Postcards from Greece #61 (Ioannina)

A cidade ao pé do lago

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O lago de Ioannina, ou lago Pamvotida, é o maior lago da região do Epirus. Está situado a 470 metros de altitude e a sua abundância de água deve-se às montanhas ali em volta, e à água que nasce delas e à neve que, na primavera, alimenta os rios. O lago, já o escrevi no postal de ontem é infinitamente belo e eu podia, também já o disse, ficar a contemplá-lo para sempre. Esta manhã o lago está coberto de uma leve neblina que faz com que tudo pareça irreal, com que tudo flutue naquela fronteira, que agora não se vê, mas se supõe, entre a água e o céu. Até eu. Fico ali a olhar para aquilo antes de subir até à praça 25 de março, onde fica o museu arqueológico. A praça é estranha, apesar de ter uma vista assombrosa sobre o lago. Mas é descuidada e está cheia de homens que andam de um lado para o outro. Não me sinto confortável ali e desço rapidamente para a Averof. Antes de entrar na praça 25 de março passei pelo relógio de Ioannina, no meio de um jardim, rodeado de obras. Ainda o vejo daqui na rua Averof que começa a descer em direção ao castelo.
É nessa direção que vou mas antes de chegar ao castelo corto à esquerda para a pitoresca rua Anexartisias. A rua está cheia de cafés bares, lojas disto e daquilo. É comprida, mas estreita e tem muitos arcos que dão para pequenas vielas ou pequenas alamedas, algumas forradas a azulejos. Entro num desses arcos que me parece bastante bonito, logo ali encontro a Route 66. Não a verdadeira, claro, mas um bar com esse nome. Admiro o edifício, mas não entro. Continuo em frente, caminhando sobre os mosaicos vistosos da Stoa Liampei até chegar a um café – Montage – forrado com fotografias de estrelas de cinema. Vejo a cara da Jean Seberg e resolvo entrar. O café é, além de muito cinematográfico, bastante bonito e o café propriamente dito é bom. Depois do café saio para a Kaniggos e volto, na esquina a seguir, para a Anexartisias. Deambulo entre lojas de tudo e de nada, e volto para trás, para ir à fortaleza. Entro nela pela porta B. Sei que à esquerda da porta, um pouco mais adiante, porque vi no mapa, há uma sinagoga. Está fechada. Mas as ruas dentro da fortaleza são bonitas e tranquilas. Não se vê praticamente uma alma e sabe-se que eu gosto disso.

Da sinagoga vou pelas ruas estreitas, admirando ora a forma das muralhas, ora as casas e chego ao Soufari ke Serai, um grande edifício construído pelos Otomanos no princípio do século XIX que funcionou como escola de cavalaria e guarda hoje os arquivos municipais. Dali vê-se a Biblioteca turca e mais acima a mesquita de Aslan Pasha, o museu e as ruínas do castelo. Subo até lá. E vale a pena. Outra vez o lago visto dali a deslumbrar-me. Outra vez a ilha sem nome ali em frente com os seus mosteiros espalhados entre as árvores. E a mesquita, claro, hoje um museu que conta a história de ortodoxos, otomanos e judeus, em Ioannina. Tal como toda esta região norte da Grécia, também Ioannina esteve sob ocupação otomana quase 500 anos. Na fortaleza há muitos vestígios da sua presença prolongada, de que a mesquita de Aslan Pasha e a Fethiye, do lado oposto da fortaleza, são bons exemplos. É possível ver a mesquita Fethiye daqui, aliás e parece-me muito bonita. De maneira que desço as escadas todas e as ruas empedradas, cheia de cuidado, até ao portão do castelo e caminho em direção ao Its Kale, o nome que tem a parte sudeste da fortaleza, e que deriva do turco e significa ‘fortaleza interior’. Depois de andar um pouco pelas ruas estreiras, encontro um portão. Mal o atravesso fico embasbacada. A mesquita é ainda mais bonita que a anterior e o lugar onde se encontra é tão tranquilo, tão verde e tão bonito! Ando por ali a admirar as vistas, a ver o túmulo de Ali Pasha, numa espécie de redoma de ferro, mesmo em frente à mesquita. O interior desta última é muito bonito, com o seu mihrab quase bordado, em tons de azul. O lugar onde se ergue a mesquita Fethiye é grande, partilhado também pelo museu bizantino, o Piritidapothiki, a igreja de Agion Anargiron e a Acropolis. Há, portanto, muito que ver e apreciar e assim faço.
Como qualquer coisa no café justamente chamado Its Kale. Depois continuo a andar pelas ruas da fortaleza um bom bocado, fazendo ‘bchbchbch’ aos muitos gatos que passam e geralmente me ignoram. Penso vagamente em ir ao museu Silversmithing, mas não me apetece. Ioannina é famosa pelo trabalho em metais, sobretudo prata. Há inumeras lojas na cidade vendendo toda a espécie de objetos em prata. De maneira que, deixando de lado o museu Silversmithing, saio da fortaleza pela porta D, a que vai dar diretamente ao lago e por onde tinha já passado ontem, no meu caminho para o embarcadouro para apanhar o barco para a ilha sem nome. Ando outra vez imenso a circundar o lago. Passo pelo embarcadouro e sigo pela direção oposta, andando por ruas e ruelas até ir dar, sem dar por isso, outra vez à rua Anexartisias. Caminho devagar, porque me doem os pés, depois de atravessar a Averof e dizer adeus à torre do castelo, até encontrar o lago para onde fico a olhar, de novo, para sempre.

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