Postcards from Greece #63 (Corfu)*

«I want to visit Albania»

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Disse eu à rapariga que estava na ponta do pontão, sentada nas pedras, mesmo ao lado do pequeno farol. A fortaleza antiga em frente, do outro lado da baía. A miúda ouvia música com uns headphones e sorriu ao ver-me aproximar-me da beira do pontão. Vi um banco e sentei-me ao mesmo tempo que a rapariga abanava a cabeça e fazia um gesto com a mão. Mal me sentei percebi. O banco estava molhado. Levantei-me de um salto e rimos as duas com a situação, enquanto eu pensava, de rabo molhado, que sorte não estar frio e estar um solzinho bom. Pedi à rapariga – Ada, agora sei – se me tirava uma fotografia. Tirou duas ou três e perguntou-me de onde é que eu era. Disse-lhe e perguntei-lhe o mesmo. Albânia, sorriu ela. A mesma Albânia ali tão perto e que eu quero mesmo muito visitar. Disse-lhe isso mesmo. Que queria visitar a Albânia há muito tempo. Espantou-se. Era a primeira pessoa que lhe dizia tal coisa. Compreendi-a . Basicamente é o que toda a gente a quem eu digo que quero muito visitar a Albânia faz: espantar-se. Mas no caso da Ada, o espanto era positivo. Talvez este verão, disse-lhe eu. Disse-me que lhe dissesse, se isso viesse a acontecer. Seguimo-nos agora, mutuamente, no facebook. Admirável mundo novo. Estavamos no fim do pequeno pontão que sai do Anemomylos, um moinho de vento, e junto a pequenos barcos de recreio. 4 ou 5 pessoas nadavam nas águas calmíssimas do mar Jónico e eu despedi-me da miúda e voltei para trás, com as calças molhadas a pensar que hei-de ir à Albânia, sim senhora, que daqui seria muito perto e há ferries, mais a mais. De Kassiopi, no norte da ilha, seria um saltinho, se houvesse transporte direto, bem entendido. Agora, seja como for, também não tenho tempo.
 

Foi o Leonidas, ou Leo que ali me levou. Leo é o taxista quem telefonei ontem ao fim da tarde (por causa da proposta que me fez enquanto me transportava entre o porto de Corfu e o hotel), depois de me ter informado na receção do velho hotel se o preço que ele me havia proposto seria razoável Que sim, disseram-me. Pronto. Seja. Como escrevi no postal de ontem, sei lá se volto a vir aqui, mais vale ver alguma coisa além da cidade antiga, que é aliás, desde 2007, património mundial da humanidade. De maneira que às 11h da manhã (porque tinha qualquer coisa antes) ali estava o Leonidas em frente ao hotel, cheio de energia, demasiada aliás. Disse-lhe isso mesmo, que não falasse assim tão depressa que, caramba, eu tinha praticamente acabado de acordar e não tinha bebido café. Fui beber café, por conselho dele e fiquei mais bem disposta mas pedi-lhe, mesmo assim, que me levasse então ao sítios de que me tinha falado no dia anterior, mas me deixasse andar neles sozinha. Pareceu surpreendido, mas concordou. Que remédio, suponho. Não queria ser mal educada, mas também não me apetecia andar 3 ou 4 horas com aquela gralha cheia de energia atrás de mim. Pelo que conversávamos durante as viagens entre os sítios e chegados aos destinos, eu ía à minha vida. Na verdade, também não gosto que me expliquem demasiado o que estou a ver. Por exemplo, detesto audio-guias, como aqueles que me ofereceram no Achilleion, o palácio mandado construir por Elisabeth, mais conhecida como Sissi, imperatriz da Áustria e rainha da Hungria.
 
Mas o palácio, a que primeiro eu torci o nariz, não foi o primeiro sítio a que o Leo me levou. O primeiro sítio onde parou foi em frente a ´Mon Repos’, uma ‘villa’ onde, ao que parece e uma placa indica nasceu o duque de Edimburgo, em 1921. Também ao que parece foi aqui que Sissi se apaixonou pela ilha, em 1863 e decidiu, depois, construir o Achilleion. Não fico impressionada com aquilo, como eventualmente, o Leonidas esperaria. Não sou monárquica, digo-lhe, portanto ter aqui nascido o marido da Rainha de Inglaterra ou outra pessoa qualquer, para mim, é igual. Mostro mais interesse pelas ruínas de uma igreja mesmo do outro lado da estrada para onde me dirijo virando costas a ‘Mon Repos’. Dali seguimos para o lugar que eu estava ansiosa para ver: o mosteiro Vlacherna, construido numa pequena ilhota, ligado por um estreito pontão a ilha de Corfu. O lugar é realmente encantador, cheio de pequenos barcos de pesca, pescadores e gatos. Travo imediatamente amizade com um pequeno gato amarelo que me segue os passos e se me enrola nas pernas enquanto ando entusiasmada pelo estreito pontão de cimento. O Mosteiro Vlacherna é pequeno e branco e do outro lado fica a pequena ilha ‘Pontikonisi’, ou ‘Mouse Island’ como me explica o Leonidas, por ser pequena como um rato. Andei por ali bastante tempo a tirar fotografias, a sentir o cheiro do mar e a fazer festas ao gato amarelo e aos outros. Depois subimos até Kanoni, de onde se tem uma vista verdadeiramente impressionante do mosteiro, da Ilha do Rato, dos barquinhos de pesca e até dos gatos. Fiquei contente, só por esta vista, de ter decidido vir com o Leonidas.
 
Dali fomos então até ao palácio Achilleion. Como disse, não ia muito entusiasmada. Palácios não são exatamente a minha coisa preferida. Parámos em frente à bilheteira. Não paguei os 8 euros do bilhete, ao menos isso, e entrei no jardins e depois na grande casa amarela clara. Impressionaram-me as escadas e o tecto do grande hall de entrada. Mas o que me fascinou de verdade foi o elevador, absolutamente cinematográfico. No segundo andar, fico mais entusiasmada com o grande jardim, cheio de árvores, estátuas, pequenos malmequeres, borboletas e uma vista absolutamente fascinante. De modo que passo ali a maior parte do tempo dos 40 ou 45 minutos que por ali andei. O interior do palácio tem mobília, há quem goste disso, mas eu não sou essa pessoa. Deve dizer-se que nem sequer tem já muita mobília o que, de certo modo, é para mim um alívio. Gosto da capela à entrada, também e do café no exterior, no meio das árvores, onde se ouvem os pássaros e se pode fumar tranquilamente aproveitando o sol maravilhoso. Não tinha mau gosto a Sissi, tenho de convir. Não é difícil ficarmos apaixonados por Corfu e não é difícil querermos, outra vez, ficar a admirar aquela paisagem infinitamente. Mas, no meu caso, não pode ser, pelo que regresso ao táxi do Leonidas e lá vamos pelas estradas cheias de curvas, sempre à beira do mar mais azul que há, até uma aldeia ‘de pescadores’, diz-me ele, mas a mim pareceu-me mais ‘de turistas’, no tempo deles claro, do que de outra coisa qualquer. Benitses, assim se chama a pequena aldeia, cheia de barcos no pequeno porto e de sol e de casas simpáticas e de restaurantezinhos de peixe onde não há ninguém, porque é inverno. E é depois de Benitses que o Leo me leva ao moinho de vento e encontro a rapariga albanesa a ouvir música ao fundo do pontão, com o farol e o mar por companhia.
 
Quando o Leonidas me deixa na Spianada passa das duas da tarde. Ainda me tenta convencer a levar-me ao norte da ilha pelo mesmo preço. Digo-lhe que não, que não tenho orçamento para isso. Qe terá de ficar para outra vez, se a houver. Claro que a maior parte dos sítios onde fui poderia ter visitado de autocarro, mas o tempo que perderia em viagens seria infinitamente superior. Assim, ainda que continue a achar que foi caro o pqueno passeio de 3 horas, dou afinal por bem empregue o dinheiro. Saio do táxi, combinando a hora para o dia seguinte para que ele me leve ao aeroporto. Há um café ali mesmo, com uma esplanada grande com umas soberbas vistas sobre a fortaleza antiga. Sento-me e como alguma coisa enquanto olho embasbacada para a fortaleza e para o mar à minha frente. A seguir vou visitar justamente a fortaleza, onde funciona por exemplo o Departamento de Música da Universidade Jónica e o Clube de Vela de Corfu. É grande a fortaleza. Enquanto ando por ali, admirando a paisagem, alguém canta ópera num dos edifícios, apesar de ser sábado à tarde. Desço ao pequeno porto do Clube de Vela. Também dali a vista é magnífica, sobre o mar, a ilha Vido e a Mouragia com as suas casas que parecem ir tombar no mar a qualquer instante. Dali não se vê a Albânia, no entanto, mas por agora, contentar-me-ei, sem grande esforço,
com as ruelas estreitas desta cidade, que me lembram Génova ou Nápoles ou, claro, Veneza e, no entanto, são únicas, tal como é único o azul deste mar, as montanhas muito ao fundo e os barcos que passam mansos, fazendo pequeníssimas ondas, como suspiros, nas águas calmas.
*Este postal, que deve ser lido, obviamente entre o 62 e o 64 ficou esquecido. Só agora reparei. Deve corresponder ao dia 2/02.

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