caso BES, vai ter mesmo que citar a Bíblia. Então o réu não é o Espírito Santo?

      • ZE LOPES says:

        Mas Sócrates pode vir a ser absolvido! Segundo os juízes, durante a “travessia do deserto” o que Sócrates recebia era…maná!

    • Rui Naldinho says:

      Faço minhas as palavras desta grande atriz.
      O teu comentário demonstra bem como a estupidez humana não tem cura.

  7. Se soubesse tinha começado a ler a do fim do texto!

    😆 😆

    Por exemplo, quanto à referida corrupção, o conhecimento e acompanhamento dos gastos da sua freguesia, da sua câmara, um controle apertado e organizado pelos cidadãos, ao nível local. Coisas que exigem algum tempo e trabalho mas que tornam uma sociedade mais matura, mais democrática, mais viva.

    Com uma tirada destas já compreendo o motivo porque gosta tanto de se manifestar…

    • Falta ‘partir’… Penso mais depressa do que escrevo 🙄

    • Ana Moreno says:

      Nomeadamente?

      • Acreditas na ILUSÃO designada “democracia” 😉

        • Ana Moreno says:

          Acreditar acreditar, acredito cada vez menos; assim como, para meu infortúnio, cada vez confio menos nas massas; mas entre cruzar os braços e não fazer nada, ou fazer o que posso, prefiro fazer o que posso. Se todos fizéssemos, poderia ser menos mau.

          • Confiar nas massas … !?

            Rui Silva

          • Ir para manifestações de rua… não gera resultados nenhuns!
            Observa o SISTEMA PRIMÁRIO que gere todos os outros subsistemas e começa a ter acções que prejudiquem os mesmos
            😎
            Muito mais eficiente do que ir para a rua agitar bandeiras e bater em tachos!

  8. Ana Moreno says:

    Nas maiorias.

    • Como a hermenêutica é importante. Os filósofos dão-lhe a devida importância para elaborarem qualquer raciocínio, o que chega a ser maçador. Tem no entanto razão.
      Vejamos este caso: basta mudar uma palavra (massas para maiorias) para que um pensamento se torne, tal passe de mágica, “politicamente correcto”).
      Será bem aceite (politicamente correcto) dizer que devemos ter cuidado em “ir com as massas” . Qualquer “bem intencionado” cidadão aceita de bom grado a mensagem subjacente.
      Mas se for trocada a palavra “massas” por “maiorias” , o mesmo “bem intencionado” cidadão rejeitará a mesma mensagem subjacente.

      A sua correcção ao meu comentário encaixa perfeitamente neste modelo.

      Rui Silva

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