Postcards from Greece #20 (Metéora)


Suspended between the earth and the sky

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ou, simplesmente, no meio do céu. Eis o que quer dizer Metéora, uma área formada por rochas gigantes e nuas, uma paisagem com mais de 60 milhões de anos por acção do vento e da chuva e de diversos fenómenos geológicos e, talvez seja apropriado, pelo desejo de algum deus. Uma paisagem que deve ser única no mundo. Nunca vi nada assim e creio ser difícil que volte a ver alguma coisa assim. Metéora fica na Grécia central, 237 km a sul de Salónica, quando a planície de Tessália acaba e, provavelmente, o céu começa. A área serviu de refúgio contra os invasores, serviu de lugar de oração a muitos ermitas, nas cavernas e fissuras das rochas. A partir de meados do século XIV foi construída a maior parte dos 24 mosteiros que existem até hoje, embora alguns em ruínas. Hoje apenas 6 dos mosteiros são habitados, 4 por monges e 2 por freiras*.
 

Os mosteiros erguem-se no meio do céu. Suspensos entre a terra e o céu, no cimo das rochas, em lugares que pensamos impossíveis para construir o que quer que seja, quanto mais mosteiros, com claustros e capelas. De um deles diz-se que demorou 20 anos a serem transportados os materiais e que foi, depois, construído em 20 dias. De qualquer modo, todos parecem sólidos, apesar da sua fragilidade de pássaro, poisados num pedaço estreito de rocha, no meio do céu. Nunca vi nada como Metéora e ainda bem que pude ver Metéora, ao menos uma vez na vida. Como devia ser quase tudo, ao menos uma vez na frágil vida que vivemos. Não poder morrer sem ver certos lugares únicos, sem sentir a imensidão do céu, das montanhas, a vastidão da paisagem dali de cima, sem nos sentirmos muitas vezes os pequeníssimos seres que somos e por mais vezes que sejam, nunca serão as suficientes.
 

Nos seis mosteiros habitados de Metéora vivem poucas pessoas. Menos de dez em cada um deles, talvez. No mosteiro de Santo Estevão, vi duas raparigas novas, uma freira, coberta de negro, outra noviça, vestida de azul. Não sei o que leva alguém a querer abandonar o mundo a favor de uma fé qualquer, mas acreditem que aquela paisagem todos os dias, aquela paisagem que deve variar sempre cheia de beleza em todas as estações, deve valer bem uma vida de quase completa solidão. Não sei se seria capaz de passar ali suspensa entre o céu e a terra, ali no meio do céu, o resto da minha vida (que nem sei que tamanho terá), mas tenho pena de pensar que não sou capaz, porque sou também capaz de pensar em todas as vantagens que uma vida simples e isolada do mundo me traria.

 
O Mosteiro de Santo Estevão nem sequer é dos mais isolados, deve dizer-se. A estrada pára mesmo à porta, é só preciso atravessar um pequeno jardim cheio de gatos, como todos, e uma ponte de madeira pequena e estamos na entrada do mosteiro. As mulheres não podem visitar o museu se usarem calças, pelo que nos dão, às que têm calças, uns panos que atamos à cintura a fazer de saias. Penso que é ridículo, primeiro, mas depois, penso que não custa nada respeitar os hábitos dos outros, sobretudo quando estamos na casa deles e principalmente quando essa casa está suspensa entre a terra e o céu no meio de uma paisagem como nunca se viu nenhuma.
 
Os outros mosteiros quase todos que se avistam da estrada parecem muito mais inacessíveis e muitos foram-no até há pouco menos de 1 século. Não tinham escadas, nem estrada. pessoas e víveres eram transportados presos por uma corda até lá acima. Talvez não houvesse assim tantos visitantes e é sabido que monges e freiras são relativamente auto-suficientes. De qualquer maneira com uma paisagem assim e uma fé desmesurada, não deve ser preciso muito mais para estar vivo. A estrada é uma sucessão de ‘ohhh, ohhh’, de espantos vários pelo que se vê, como se não fosse possível acreditar no que se vê e talvez Metéora não tenha existido nunca, a não ser no meio do céu, onde nunca ninguém vai.
 
O Mosteiro de Varlaam um bocado mais à frente, ergue-se mais alto que o de Santo Estevão. São precisos vários lanços de escadas para chegar à entrada e as minhas vertigens e pernas recomendam-me que não as suba todas. Dali a paisagem já é alucinante que chegue. Dali se avistam outros mosteiros, suspensos entre a terra e o céu. O mosteiro Rousanou, periclitante no cimo de uma rocha estreita ou o grande Grande Meteoron (ou da Transfiguração de Jesus no monte), igualmente suspenso, mas numa rocha mais larga, e imponente.
 
Das rochas que formam Metéora avista-se o mundo inteiro. Kalambaka logo ali abaixo, com as suas casinhas minúsculas. Vista daqui até parece bonita, coisa que venho a constatar mais tarde não ser verdade. Kalambaka é uma terra bastante feia que vive nitidamente da proximidade de Metéora e com pouco mais para oferecer que essas colunas de rocha, com milhºoes de anos, onde se erguem há vários séculos mosteiros cheios de sombras e gente solitária, que ainda não caíram.
 
Os mosteiros de Metéora estão cheios de gatos gordos e pachorrentos, mais um sinal da bondade divina, certamente. Os gatos dão beleza ao mundo e a sua sólida maciez acrescenta tranquilidade às almas. Há-os de todas as cores e feitios, aos gatos, em Metéora. Bem alimentados pelas freiras e monges, são gulosos e mal ouvem ‘bchbchbch’ pensam que lhes vamos dar de comer e precipitam-se para nós, numa simpatia sem fim. Estava sentada num muro do mosteiro de Varlaam, ao sol, fumando um cigarro suspensa entre a terra e o céu, distraída no meio do céu, dos meus cuidados, quando sinto um peso, poucochinho, no colo. Era um gato amarelo e pequeninho, devia ter uns meses de vida, que se aninhou ao meu colo. Pensei enxotá-lo, por medo das pulgas, mas o gato enroscou-se de tal modo que me vi aflita para o por no chão. Deixei-o estar, ali, macio e suave e, ao mesmo tempo tão sólido, como quem deixa entrar a perfeição por um segundo. O fim do cigarro acabou com o momento e lembrei-me das pulgas. Pu-lo, ao gato amarelo, no chão. Voltou a subir o muro, passou por cima da minha mala e reinstalou-se, senhorial e proprietário, no meu colo. Deixei-o estar. Umas mordidelas de pulga que são diante deste gato pequenino e irresistível que me escolheu, por acaso, neste princípio de tarde suspenso entre a terra e o céu?
 
Quando o momento chegou tive pena, muita, de deixar o gato, a quem já havia baptizado e tudo. Se estivesse em Portugal, creio que era desta que levava um gato para casa, ainda mais este, que me adoptou no meio do céu. Mas não. Tive de o deixar, mas pensei nele até agora, muito depois de ter deixado Metéora e o mosteiro Varlaam. No regresso, depois do almoço tardio na feia Kalambaka, aos pés das rochas como não há mais nenhumas, voltámos a passar o Monte Olimpo, com os cumes brancos de neve, onde nasceram todos os deuses, certamente incluindo aqueles a quem os monges e as freiras rezam no meio do silêncio de Metéora. Em Larissa vimos um grande campo de refugiados – o Kutsouchero** – onde vivem 1063 pessoas em pequenos contentores brancos, cada um com um painel solar por cima. 1063 pessoas e 40 casas de banho. Nenhum transporte. Estas pessoas vivem também isoladas do mundo, sem o terem escolhido, no meio da terra, com os olhos postos num céu que não é delas, à espera de coisas sólidas e duradouras, como as rochas que se erguem em Metéora, a furar o céu, carregadas de mosteiros e gatos.
 
 
(A viagem foi feita com a ‘Ammon Express’, numa carrinha de oito lugares, com um motorista e companheiros simpáticos).

Comments

  1. Nascimento says:

    Só hoje tenho computador e vim aqui espiar o Tasco. E, deparo com isto: Kalambaka/ Meteora! Ui… belos anos 80 de mochila e máquina mais tripé ás cavalitas. Brindisi Corfu, De Patras a Kalambaka , chegada de noite e de manhã apanhar um ” estalo”visual que ainda hoje recordo com imensa saudade. Apanhámos um casal idoso alemão num mercedes cheio até mais não,e com eles visitámos uma lindissima igreja aberta por uma senhora ” guardiã” do Templo Ortodoxo. Depois? Bem , a seguir foi por os penantes ao caminho mais a companheira e esticar o dedo….e, uma senhora de tranças , oculos á Jóplin, franciu, e Renault 5, safou-nos!!! Belo dia e aqui prá gente ” boas” Fotos! Inté deu para expor mais tarde… depois? bem, depois mais duas vezes na Grécia… inté que os lindos gregos entraram pró BURACO como NÓS 1985 …e resolveram aumentar o ” queijo Feta”, para que depois Alemões do LIDL os vendam a nós…heheheheh HOJE ESTÁ TUDO RIQUINHO…NÃO ESTÁ?Pois…
    Atão o Je e a sua companheira,que tinham andado sempre por aqueles lados e calcorreado tudo á boleia, de comboio,barco, etc, disse-lhes:αντίο!
    Mas, tem razão: “AQUILO” É LINDO!

    • essas histórias davam muitos postais 🙂

      • Nascimento says:

        Deram sim senhor…e se calhar ainda vêm a dar…projectos nunca faltaram. Guito para os por em dia é que é problema,viu? eheheheh
        Ps.Curioso: andei por tudo o que é sitio naquele país, mas, nunca estive em Delfos! De resto, ilhas? Ui,ui…
        Boa continuação para si e mande sempre que o je agradece!!! E muito…

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