Motivações do eleitorado

No próximo Domingo os brasileiros irão muito provavelmente derrotar o candidato do PT. Fartos de corrupção, de insegurança, da crise, a expectativa dos eleitores é mudança. Para muitos, a eleição de Jair Bolsonaro é consequência, a grande motivação passa pelo afastamento do PT, que consideram prioritária, fundamental e necessária para uma mudança no Brasil. Por muito que alguns desconfiem de Bolsonaro, a vontade de afastar o PT fala mais alto.

Em Portugal temos dificuldade em conhecer semelhante lógica, desde logo porque não sofremos diariamente com índices de criminalidade sequer aproximados aos do país irmão, nem apesar das vicissitudes, conhecemos um nível comparável de corrupção.

Hoje mesmo tive oportunidade de relembrar a um amigo paulista, a célebre frase de Lampedusa, “por vezes é necessário que algo mude, para que tudo fique na mesma”, quando lhe perguntei se acredita mesmo que Bolsonaro irá acabar com a corrupção, a resposta foi inequívoca, “provavelmente não, seguramente que não, mas o facto de mudarmos alguma coisa já vai ser positivo…”

Em Portugal ainda estamos longe de viver algo parecido, mas lembremo-nos que Jair Bolsonaro não é um novato, há muitos anos que vai a eleições, só que nunca passou de outsider, a saturação das pessoas perante um partido que esteve anos no poder e fez o contrário do que prometeu, a insegurança, a corrupção, promoveram um improvável político de 5ª linha a próximo inquilino do Planalto. Se os processos mediáticos como a “operação marquês” vierem a resultar em nada, se os políticos e partidos tradicionais continuarem a fazer orelhas moucas às preocupações das pessoas, desvalorizando tudo o que saia fora do chamado politicamente correcto, o caminho fica livre para um populista que fale ao coração dos que defendem o politicamente incorrecto. Basta-lhes começar por eleger um ou dois deputados, a partir do momento em que ganharem assento parlamentar, a passadeira para o crescimento eleitoral fica estendida. Não pensem que os portugueses são todos de brandos costumes…

Comments


  1. “Derrotar o PT”?

    Tinha ideia que o atual presidente Temer não era do PT…

    • António de Almeida says:

      Poucos consideram o Temer alguma coisa… a motivação é mesmo afastar o PT, mais que eleger o Bolsonaro. Claro que uma dúzia de brasileiros com quem falo, não representam amostra alguma. Mas nas peças que vamos vendo na tv portuguesa, vemos apoiantes de Bolsonaro contra o PT. E do PT contra Bolsonaro. Ninguém liga pevide ao Temer…

  2. Paulo Marques says:

    Se o politicamente correcto que fala é a liberdade do mercado de trabalho, a eficiência do mercado para a habitação, a metáfora das continhas certas no estado ou os amanhãs que cantam da reforma qualquer-dia-destes da eurolândia em crise há 10 anos, tem toda a razão.
    Se não é, é mais um que não percebe porque é que os votos são o que são na Europa, que têm tanto a ver com a corrupção como com os refugiados.

  3. Rui Naldinho says:

    A sua alusão a José Sócrates só pode ser para fazermos aquele sorriso amarelo, e perguntar:
    Cá dê os outros?
    Ora, o Eng. José Sócrates é fruto do enorme tráfico de influências e compadrios de que este país é vítima, vai para muitas décadas. Ou melhor, desde que começamos a receber fundos comunitários, isto tem sido um regabofe.
    Eu também quero o José Sócrates na prisão, melhor mesmo seria ele devolver tudo até ao último tostão, caso se prove a sua culpabilidade, nos processos de que é acusado. Nessa matéria, a sua vontade não é maior do que a minha, garanto-lhe.
    Mas antes, muito antes, quero ver os nossos banqueiros no lugar para o qual querem mandar Sócrates, a cadeia. Mas não só. Há outros. Duarte Lima é um bom exemplo. E aí as provas são por demais evidentes. Não há bodes expiatórios, nem empréstimos de amigos, como no caso de Sócrates. Há sim gestão danosa. Faliram bancos. O Estado teve de intervir para evitar prejuízos maiores. Esses bancos tinham administradores. Gente muito bem remunerada para ser competente, e para não ser aliciada nestas falcatruas. Estão à espera de quê para os condenar? Que prescreva? Ou que eles morram?
    Não, preocupam-se apenas com o Vara e com o Sócrates, como se as nossas maleitas se resumissem a isso.
    Aqui um Bolsonaro dificilmente resistiria, e cairia no ridículo, porque também não somos o Brasil. Longe disso. Tal como os Ingleses não são a USA.
    A construção social nas antigas colónias, está longe de ser um caso de sucesso, em qualquer ponto do globo, mesmo em países como Canadá. Pelo contrário, assentou sempre numa lógica de escravatura, racismo, eliminação dos povos autóctones, exploração dos recursos por uma minoria, sem que o Estado fosse ao menos compensado financeiramente pelas concessões. Enquanto na Europa essa construção social vem da luta de classes, que se desenvolveu com o processo de industrialização. O aparecimento do marxismo é uma consequência disso. Mas desenganem-se aqueles que pensam não ser possível o aparecimento de fascismos na Europa. A Globalização, a seguir este rumo, tal como estamos, vai deixar o caudal dos “deserdados da fortuna”, cada vez em maior número, e aqui a “fortuna” significa, empregos com salários justos e duradouros, no limiar do desespero.
    Nessa altura, talvez uma Le Pen Tuga possa dar um “ar da sua graça”.


    • Muito bem, Rui Naldinho !

      Eu só acrescentaria :

      A CORRUPÇÃO impune e
      “… A Globalização, a seguir este rumo, tal como estamos, vai deixar o caudal dos “deserdados da fortuna”, cada vez em maior número, e aqui a “fortuna” significa, empregos com salários justos e duradouros, no limiar do desespero. ”

      Porém em mensagem que todos mas só alguns poderemos vislumbrar algures, os extra terrestres que botaram vida inteligente neste Planeta maravilhoso e que neste momento e desde há muito estão arrependidos e a clamar “mea culpa” a todos os deuses do Universo, garantem-nos que o que nos foi retirado/roubado em todos os aspectos pelos vampiros monstros criados neste sistema, sendo de todos, se converterá no tal vómito de fartura obscena aonde eles se virão a afundar no próprio esterco !!!

      ….só que….sobrará ainda algo ?

  4. mdlsds says:

    De brandos costumes não direi, mas estúpidos quero acreditar que não somos. O meu filho tem 21 anos, nasceu e cresceu em boa altura e, felizmente, quando a crise se instalou não o afetou. Mas cresceu a ouvir falar sobre o que os avós passaram antes do 25 de Abril, sabe muito bem o que Cavaco e Passos Coelho e companhia cá andaram a fazer e sabe também sobre a cartilha do Costa. Já escolheu o seu partido e já votou. De parvo tem pouco e não o vejo a contribuir para a eleição de uma besta. Os meus pais fizeram a parte deles, eu e as minhas irmãs fizemos as nossas, se cada um fizer a sua garantidamente não seremos um país de idiotas sujeitos a mais um ditador. Pelo que vejo acho até os portugueses muito evoluídos. É pouco inteligente até substimarem-nos. Sou uma optimista.

  5. ZE LOPES says:

    “quando lhe perguntei se acredita mesmo que Bolsonaro irá acabar com a corrupção, a resposta foi inequívoca, “provavelmente não, seguramente que não, mas o facto de mudarmos alguma coisa já vai ser positivo”…

    Ora aqui temos um bom início de novela! Cena dos próximos capítulos:

    O amigo paulista vai parar à cadeia por se ter rido durante um discurso do Presidente Bolsonaro. Aí apanha um arraial de pancada por não querer denunciar os vizinhos que se riram ao mesmo tempo. Pergunta o torcionário:

    Quer continuar a levar pancada, ou passamos aos choques elétricos? Pensa que vai ser melhor para si?

    Resposta do paulista: “provavelmente não, seguramente que não, mas o facto de mudarmos alguma coisa já vai ser positivo”…

    • ZE LOPES says:

      Qual é a cena seguinte? Ainda não se sabe. Mas os produtores já receberam várias propostas de agências funerárias para o “product placement”

    • Paulo Marques says:

      A ideia em si não é terrível, a alternância sempre é melhor que o clubismo. O momento e o candidato em particular é que tornam a ideia idiota.

  6. ZE LOPES says:

    Há dias, num comício, Bolsonaro, para mostrar erudição e respoder aos que acusam de falta de cultura, resolveu reproduzir o célebre Grito do Ipiranga de D. Pedro, ao decalarar a independência do Brasil : “independência ou morte!”.

    Resposta dos apoiantes: “Morte! Morte!!!!!”

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