Inhos


Conhecendo, como conhecemos todos, o amor dos portugueses pelos diminutivos, julgava que já nenhum poderia surpreender-me. Uma ingenuidade pouco justificável na minha idade, devo reconhecer. Bastou cruzar-me na rua com uma simpática vizinha a quem vou perguntando pela saúde familiar para que ela me confessasse que anda preocupada com uma das filhas, a fumadora, porque não há maneira de deixar o vício, apesar de já ter tido um “AVCzinho”. Atentai, leitores, na delicadeza desta construção: um AVCzinho.

Dito assim, com essa cauda de cachorro travesso, é quase amoroso, um AVCzinho, uma pequena excentricidade, um capricho de meia-idade de uma fumadora empedernida. E assim o despojou a mãe da sua gravidade, suavizou o terror que o acrónimo evoca, e domesticou-o, à sua maneira. Será suficientemente grave para que a filha deva deixar de fumar, mas nada que uma mãe extremosa não possa domar.

Vai o AVCzinho para o meu relicário de diminutivos e ficará em lugar de destaque junto a “funeralzito”, outra pérola ouvida há muitos anos, e que procurava, de forma original (originalzita?), indicar que o morto era pessoa de pouca importância afectiva, e como tal as suas exéquias fúnebres não chegavam a revestir-se da solenidade de um “funeral”, palavra aguda.

Não há conceito a que um português não possa diminuir a importância com um “inho” bem afinfado.

É certo que nunca ouvi “mortezinha”, mas tenho esperança.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / pestreita.wordpress.com

Comments

  1. Nem de propósito!
    Voltei a corresponder-me frequentemente com uma amiga grega, e enviei-lhe algumas músicas de cantores bandas nacionais para ela ouvir. Depois ela perguntou-me o que quer dizer “devagarinho” que ouviu essa palavra numa música de Tiago Bettencourt. Expliquei-lhe precisamente isso, que nós em Portugal usamos quase tudo em diminutivos. Que se ela for a um restaurante não lhe vão perguntar se toma café, mas que lhe vão perguntar “cafezinho?” e aí por diante! Ela achou encantador, e decidiu que “devagarinho” ia ser a sua palavra portuguesa preferida! E pronto, eu lá lhe mostrei a música de Martinho da Vila “devagar, devagarinho”.

    Abracinho!

  2. Teresa Almeida says:

    Pois eu ouvi, muitas vezes, dizer que f..teve uma «mortezinha santa»…coisa que não acredito que haja, mas as velhotas da família diziam que sim 😉

  3. Isabel Atalaia says:

    Partilhamos esta singularidadezinha com os holandeses que lhe afifam com “tje” “etje” “pje”. “kje” e o “je”com generosidade e abundância. E é vê-los – aqueles gigantes louros – a pedir “coffitje (cafezinho) para levar para o “woninkje” (apartamentozinho) da sua “tantetje” (tiazinha)… É um fartote.

  4. Luís Lavoura says:

    Esta coisa dos diminutivos é muito mais frequente no Norte de Portugal.
    A minha mãe, que era do Porto, contou-me que, quando chegou à Universidade de Coimbra como caloira (lá para 1950), dizia tantos “inhos” que os veteranos lhe ordenaram, como tarefa de caloira, que redigisse um texto em que todas as palavras terminassem em “inho”…

  5. motta says:

    Esta foi-me contada, há umas semanas, por um médico que merece toda a credibilidade:
    “Ó Sr. Dr. olhe que eu até já tive um AVCD”
    Não vou contar a resposta do médico…

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