Facebuques e quejandos

As redes sociais têm tanto de bom como de (muito) mau. Só que a parte (muito) má é, avassaladoramente, irritante e desprezível. Nem que não seja pelo evidente “double standard” na viralidade das opiniões publicadas.

Por exemplo, criticar, ridicularizar ou insultar Donald Trump, é algo, largamente, difundido e, pacificamente, aceite. A ideia que perpassa é que as pessoas que o fazem quase que necessitam de o fazer para demonstrar quão inteligentes e perspicazes são. Como se a constatação que um idiota é um idiota fosse género requisito indispensável para entrar na Mensa International.

Já Putin, um assassino sórdido, despudorado e impune, escapa entre os pingos da chuva. São ambos líderes de superpotências, mas criticar ou apontar o constante desprezo pelas regras mais básicas da humanidade que o Russo, desde sempre, ostentou, não tem o “glamour” esquerdista que não deixa de alicerçar o que é ou não viral nas redes sociais.

Um asqueroso atentado a um jornal em Paris, gera uma infinita proliferação de “je suis isto ou aquilo”. A execução diária, consistente, massiva e ininterrupta de civis na Síria (com o apoio de quem?), conduz, no máximo, a um pequeno e efémero esgar de pena que logo é superado com um qualquer vídeo sobre gatinhos fofos ou a última gaffe do Trump.

A tragédia de um povo como o da Venezuela que viu a sua qualidade de vida descer para níveis, criminosamente, desumanos perde, óbvia e desavergonhadamente para a última revelação de mais uma vítima de assédio sexual, sendo indiferente se o assédio em causa foi, realmente, grave ou se não passa de uma patetice de quem procura protagonismo.

A pressão dos cibernautas aumentou, determinantemente, a onde de choque criada pelo brutal assassínio de Marielle Franco. O facto de ser, simultaneamente, de raça negra, homossexual, feminista e de esquerda, transformou-a, de imediato, num ícone do rebanho “politicamente correcto” que mais não é que a STASI das redes sociais. Consequência (entre outras) da pressão exercida: vai haver, e bem, uma escola Marielle Franco no Rio de Janeiro. Helley de Abreu Silva Batista (não sabe quem é, pois não?) que morreu em Outubro, também, terá uma creche com o seu nome. Mas o seu exemplo de coragem e altruísmo não fizeram dela um ícone da manada. Porquê? Porque não era, simultaneamente, de raça negra, homossexual, feminista e de esquerda.

Comments

  1. ZE LOPES says:

    Gostei da imagem, que simboliza na perfeição o triunfo dos “tablets”: o teclado foi-ce!

  2. Rui Naldinho says:

    Meu caro
    Você parte de um pressuposto correcto. Todos os idiotas sejam eles de esquerda ou direita, não deixam de o ser, apenas por alinhamento ideológico com uma das partes. Por outro lado, um crime é sempre um crime, seja ele cometido contra negros ou brancos, homossexuais ou heterossexuais, homens ou mulheres, esquerda direita volver. Mas se o crime for cometido por agentes da autoridade, com o beneplácito dos órgãos de soberania instituídos, tal como fazia a PIDE, ou faz a CIA, o KGB ou a Stassi, aí estamos perante algo distinto, do crime comum. Essa é uma pequena particularidade que faz alguma diferença.
    No que concerne ao seu artigo, o problema só surge quando a certa altura se baralha, confundindo tudo, e, pior ainda, mete todos no mesmo saco. Dava jeito, não dava? Mas não vá por aí.
    Nunca ouvi da parte daquela esquerda que não quer ser do PCP, nem a fingir, qualquer elogio a Putin. Bem pelo contrário. Atiram-se a Trump, a Putin, a Zedu, a Bashar Assad, a Erdogan, entre muitos outros. Nem Maduro escapa a rol das críticas. Era fácil colocar aqui vários links a criticá-los.
    Essa esquerda é esmagadora, em número de eleitores, face aos comunistas.
    Ah, mas espera aí! O PCP que representa cerca de 7% do eleitorado votante tornou-se num ícone da Geringonça, daí ser um referencial em matéria de direitos humanos.
    Não. Infelizmente o PCP não é nenhuma pomba branca, nem a sua história de luta contra o fascismo, escapa à sua própria rudeza e fúria contra quem se lhe atravesse no caminho. Isso até está documentado pelo “terrível” Pacheco Pereira.
    O problema nem existe para aqueles que vêem no crime contra Marielle Franco uma híper valorização da esquerda face ao de que foi vítima Helley de Abreu Silva Batista. Para esses é “olho por olho, dente por dente”. O verdadeiro drama só existe para aqueles que acreditam numa justiça igual para todos, e na democracia como um modelo institucional de relacionamento entra as populações.

  3. Paulo Marques says:

    Da Rússia ninguém espera outra coisa, não se fala do que é consensual. Já sobre os Republicanos, há muita gente que não quer perceber que o fenómeno pouco tem a ver com Trump
    Não há quem mais nomeie os assassinos da Síria do que a esquerda. Até o previram em 2003
    já sobre a Tunísia, a Turquia, a Grécia, etc tá o sistema calado
    um assassinato político é muito mais relevante do que um acto criminoso isolado.

    Mas pronto, faça lá de conta que é tudo o mesmo e que há uma perseguição ao homem branco de bons costumes.

  4. ZE LOPES says:

    “Putin, um assassino sórdido, despudorado e impune, escapa entre os pingos da chuva”. Oh! Não me diga!

    Então o Putin não foi colocado no poder por aquele senhor Ieltsin coisa e tal, que substituiu o Gorbachev tal e coisa, que tinha permitido a queda do Muro de Berlim, mas era muito hesitante e coisa e tal, e não queria romper com o hediondo regime Comunista e tal e coisa, mas que foi forçado a sair depois de uma tentativa de golpe, enfrentada pelo Ieltsin e coisa e tal, que depois o pôs a mexer e acabou finalmente com a União Soviética e e coisa e tal, e instaurou o capitalismo e coisa e tal, a ponto de a Direita por esse mundo fora ter feito uma festança monstra e decretado o fim da história e coisa e tal, porque o capitalismo tinha triunfado e tal e coisa, e todos estávamos do mesmo lado de um Mundo Unipolar e tal e coisa, a Guerra Fria tinha definitivamente acabado e coisa e tal.

    E a Rússia passou a ser um exemplo para o Mundo e tal, privatizaram-se os bens do Estado e coisa e tal, o capitalismo triunfou e tal, a iniciativa individual substituiu a opressão da economia estatizada e tal, dando liberdade de escolha aos cidadãos e tal, para que pudessem enriquecer e tal, acabando com os serviços públicos impostos e ineficientes e coisa e tal.

    É claro que houve dificuldades e tal, nada que uma terapiazinha liberal de choque não resolvesse a médio prazo e tal, até porque já havia alguns cidadãos de sucesso que acumulavam umas fortunazinhas e tal e, em breve a coisa pingaria para o resto da população e tal e coisa.

    Mas a coisa não corria bem e tal, os bancos faliam e tal, o povo estava revoltado e tal e coisa, cresciam os gangs armados e coisa e tal, o Ieltsin estava sempre bêbado e tal e tinha de sair dali um salvador do povo e tal: Putin!

    E depois e tal, a coisa azedou e tal, o Putin já não é amigo e tal e coisa, está de trombas para a gente e tal, é um mal agradecido e tal e coisa, pôs-se a fabricar novas bombas nucleares e tal, e até ataca na Síria sem nossa autorização e tal e coisa.

    Isto é: o Putin virou à esquerda e tal e coisa. Não se faz e coisa e tal! Qualquer dia não admira que volte a fazer um muro em qualquer sítio e tal e coisa. Um Horror!

    Moral da história, em jeito poético:

    Acabou-se o comunismo,
    Decretou-se o “fim da história”.
    Só que o Putin que paristes
    Anseia por cantar vitória.


  5. Porque comentamos Trump e não comentamos Putin à mesa do café? Simples: proximidade. Proximidade cultural e linguística.


    • Ou porque Trump é um idiota barulhento
      Já o Putin poderá ser um filha da mãe mas de estúpido não tem nada.

  6. Pedro says:

    Espertalhona, essa comparação entre e a Marielle e a Helley de Abreu Silva Batista. Se quiser desvalorizar as homenagens à Marielle podia ser mais original. Como devia saber a Helley foi vitima de um crime comum, como milhares de brasileiros todos os anos, com nome ou sem nome em escolas, e sejam de esquerda ou de direita. E teve não só direito a nome em escola, como a homenagem póstuma pelo Presidente Temer, com condecoração, pelo seu ato de bravura a salvar as crianças. De qualquer forma, nunca vi uma vitima de um crime comum, com atos de bravura ou sem eles, ser apontada como de esquerda ou de direita e você não faz ideia nenhuma se a Helley era de direita ou esquerda, ou se era homossexual ou heterossexual, pelo que apenas está a tentar adivinhar. Apenas sabe que não era negra. A Marielle é um caso diferente: era uma ativista politica e suspeita-se que tenha sido vitima de crime politico. Concorde ou não com as homenagens, não seria mau reconhecer que existe uma diferença.

    • ZE LOPES says:

      Muito bem! Imaginemos uma situação concreta. Por exemplo em Lisboa. No mesmo dia, pela manhã, um indivíduo (o sexo aqui não conta) esfaqueia um funcionário de uma escola; á tarde membros de um gang organizado (de polícias, ou não, não interessa) mata um vereador/a da oposição na Câmara de Lisboa que vinha criticado a atuação do presidente em relação á política de segurança.

      Nesse dia queria ver se o escriba também considerava que as duas situações eram equivalentes. Principalmente se o vereador/a fosse do CDS ou do PSD e a esquerda, por absurdo, se recusasse a condenar o ato recorrendo à mesma escribal arenga: “mas o seu exemplo de coragem e altruísmo não fizeram dele/a um ícone da manada direitrolha.. Porquê? Porque era, simultaneamente, de raça negra, sindicalistal, ecologista e de esquerda”.

  7. Bento Caeiro says:

    Certo, Carlos Osório, que muitas das abordagens vão por aí – demasiadas até – talvez porque mais do que democratas são alinhados. Agora quem não possui à partida tiques de esquerda ou de direita e, tem termos de justiça social, procura caminhar a direito – fundamentalmente atento ao que temos pela frente, seja Trump, Putin, EUA, Rússia, Venezuela, Angola, Síria, Israel sionista e a Palestina, Turquia e Curdos, etc. – não descurando os perigos que podem vir dos lados; como essa de nos quererem dar a entender – seja da dita esquerda, como da dita direita – que causas boas serão apenas as que defendem e as outras já não o serão, porque não são as deles; aqueles, como dizia, tudo farão para denunciar as situações portadoras de injustiça – até mesmo as posições de alguns que, momentaneamente, parecerão estar ao nosso lado.
    Muita gente ataca Trump e não se pronuncia sobre Putin. Ataca os EUA, mas não o Maduro, a Venezuela e a Coreia do Norte. Ataca Putin e o que se passa na Síria, mas não se refere a Israel e à sua actuação face aos Palestinianos e à sua complacência face ao Daesh.
    No caso do Brasil, ataca a situação actual e esquece o que lhe deu origem ou vice-versa.
    Agora quanto ao Facebook e aos ataques de que está a ser alvo. Tal como no caso das armas de fogo; tanto dá para defender a nossa pessoa, casa, família, bens da bandidagem – a utilização mais usual, mais não seja pela dissuasão -, como dá para desatar aos tiros e matar indiscriminadamente. Também raciocínio idêntico poderemos fazer em relação aos carros e às autoestradas – não foram feitos para matar, mas lá que matam, matam e muito mais que as armas de fogo. Portanto, depende de quem usa e não da arma, do carro ou da autoestrada, em si mesmas.
    No entanto – AQUI ESTÁ A QUESTÃO DE FUNDO – aqueles: pessoas, entidades, instituições, que se sentem incomodados com a possibilidade que me é dada, no caso das armas, de me defender e, porque não?, de atacar, como forma de me defender, e como tal nos querem ver desarmados, tudo farão para me vedar o acesso às mesmas: no caso aqui tratado, a essa ARMA, QUE É O FACEBOOK.

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