Postcards from Greece #62 (Corfu)

«What are you doing here? It’s winter!»

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espantou-se o dono do bar onde, eram já mais de onze da noite entrei em busca de um café. Tinha já ido a 2 ou 3 sítios, sem sucesso, ou seja, sem que tivesse encontrado o precioso líquido. O senhor era bastante falador, mas compreende-se, sendo eu a única cliente, que ele tivesse querido saber de onde eu era e o que estava ali a fazer, pois… se era inverno! Eu respondi-lhe que estava a conhecer um bocadinho de Corfu e que preferia assim, no inverno, porque no verão deve ser impossível. Confirmou que no verão os turistas são mais que muitos mas ainda assim… ‘é inverno, não há nada para fazer aqui’. Disse-lhe que gostava de tirar fotografias e de pouca gente e por isso para mim esta foi a altura ideal para visitar Corfu. Depois falou-me de tudo e mais alguma coisa. Queixou-se dos impostos, logo a seguir, e consequentemente, do governo (apesar de ter dito ‘I voted for him the 3 times!’ quando lhe perguntei o que achava do Tsipras), da juventude e até dos turistas! Fiquei um bom bocado a ouvi-lo diante da minha grande chávena de café (pedi um ‘americano’, dado o adiantado da hora), praticamente sem poder dizer nada, porque ele estava apostado em falar. É inverno. É provável que eu tenha sido a única pessoa que entrou no bar hoje.
 

Antes desta pergunta do senhor falador do bar, tinha chegado a Corfu, à cidade com o mesmo nome da ilha (ou Kerkira, ambas) de barco, vinda do porto de Igoumenitsa, onde cheguei no autocarro que apanhei em Ioannina. Levantei-me assarapantada e já atrasada. Tinha o autocarro às 10h30 e foi por uma unha negra que ainda consegui apanhá-lo. Nem tempo tive para olhar para sempre, pela última vez, o lago Pamvotida. Entre Ioannina e Igoumenitsa a viagem dura uma hora e meia. Mais uma vez as montanhas, que vão perdendo a neve à medida que nos aproximamos do mar. A paisagem é outra vez deslumbrante e eu, apesar da fome – pois com a pressa não tomei o pequeno almoço) – repito para mim mesma como é bonita a Grécia, nas suas mil caras. O porto de Igoumenitsa, onde se apanham ferries para Itália, Albânia, Corfu e outras ilhas do mar Jónico, é movimentado. É por pouco, e porque resolvo comer alguma coisa, que não apanho o ferry das 12h para Corfu. Não interessa, tenho tempo. E fome. Apanho o seguinte, às 14h e ocupo as duas horas, primeiro comendo alguma coisa no café em frente ao porto, depois fazendo ‘peoplespotting’ descansadamente, para dentro e para fora do café, acompanhando a azáfama das pessoas que chegam, compram bilhetes, esperam como eu o próximo ferry para qualquer parte e finalmente admirando o profundo azul do mar Jónico que se abre à minha frente e por onde irei navegar dentro de pouco tempo.
 
Navegar e deslumbrar-me, devo dizer. O dia está, como aliás têm estado quase todos os dias que passei na Grécia, lindo. Cheio de sol. Com um céu quase tão azul como o mar. Não há sequer vento, hoje. Tudo está tranquilo, como tranquilo é o balouçar do grande ferry no mar. A viagem entre Igoumenitsa e o porto da cidade de Corfu (há outro porto, Lefkimmi, a uns 40 quilómetros para sul) dura duas horas. Duas horas entre o azul do céu e o azul do mar. É tudo tão perfeito, na paisagem. Os barcos brancos contra o azul do mar, os contornos das montanhas contra o azul do céu. Quando avistamos a cidade de Corfu é maravilhoso. Toda a gente se reúne no convés a admirar a vista, mesmo as pessoas – quase todas – que são daqui ou que vêm aqui muitas vezes. Para uma novata, como eu, a vista é de cortar a respiração. Podia ficar ali, no convés do grande ferry, a olhar para a cidade perfeita vista do mar, para sempre. Por momentos fico também baralhada pelo aspeto incrivelmente italiano da cidade que se vê do mar. Podia ficar a olhar para ela, para sempre também por isso. Mas, naturalmente, o barco atraca no porto novo de Corfu. O hotel fica no porto velho, pelo que apanho um táxi. O taxista, Leo, fala muito depressa e quer, como sempre, saber tudo, de onde venho, para onde vou, o que estou ali a fazer. Diz que se é a primeira vez em Corfu tenho de ver alguns lugares e que, se quiser, em 3 horas amanhã faz-me uma visita guiada. Digo-lhe que vou pensar, porque o preço, ainda que não seja caro, me parece um pouco alto para o meu orçamento. Dá-me um cartão, que aceito.
 
O Leo deixa-me em frente ao hotel cuja fachada se parece com as fotografias que vi no booking e que me fizeram escolhê-lo. No entanto, o quarto não tem muito a ver com o que vi no site e fico um pouco desanimada. É velho. Ia dizer antigo, mas é mesmo velho. O quarto tem 2 janelas e uma varanda e delas se vê o porto antigo e, claro, o mar profundamente azul. Convenço-me que são apenas duas noites e que o quarto é limpo e, afinal, há um certo charme na sua decadência. Deve ter sido um hotel perfeito, digamos há uns 50 anos. Sem pensar mais no assunto, desço para a rua e ponho-me a caminhar até à praça principal de Corfu, a que os locais chamam ‘Spianada’ ou ‘Liston’, mas que na realidade tem 3 nomes, porque é muito grande: praça Theotoki, praça Enoseos e praça Leonida Vlachou. Chego lá em muito pouco tempo, é só subir a rua com o mesmo nome da primeira praça. A praça (ou as praças) é realmente gigantesca. Num dos topos, em frente aquele por onde entrei está a fortaleza velha, e depois o mar. À esquerda o Museu de Arte Asiática e à direita o monumento a Maitland, Comissário das Ilhas Jónicas durante o período em que foi um protetorado do Reino Unido (1815-1864) e, para além dele,edifícios da Universidade. Aliás, foi durante o protetorado britânico que foi fundada a primeira universidade em Corfu, em 1824. Além destas referências, a praça integra também dois parques de estacionamento que lhe tiram um pouco da beleza. No extremo da praça, por onde entrei, há belos edifícios de arquitetura italiano (ou veneziana), cheios de cafés, restaurantes e esplanadas. A praça está, no entanto, bastante sossegada, tal como estava a rua Theotoki. Vi umas poucas pessoas no caminho até aqui. É inverno, portanto.
 
Depois de espreitar a fotaleza e o museu, de fora, resolvo sentar-me, apesar do sol que já vai descendo no mar Jónico, do outro lado da ilha, numa esplanada do outro lado da praça. Peço um sumo de laranja e um iogurte grego com mel e frutas. Estava delicioso. O iogurte grego da Grécia nada tem a ver com o iogurte grego que comemos fora dela. Depois atravesso um dos arcos (o do lado esquerdo de quem está de frente) do Museu e começo a descer, rodeando a cidade pelo lado de fora, pela Mouragia, ou pela Rua Arseniou, tendo vistas deslumbrantes, apesar da noite que vai caindo devagar. Confirmo o carácter italiano da cidade, que a distingue de todas as outras ilhas gregas, deste e de outros mares. A ilha foi governada por nobres venezianos entre 1396 a 1797. De 1797 ate 1799 foi cedida aos franceses que foram expulsos por um esquadrão russo-otomano, tornando-se a capital da federação de Heptanesos (‘Sete Ilhas’). Em 1807 volta a ter adminsitração francesa, até 1815. Uma história complexa que, explica-me o senhor do café mais tarde, nunca deixou perder a identidade e a cultura grega.
 
Não é nisto, no entanto, que penso, enquanto vou descendo a Arseniou, contemplando as casas do meu lado esquerdo e o mar do meu lado direito, acomppanhando as curvas da estrada. Admiro a fortaleza velha de outro ângulo e cumprimento a ilha de Vido, que parece flutuar acima da água. Não vive ninguém na ilha agora. É inverno. Apenas no verão recebe alguns visitantes, escuteiros, diz-me o senhor mais tarde, de todas as partes do mundo. Passo o Museu Bizantino e o Museu de Dionysios Solomos antes de chegar ao velho porto e regressar por um par de horas ao hotel. Penso na proposta do Leo (de Leonidas) e resolvo fazer a visita de 3 horas com ele. Sei lá se voltarei a Corfu. Mais vale aproveitar já que aqui estou e é, felizmente, inverno.

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