Postcards from Greece #48 & #49 (Edessa)

A Cidade das Águas

 

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É assim que é conhecida esta pequena cidade a nordeste de Salónica, distante desta 95 quilómetros e, de autocarro ou comboio, aproximadamente uma hora e meia. Edessa é a capital da região de Pella, naturalmente localizada na Macedónia central. É uma cidade extremamente sossegada, com aproximadamente 18 mil habitantes e onde se concentra uma boa parte dos serviços administrativos da região. Atualmente Edessa vive essencialmente do turismo mas foi, até meados do século XX, um importante centro industrial, com muitas fábricas de têxteis, aproveitando a abundância de água.
Antiga capital da Macedónia central, Edessa foi uma cidade sempre disputada, devido à sua localização geográfica, por Búlgaros, Sérvios, Bizantinos e Otomanos. Tal como toda a Macedónia, a cidade esteve sob ocupação Otomana mais de 400 anos, tendo sido anexada pela Grécia em outubro de 1912 durante a primeira guerra dos Balcãs. Edessa era, na época, como é ainda hoje (explica-me o D. durante as viagens de carro de sábado entre as aldeias dos arredores) uma cidade multicultural. A cidade esteve sob ocupação alemã durante a segunda guerra mundial. Foram, aliás, os alemães que construíram grande parte do que é hoje o Museu da Água e os jardins perto das cataratas de Edessa, para fins turísticos. Conta-me o D. que no final da guerra, os ocupantes queriam destruir as construções, mas tiveram a oposição, bem sucedida dos habitantes da cidade. E os canais e canaizinhos que abundam pela cidade, os jardins e as infraestruturas associadas à grande queda de água (Karanos, com 70 metros de altura) e às cataratas mais pequenas que a rodeiam, alimentadas todas pelo rio Edessaios, ali permanecem, sendo hoje uma das maiores atrações da cidade e da região de Pella.

Isto mesmo – ou seja, a beleza das cataratas de Edessa, as maiores da Grécia – pude comprovar ontem de manhã. Quando acordei, mais tarde do que o que gostaria mas ainda a tempo do belo pequeno almoço do encantador hotel Varosi, a vista da também encantadora varanda de madeira estava completamente coberta por um cerrado nevoeiro e chovia copiosamente. Era o meu dia livre para conhecer um bocadinho da cidade, antes de regressar a Salónica, e fiquei eu também um tanto ou quanto enevoada com a perspetiva de um dia chuvoso e triste. Depois do pequeno almoço, mais animada pela cafeína e pela nicotina, saí do hotel e dirigi-me às quedas de água. Estava na parte mais antiga da cidade e, apesar da chuva e do empecilho do guarda-chuva, pude apreciar as belas casas típicas da Macedónia, com as suas varandas cobertas sustentadas por vigas de madeira. Casas coloridas e, na maior parte dos casos, bem preservadas. Chego ao jardim mandado construir pelos alemães e restaurado pelos cidadãos de Edessa nos anos 60, e começo a ouvir o forte barulho da água. Há, além dos pequenos canais que encontrei pelo caminho, um canal mais volumoso, por onde as águas se precipitam, entre árvores antigas, antes de se precipitarem rocha abaixo. Para chegarmos às cataratas há escadas escorregadias, pela chuva e pelos muitos borrifos que vêm das águas em queda livre. As cataratas são realmente uma coisa bonita de se ver. Não são, naturalmente as cataratas, do Niagára, de onde também escrevi postais há pouco mais de ano e meio*. Mas as cataratas de Edessa são, igualmente, à sua escala, torrentes de paixão**.
Desço com cuidado os degraus até lá abaixo. Não quero partir nada, nem as pernas nem a máquina fotográfica. As fotografias não ficam grande coisa, entre a chuva e os borrifos e o meu tremer de frio. Mas não importa. Apesar do mau tempo andam algumas pessoas para cima e para baixo nas escadas, admirando as quedas de água, a grande e as pequenas. Lá em baixo é possível entrar numa espécie de caverna e admirar a grande queda de água por trás. Entro, mas tenho tanto medo de escorregar que não me atrevo sequer a tirar fotografias. Depois de admirar bem as cataratas volto a subir os degraus todos, desta vez com menos cuidado, porque a subir há menos risco de escorregar. Entro no café no cimo da rocha completamente encharcada. O senhor traz-me guardanapos suficientes para me secar e um café. Não é um sítio agradável, penso depois de me instalar e olhar em volta. É demasiado grande e tem ar de café de estação de serviço. Imagino que no verão centenas de pessoas aqui entrem. Ainda bem que é inverno. Saio do café mais retemperada e avanço ao longo do canal que acabei de ver transformado em cataratas. Quero encontrar a ponte bizantina e avanço porque sei que daí a um quilómetro e qualquer coisa, sempre ao longo das águas do grande canal, mais calmas à medida que avanço no sentido contrário ao das cataratas, a hei de encontrar.
É uma ponte bonita e está bem preservada. Ao seu lado uma grande árvore nua empresta mais bucolismo ao local. Não fossem os prédios altos e não muito bonitos ali à volta e este podia ser mais um lugar perfeito, na minha lista de lugares perfeitos. É uma da tarde e devo ir encontrar-me com a S. e a sua mãe, que não conheço ainda, num café no centro da cidade, na praça Timenidon. Não é longe se seguirmos sempre em frente pela rua Politechniou. Quando chego ao grande café cheio de gente (depois da missa, diz-me a S.) estão ambas a sentar-se. Instantaneamente simpatizo com a A. e a conversa vai por ali fora. Faz-me muitas perguntas sobre Portugal e depois sobre Espanha, se não é a mesma língua, se não fomos ocupados pelos espanhóis, qual é a questão da Catalunha. Explico o que posso, com a ajuda de um mapa desenhado com um tubo de mel e 5 biscoitos, sendo o mel Portugal e os biscoitos a Espanha. Peço-lhes que me digam quando visitarem o tubo de mel. Tiramos uma ‘selfie’ por iniciativa da jovem S. Ficámos com um ar entusiasmado as 3. O mesmo ar que se tem quando fazemos amigos. Despedimos-nos às 3 e meia da tarde e eu vou caminhando devagar para o hotel para ir buscar a minha mala. Passo pela bonita igreja Agias Sképis, por uma curiosa estátua de um burro, um homem e uma cabra, de que gosto imediatamente, pela praça Varosi e as suas ruínas e vou pelas ruas estreitas e escorregadias, porque ainda não parou de chover, buscar a mala. Primeiro como alguma coisa no bar. Tenho tempo, o autocarro é só às 5. Pergunto ao rapaz da receção quantos minutos são dali à estação de autocarros. Diz-me que poucos, mas pergunta-me se tenho pressa. Digo que não, que ainda tenho bastante tempo. Dá-me boleia, se eu quiser, porque vai sair dali a pouco. Como não querer? A filoxenía em ação, uma vez mais. Repito-me, bem sei, mas é realmente impossível não gostar dos gregos. Pelo menos dos que tenho conhecido na vida, mesmo que alguns, como é o caso, apenas por breves minutos, o tempo de uma viagem até à estação rodoviária.
Quando me deixa na estação e lhe agradeço e nos despedimos, diz-me que volte. E eu digo-lhe que voltarei, numa estação como menos chuva. Talvez em alguma Primavera.
* Pode ser lido aqui 
** Como na tradução para português do filme Niagara (1963), de Henry Hathaway.

Comments

  1. Antonio Curado says:

    Claro que gostei de ler, foi como se fosse eu viajar consigo. Obrigado.

  2. Nascimento says:

    Das coisinhas mais bonitas que por aqui andam. Lindo. É sempre um prazer ler estes textos da Elisabete. Simples? Olhem que não. Até as fotos não são nada más….eheheheheh. Tou a brincar. Continue a dar-nos o prazer de saber como fala o coração/ emoção.


    • Obrigada, Nascimento… 🙂 Quanto às fotografias (porque sei que é um entendido) não são nada de especial, mas eu gosto de tirar fotografias, apesar de não saber (ainda) funcionar com a maquineta lá muito bem. Olhe, faz-se o que se pode 🙂

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