O eterno pára-arranca da Educação

Santana Castilho*

 

1 . Como é sabido, está a ser testado em 235 escolas, desde Setembro transacto, um projecto de autonomia que lhes permite definirem estratégias diferentes de ensino em 25% da carga curricular. Não se conhece qualquer avaliação consistente sobre a experiência. Mas o Governo aprovou a generalização da autonomia e flexibilidade curricular a todas as escolas do ensino básico e secundário. E para completar o quadro surreal de tudo isto, a generalização é … facultativa.  

Do mesmo passo, foi igualmente aprovada a reintrodução no currículo oficial da área de Cidadania e Desenvolvimento, que Nuno Crato, sob a designação de Formação Cívica, havia abolido em 2012. E foram definitivamente extintos os cursos vocacionais, a partir do 5º ano, igualmente instituídos por Nuno Crato, para alunos que manifestavam repetidos insucessos em sede de currículo regular. 

Finalmente, o quadro de mudanças eliminou aquilo a que o Governo chamou “requisitos discriminatórios” para acesso ao ensino superior dos alunos dos cursos profissionais e artísticos (dois exames nacionais, um dos quais de Português). Recorde-se que, até agora, apenas 16% dos alunos desta via prosseguiram estudos superiores: 10% em cursos de especialização tecnológica ou cursos de técnicos superiores profissionais, que não outorgam o grau de licenciado, e apenas 6% em cursos de licenciatura.  

2 . O Governo nomeou Jaime Carvalho e Silva, da Universidade de Coimbra, para dirigir um grupo de trabalho que deverá mudar os programas de Matemática introduzidos por Nuno Crato. Está reaberta a discórdia entre a Sociedade Portuguesa de Matemática e a Associação de Professores de Matemática. Jorge Buescu, presidente da primeira, perguntou (Público de 10.4.18):

“Não tem sido, afinal, opinião unânime dos agentes do sistema educativo que todos os indicadores de sucesso em Matemática têm vindo a melhorar, alguns deles espectacularmente, na última década e meia? Como é possível que, da noite para o dia, se descubra que afinal se vive um estado de emergência e que, mais uma vez, é preciso mudar tudo?”

Lurdes Figueiral, presidente da segunda, lamentou (Correio da Manhã de 5.4.18) o “tempo perdido”, defendendo que os programas já deviam ter mudado. 

Ora, para além do anterior, que é essencial, há o complementar, que torna o problema algo caricato. Admitem os intervenientes (e o próprio secretário de Estado também o afirmou) que não haverá novos programas para 2018/19. Sendo assim, só em Setembro de 2019 qualquer alteração poderá ser operada, donde a pergunta óbvia: admite-se que uma mudança deste tipo, com a polémica que lhe está associada, seja decidida por um Governo em final de mandato?

3 . A incompetência, que virou obstinação, de Alexandra Leitão, foi corrigida pelo Parlamento (votos a favor do PSD, CDS-PP, PCP, PEV e BE, abstenção do PAN e voto contra do PS), ao decidir realizar este ano um concurso de mobilidade para os docentes dos quadros, por ela grosseiramente prejudicados em Agosto de 2017. Perdeu-se um ano para corrigir os danos causados a, pelo menos, 799 professores. Mas desmentiu-se o ministério, que sempre afirmou tratar-se de um conjunto residual de docentes. Entretanto, o tempo que decorreu para corrigir o erro provocou e vai provocar prejuízos graves. Quem os compensará? 

4 . Falta-me espaço para falar sobre o monumento ao “eduquês” que é o Parecer do CNE sobre o Regime Jurídico de Educação Inclusiva. De todas as tolices que aí estão impressas, retiro a paradigmática substituição da velha sigla NEE (Necessidades Educativas Especiais) pela ultra moderna CJNMMASAI (Crianças e Jovens com Necessidades de Mobilização de Medidas Adicionais de Suporte à Aprendizagem e à Inclusão). É de tirar o folego a qualquer. Mas é útil para alimentar o caos da gestão pedagógica do ministério, preparar para o que se seguirá e desviar as atenções, como convém, do reposicionamento e recuperação do tempo de serviço dos professores.

*Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt) 

Comments

  1. amiguel says:

    De verdade é lamentável que um sector fundamental, fundamentalíssimo, como é o da Educação não seja “manuseado” com rigor e bom-senso. Bastava, se é que bastava, ir ver, investigar e trazer o que de bom se faz lá fora, Suécia, Noruega, Irlanda, Japão e não só. É procurar nos melhores e trazer o melhor, discutir com toda a Sociedade portuguesa, sem complexos.
    Não é preciso inventar nada, mas é preciso ter bom-senso, conhecimento, capacidades, humildade, dignidade, carácter e ausência de partidarite.
    Precisamos de um ensino elevado, abrangente, integrada e
    integrante que cuide de todos e tenha por objectivos satisfazer as áreas cultural, económica, relevância para o turismo e tecnológica.
    Formar portugueses e portuguesas para Portugal e não para
    pagarmos a formação que depois é adquirida pelos outros países, Inglaterra, EUA,França, Alemanha, etc. que dispõem dos nossos formados sem terem tido custos.
    Temos excelentes professores e excelentes alunos, a matéria prima, é pena que tenhamos, infelizmente, na políticas lamentáveis aprendizes de feiticeiros

    • Paulo Marques says:

      “Formar portugueses e portuguesas para Portugal e não para
      pagarmos a formação que depois é adquirida pelos outros países”

      Bom, para servir à mesa não é preciso grande formação, por isso qualquer coisa está bem.

  2. amiguel says:

    Em tempos, para uma convenção do Partido Socialista:

    António Manuel Martins Miguel
    economista
    Email: ammmiguel@gmail.com

    QUE ESCOLA PARA O SÉCULO XXI

    Tendo recebido o convite para participar neste evento, sobre um assunto tão importante para a vida dos povos e em particular de Portugal, dada a minha ausência de Portugal, (encontro-me no Ceará/Brasil) lamentei de imediato essa minha impossibilidade.

    Como militante do Partido Socialista (8149), como cidadão preocupado que desempenhou funções diversas em Portugal, – adjunto no gabinete de 3 ministros (Nobre da Costa, Almeida Santos, Jorge Coelho), vice-presidente do Instituto Nacional do Desporto, administrador de empresas, professor no ensino superior, vereador, dirigente desportivo, etc. – não quero deixar passar esta oportunidade, de, mesmo ausente, dar o meu simples contributo e, mais uma vez, dizer presente, quando estamos numa complicada encruzilhada que exige séria ponderação, elevado bom-senso, grandes competências, visão estratégica na condução do Povo, capacidade de diálogo e aglutinação de boas-vontades.

    Sabemos quanto difícil está em ser professor e ser aluno, compreender o caminho que está a ser trilhado pelos mais diversos actores na área da Educação, numa Sociedade de exigências múltiplas, onde a solidariedade e a liberdade, mais do que nunca, terão que ser factores de inclusão, para alcançarmos uma Sociedade mais justa, por que mais equilibrada.

    Para além de matérias insubstituíveis de formação técnico-cultural, as quais deverão integrar-se num Plano Estratégico Nacional e não surgirem desgarradas sem sentido do que se deseja para Portugal a curto, médio e longo prazo, há que integrar disciplinas que tenham por base o respeito pela Vida, sendo esta humana, animal, vegetal e mineral. Em resumo, respeito por tudo que existe no planeta Terra.

    Tal como existe um QI-Coeficiente de Inteligência, está provado, cientificamente, que há um QE-Coeficiente de Espiritualidade. É a esta área, a da Espiritualidade, que teremos que dedicar a necessária atenção e implementá-la desde o ensino pré-básico ao superior, sem complexos, com a certeza que esse é, e será, o desafio há muito tempo no terreno, pronto para as grandes mudanças necessárias, indispensáveis e inevitáveis.

    A ética, a solidariedade, o respeito e amor pela vida, a emotividade, a consideração pelo “outro” que devem estar presentes em todos os nossos actos, na construção de uma Sociedade mais justa, equilibrada e por isso mais feliz. Onde o respeito pelo “outro” tem que ser a coluna dorsal, a linha-mestra do sistema.

    O respeito pela Vida é condição sine qua non, para termos cidadãos mais sãos em todas as áreas da actividade humana, permitindo retornos de uma rentabilidade inimaginável. Essa consciência, esquecida ao longo dos anos, de séculos, é a base fundamental, o pilar principal, na construção duma Sociedade não agressiva, menos competitiva no TER e mais criativa no SER. Impõe-se que se discuta e estude esta oportunidade


    • Caro amiguel,

      subscrevo na íntegra o seu comentário e comungo da sua sensibilidade, nos três pilares que julgo essenciais ao Homem:

      “…o respeito pela Vida, sendo esta humana, animal, vegetal e mineral. Em resumo, respeito por tudo que existe no planeta Terra.”
      “…está provado, cientificamente, que há um QE-Coeficiente de Espiritualidade. É a esta área, a da Espiritualidade, que teremos que dedicar a necessária atenção e implementá-la desde o ensino pré-básico ao superior, sem complexos, com a certeza que esse é, e será, o desafio há muito tempo no terreno, pronto para as grandes mudanças necessárias, indispensáveis e inevitáveis.”
      “O respeito pela Vida é condição sine qua non… o pilar principal, na construção duma Sociedade não agressiva, menos competitiva no TER e mais criativa no SER. Impõe-se que se discuta e estude esta oportunidade.”

      Fazem muita falta pessoas como o senhor na nossa classe dirigente!

  3. JgMenos says:

    Tudo dirigido para fazer da diferença uma medíocre igualdade, pela mãos de medíocres para quem recusar o bom-senso é a mais alta fórmula da inovação.


    • “Artigo 1:

      Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

      Artigo 4:

      Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o tráfico de escravos, sob todas as formas, são proibidos.

      (Declaração dos Direitos Humanos)"

      Que seria do JgMenos e a sua medíocre “diferença” …

    • ZE LOPES says:

      Não tenha receio, que ninguém quererá ser igual a V. Exa. Nem sequer mediocremente. Lagarto, lagarto, lagarto…

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