Facebook

O fundador do Facebook teve hoje uma audição perante o congresso dos EUA. Ouvi boa parte e posso afirmar que foi interessante. Por um lado, ficou claro para mim que as nossas audiências parlamentares são uma miséria, realizadas por deputados geralmente mal preparados, cheias de salamaleques e das quais nada resulta. Nesta audiência, houve questões duras e Zuckerberg ocorreu em várias mentiras. Por exemplo, afirmou que o Facebook apaga os dados dos utilizadores quando estes apagam a conta, que o Facebook não vende os dados dos utilizadores e que os dispositivos móveis não recolhem dados indevidos dos utilizadores (p. ex. registo das chamadas telefónicas), o que não é verdade. Vamos ver no que daqui resulta.

Por outro lado, foi possível constatar, novamente, que Mark Zuckerberg não passa de um puto que fundou uma empresa para se meter com as miúdas, facto que o tornou multi-milionário. Concretamente, todo o seu discurso maniqueísta, os pedidos de desculpas e as mentiras (que serão agora, possivelmente, usadas contra o Facebook) revelam a personalidade de alguém impreparado para ter o dedo no gatilho de uma arma destas.

Será interessante observar em que medida esta audiência irá alterar algo quanto ao uso dos dados pessoais dos utilizadores. Há uma diferença fundamental entre a Europa e os EUA. Na primeira, os dados pessoais são encarados como sendo uma extensão da própria pessoa, a ela pertencendo. Já na América, os dados pessoais são propriedade da empresa que os recolhe. Por isso tem sido possível, legalmente, empresas como o Facebook fazerem coisas que, entre nós, seriam ilegais. Curiosamente, como a sede da empresa não está na Europa, tem havido alguma permissividade quanto à aplicação da legislação neste lado do Atlântico.

A questão é muito mais complexa do que o habitual argumento que por vezes é usado “é uma empresa privada e só tem conta no Facebook quem quer”. Na verdade, o Facebook tem muitos dados sobre pessoas que nunca tiveram Facebook e isso acontece porque a ferramenta incentiva os utilizadores a permitirem o acesso à sua lista de contactos, seja e-mails, seja agenda telefónica, como forma de “ajudar” a encontrar amigos. Com esta técnica, o Facebook saberá de imediato o nome, email, telefone, morada e toda a restante informação que a agenda de cada utilizador contenha. O que inclui, potencialmente, pessoas que optaram explicitamente por não usar o Facebook. Mas o que esta rede social sabe sobre essas pessoas não fica por aqui. Nos telemóveis com Android, quando o Facebook pede para aceder à agenda telefónica, ganha (ganhava; isto já foi corrigido) acesso às chamas e SMS do utilizador, algo que o Facebook usou para registar quem telefonava a quem, a que horas e durante quanto tempo. Idem para as SMS. E fê-lo sem dar uma única pista de que o iria fazer. Este acto, além de ser um abuso da permissão dada pelo utilizador, regista, potencialmente, dados de pessoas que optaram por não usar o Facebook.

Há um enorme fosso onde cai a ética destas novas empresas que têm como modelo de negócio espiar as pessoas por forma a vender publicidade a elas direccionadas. Não se trata apenas do Facebook, mas sim de todas estas .com que “oferecem” produtos gratuitos. Na verdade,  não estão a oferecer coisa alguma. Apenas estão a lançar mel para atrairem utilizadores, pois estes são a matéria prima para o seu negócio. Um cidadão holandês quis saber quanto valiam os seus dados pessoais e fez um leilão para os vender. Conseguiu 350€. Outros conseguiram mais dinheiro, havendo quem passasse os 2700 dólares, mas teve que partilhar o que escrevia, os movimentos do rato e o seu ecrã a cada 30 segundos. Muito ou pouco, o certo é que estes dados têm um certo valor comercial, pelo que fica claro que o serviço não é gratuito – é pago com matéria prima.

Muitas pessoas não se importarão com a cedência dos seus dados pessoais. Possivelmente, já têm diversos cartões de pontos de supermercados, bombas de gasolina e de milhas de voos. Mas há quem preferia não estar nesse grupo e não se deve permitir que uma empresa possa recolher dados sobre essas pessoas. Isto é algo que tem que ser corrigido e deverá ter consequências por ter sido feito. Nem que tal signifique o desmembramento de empresas. Quando a Microsoft era um monstro monopolista, esta foi partida e daí não veio mal ao mundo. Permitiu, até, que outros monstros surgissem, tal como foi o caso da Google.

Vamos, portanto, ver o que sairá desta audiência. As peças do xadrez estão em movimento. Esta jogada poderá ter mais alcance do que se vislumbra, nomeadamente pela destruição da ferramenta que deu a vitória a Trump. Sim, porque há muito de política neste tabuleiro. Não terá sido, certamente, um súbito acesso de decência que terá invadido o Senado americano. Tanto Republicanos, como Democratas, estão insatisfeitos com o Facebook. Os primeiros porque a rede  censurou conteúdos da direita mais estrema e os segundos porque acham que a vitória de Trump aconteceu por causa do Facebook.

Seja o que for, uma alteração radical e perda de força da empresa de Zuckerberg só fará bem ao mundo. O Facebook, e demais .com, tem uma estratégia de emparedamento da Internet. Por exemplo, é difícil encontrar um post do Facebook fora deste. E, adicionalmente, Google e Facebook controlam o mercado publicitário mundial. Portanto, menos poder para estas empresas só poderá ser saudável. É um caso a seguir, a começar pelas bolsas de amanhã.

Na imagem: momento em que um dos senadores mostra um extracto dos termos de serviço da empresa GSR, depois de Zuckerberg ter afirmado que a empresa não vendia os dados dos utilizadores  

(post actualizado quanto à legenda da imagem: os termos de serviço são da GSR e não do Facebook, tal como estava escrito inicialmente. https://www.theguardian.com/news/2018/apr/10/cambridge-analytica-and-facebook-face-class-action-lawsuit

Comments

  1. Paulo Marques says:

    “Quando a Microsoft era um monstro monopolista, esta foi partida”
    Lol. Claro que não foi, umas doações à administração Clinton e a questão desapareceu.

    Adivinhem o que fez o Facebook.
    https://www.fastcompany.com/40555613/next-week-facebook-will-find-out-if-all-those-campaign-contributions-bought-it-any-friends-in-congress

    • j. manuel cordeiro says:

      Deixou de poder usar informação privilegiada da unidade dos sistemas operativos para as outras unidades. Antes, fazia-o, ao ponto de ser a única empresa que tinha novas versões do Office prontas no mesmo dia em que era lançado uma nova versão do Windows. Esta mudança teve impacto reduzido porque a concorrência da altura (Wordperfect, Lotus,..) já tinha sido aniquilado, por um lado porque tardaram em perceber que o MS-DOS estava morto e que deviam apostar no MS Windows. E por outro porque a Microsoft usava funcionalidades do Windows que não estavam documentadas como forma de fazer coisas que a concorrência não conseguia fazer.
      https://www.infoworld.com/article/2639497/techology-business/how-did-wordperfect-go-wrong-.html

      A mudança com impacto real foi, no entanto, refere à integração do browser Internet Explorer (IE) no sistema operativo Windows. A prática que a empresa estava a levar a cabo consistia em ter funcionalidades do sistema operativo que só podiam ser asseguradas pelo IE, dando-lhe uma vantagem competitiva face aos outros browsers. Tendo sido obrigada a esta separação, ficou aberto o caminho para que o Firefox, Opera e Chrome seguissem o seu caminho. Mais, impediu que a Microsoft condicionador a definição de standards proprietários (lembram-se do “Optimizado para Internet Explorer”?), o foi um forte incentivo para a interoperabilidade entre sistemas diferentes e, em última análise, permitindo que a escolha do browser fosse apenas baseada na sua qualidade, em vez de ser nas funcionalidades proprietárias que cada qual tentava impor.

      • Fernando Manuel Rodrigues says:

        No entanto, a Apple faz a mesmíssima coisa que a Microsoft (além de coisas muito piores, como fuga aos impostos) e não lhe acontece nada.

        Alegam que é porque não tem o peso da Microsoft. No entanto, é a empresa mais rica do mundo, e tem um peso enorme no mercado das comunicações móveis, onde vende os seus produtos a preços absolutamente “pornográficos”.

        Também recolhe dados dos seus clientes, tal como o Facebook, e até já chegou ao ponto de criar uma “rede” que quase obriga os pequeno “developers” a vender as suas aplicações através da “Apple Store” (algo que Microsoft e Google correram a copiar). Também tem intervido, e com um peso enorme, no mercado da música (e em minha opinião, de forma nada benéfica). E não lhe acontece nada.

        • Carlos Almeida says:

          Sr F Rodrigues

          Para alem do que acusou e muito bem a Apple, há uma coisa que se calhar a maior parte das pessoas desconhece: Quando qualquer dispositivo a correr o SO da Apple, tenta aceder à Internet, antes de qualquer coisa, o dispositivo vai ter que se registar no site da Apple. Sem se conseguir registar no site da Apple, não há Internet, que era o que acontecia nos Hotspot.
          Quando o utilizador tentava autenticar-se no Server do Hotspot, não conseguia.
          Esse Hotspot tinha que estar preparado com uma espécie de “porta do cavalo” por onde saia a autenticação na Apple, antes da autenticação nos dados do Hotspot.

      • Paulo Marques says:

        Não quis dizer que as coisas não mudaram, mas não mudaram tanto como se fosse partida.
        Afinal de contas, na década seguinte viciaram e destruíram a credibilidade da ISO para implementar um standard cheio de caixas negras e financiaram um troll num processo sem qualquer mérito para descredibilizar o software livre. E uns jantarzinhos com políticos impediram a adopção por entidades públicas de software livre e formatos abertos, mantendo a necessidade das empresas em manter toda a stack.
        E, com a Windows Store, 20 anos depois voltamos ao mesmo onde estávamos. Ou estaríamos, se a Internet e o Móvel não lhe tivessem dado as voltas

    • j. manuel cordeiro says:

      As doações feitas aos políticos são uma forma legal de corrupção. Na América, sendo a principal forma de financiamento eleitoral, tem perpetuado situações graves, como a força da NRA, atentados ecológicos, a actividade da Monsanto, constituição de monopólios (comunicações, IT, etc.), saúde como puro negócio, etc, etc. O Facebook não é excepção. Mas meteu-se em terrenos pantanosas graças ao misto de ingenuidade e deslumbramento por parte do seu fundador. Vamos ver no que isto dá.

  2. Fernando says:

    Zuckerberg é um oligarca, mas como é da “America” não merece ser chamado de oligarca…

  3. Bento Caeiro says:

    “Há uma diferença fundamental entre a Europa e os EUA. Na primeira, os dados pessoais são encarados como sendo uma extensão da própria pessoa, a ela pertencendo. Já na América, os dados pessoais são propriedade da empresa que os recolhe.”

    Esta como muitas coisas por aí badaladas, são de uma enorme falácia. Até porque a prática – tal como no vôo do besouro – há muito desmentiu a teoria: na Europa, tal como nos EUA, os dados são de quem os recolhe – e tudo farão para os utilizar, porventura, procurando uma cobertura legar para o fazer; o que, como estamos fartos de saber, não acontece na maioria das vezes – daí algumas queixas.
    Os dados pessoais recolhidos para as listas telefónicas eram disponibilizados pelos próprios operadores a quem os quisesse comprar e já formatados de acordo com o solicitado. Mas não são caso único, não existe grande empresa que não o faça quer para seu uso quer para uso de outrem.
    Obviamente que o Facebook é uma brincadeira de miúdos, também, de graúdos. Mas a questão não é essa, a verdadeira questão está em torno do poder que o facebook proporciona, daí as tentativas, não de o impedir, mas de o controlar, na tentativa de o pôr ao seu serviço – tal sendo o caso no presente.
    Como processo de recolha de informação e, mesmo, tratamento e formatação segundo determinados critérios, não existe – neste momento – instrumento mais eficiente e, certamente, beneficia quem o domina e melhor o souber utilizar.
    Queixas? Foi chão que deu uvas e ainda a procissão vai no adro.

    • j. manuel cordeiro says:

      Percebo o argumento. Mas na Europa há uma base legal para argumentar. Nos EUA é o faroéste :).

      • Bento Caeiro says:

        Caro Manuel Cordeiro, mas os resultados finais são praticamente os mesmos, como se poderá verificar no que respeita ao uso indevido de dados, por exemplo, em Portugal.

        • j. manuel cordeiro says:

          Tenho que discordar 🙂 Posso decidir se me é vantajoso ou não apresentar um processo a quem não cumpra a legislação sobre a protecção de dados pessoais. Mas posso-o fazer, contrariamente aos EUA.

          E a diferença também se vê na nova legislação GDPR que entrará em vigor no próximo dia 25 de Maio. Ainda hoje recebi este email da Google que a seguir transcrevo.

          Dear Google Analytics Administrator,
          Over the past year we’ve shared how we are preparing to meet the requirements of the GDPR, the new data protection law coming into force on May 25, 2018. Today we are sharing more about important product changes that may impact your Google Analytics data, and other updates in preparation for the GDPR. This e-mail requires your attention and action even if your users are not based in the European Economic Area (EEA).
          Product Updates
          Today we introduced granular data retention controls that allow you to manage how long your user and event data is held on our servers. Starting May 25, 2018, user and event data will be retained according to these settings; Google Analytics will automatically delete user and event data that is older than the retention period you select. Note that these settings will not affect reports based on aggregated data.
          Action: Please review these data retention settings and modify as needed.
          Before May 25, we will also introduce a new user deletion tool that allows you to manage the deletion of all data associated with an individual user (e.g. site visitor) from your Google Analytics and/or Analytics 360 properties. This new automated tool will work based on any of the common identifiers sent to Analytics Client ID (i.e. standard Google Analytics first party cookie), User ID (if enabled), or App Instance ID (if using Google Analytics for Firebase). Details will be available on our Developers site shortly.
          As always, we remain committed to providing ways to safeguard your data. Google Analytics and Analytics 360 will continue to offer a number of other features and policies around data collection, use, and retention to assist you in safeguarding your data. For example, features for customizable cookie settings, privacy controls, data sharing settings, data deletion on account termination, and IP anonymization may prove useful as you evaluate the impact of the GDPR for your company’s unique situation and Analytics implementation.
          Contract And User Consent Related Updates
          Contract changes
          Google has been rolling out updates to our contractual terms for many products since last August, reflecting Google’s status as either data processor or data controller under the new law (see full classification of our Ads products). The new GDPR terms will supplement your current contract with Google and will come into force on May 25, 2018.
          In both Google Analytics and Analytics 360, Google operates as a processor of personal data that is handled in the service.
          For Google Analytics clients based outside the EEA and all Analytics 360 customers, updated data processing terms are available for your review/acceptance in your accounts (Admin ➝ Account Settings).
          For Google Analytics clients based in the EEA, updated data processing terms have already been included in your terms.
          If you don’t contract with Google for your use of our measurement products, you should seek advice from the parties with whom you contract.
          Updated EU User Consent Policy
          Per our advertising features policy, both Google Analytics and Analytics 360 customers using advertising features must comply with Google’s EU User Consent Policy. Google’s EU User Consent Policy is being updated to reflect new legal requirements of the GDPR. It sets out your responsibilities for making disclosures to, and obtaining consent from, end users of your sites and apps in the EEA.
          Action: Even if you are not based in the EEA, please consider together with your legal department or advisors, whether your business will be in scope of the GDPR when using Google Analytics and Analytics 360 and review/accept the updated data processing terms as well as define your path for compliance with the EU User Consent Policy.
          Find Out More
          You can refer to privacy.google.com/businesses to learn more about Google’s data privacy policies and approach, as well as view our data processing terms.
          We will continue to share further information on our plans in the coming weeks and will update relevant developer and help center documentation where necessary.
          Thanks,
          The Google Analytics Team

        • j. manuel cordeiro says:

          Alterações significativas devido à GDPR: data retention policy; user data deletion tool; user consent to collect data.

          Pode acontecer que acabe por ser uma inutilidade, tal como aconteceu com as cookies. Ou não. Vamos ver. Estes três tópicos têm potencial para alterações significativas.

          • Cheira a Bolachas... says:

            “Google Analytics will automatically delete user and event data that is older than the retention period you select. Note that these settings will not affect reports based on aggregated data.

  4. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Concordo que as audições do Senado norte-americano são bem mais temíveis que as audições parlamentares em Portugal. Mas é preciso ter em conta alguns detalhes:

    Os senadores, por norma, têm um “staff” vasto e altamente qualificado, que lhes faz o “trabalho de casa” (ou trabalho de sapa, se preferirem), o que lhes permite estar muito mais bem preparados para esta audições.
    Embora, em princípio, estejam ligados aos partidos, os senadores são eleitos nimnalmente, e respondem em primeiro lugar perante os eleitores do estado que o elegeu, o que lhes dá, por um lado, muito maior independência e autonomia, e por outro maior responsabilidade perante oe seus eleitores, que os conhecem e podem interpelá-los (e fazem-no, muitas vezes).
    Sendo eleitos uninominalmente, os senadores p+recisam de “mostrar serviço” perante os seus eleitores (e não perante os partidos, que pouco contam para a sua eleição). Por isso lutam muito mais pelos interesses dos seus estados, que são quem os elegfe (eles são eleitos estado a estado).

  5. Cláudia Paiva Silva says:

    So agora observei que és leitor daquela suposta bosta que é o meu blog (isto palavras minhas quando o comparo com coisas realmente boas como o teu espaço de opinião)
    Sobre o tema em apreço. Só menciono isto: Nonio… Uma novidade portuguesa que é a cópia chapada do Facebook em termos de uso e gestão de dados dos utilizadores nacionais..

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