Jamaica

Pessoa amiga disse-me, há uns anos, depois de dar aulas a criancinhas de um bairro problemático, que nunca pensou ser possível odiar criancinhas de oito anos. Terão sido momentos, mas esses momentos em que o comportamento é todo bairro, já família, impõem a selvajaria na sala de aula, numa agressividade incontrolável, seja contra quem for. Coube a essa pessoa, irrepreensível, manter-se no seu posto, cumprindo um dever profissional e social, porque é a Escola que, tantas vezes, faz pelas crianças aquilo que família e sociedade não fazem, uns porque não sabem, outros porque não querem.

Imagino o que será a raiva reprimida de um polícia sério obrigado a lidar diariamente com gente agressiva que a sociedade mantém na pobreza e no crime ou com gente agressiva que se mantém na pobreza e no crime, que um pronome pode fazer diferença quanto às causas, mas não apaga a realidade. Explicar as razões de um crime não é, evidentemente, razão para perdoar um crime: se um polícia for agredido por um pobre ou por um negro, o pobre ou o negro continuam a ser criminosos, por muito que a vida lhes seja madrasta ou guarda prisional.

Se um polícia for apenas racista, não pode ser polícia. Aliás, se um polícia for apenas polícia, nem polícia pode ser, como poderia dizer Abel Salazar. Um polícia racista é só um criminoso.

Os políticos, a propósito do que se tem passado, limitam-se a fazer política, palavra que perdeu a nobreza que está guardada na etimologia: de um lado, um assessor deslumbrado pelo politicamente correcto ao ponto de ter querido apear uma estátua do Padre António Vieira, insulta indiscriminadamente a polícia; do outro, uma deputada pergunta ao primeiro-ministro se condena ataques a esquadras ou a destruição de caixotes do lixo, insinuando, portanto, que poderia não condenar. O PNR aproveita para fazer prova de vida do seu racismo.

Entretanto, uns quantos garantem que Portugal não é racista, enquanto outros tantos juram que sim, como se isto fosse assim tão simples. Para quem só quer falar, de qualquer modo, tudo é simples, folclore, História falsificada ou mal entendida, sociologia de bolso.

Comments

  1. Paulo Marques says:
  2. Rui Naldinho says:

    Para se perceber como se constrói uma “sociedade por quotas”, como o Bairro da Jamaica, no Seixal, maioritariamente ocupado por negros e uma meia dúzia de mestiços à mistura, é necessário conhecer a sua realidade existêncial, onde por exemplo, se integra a vida profissional de muita desta gente.
    Há anos tive o privilégio de passar cerca de seis meses num gabinete que fazia o atendimento, apoio e acompanhamento aos antigos combatentes do ultramar, para que estes pudessem auferir uma pequeníssima pensão atribuída pelo então Demagogo Mor do Reino, Paulo Portas, antigo ministro da defesa de Durão Barroso.
    Numa loja com meia dúzia de balcões de atendimento, estilo Conservatória do Registo Civil, os antigos combatentes, brancos, negros, mestiços e da cor que quiserem, reclamavam antecipadamente o direito a receber a partir dos 65 anos, essa pensão, paga uma única vez ao ano, cujo montante máximo era nessa altura de 160,00€. E não era para todos, pois havia três escalões. Mas para isso tinham de ter descontos na Segurança Social, na CGA, ou em qualquer outra Caixa, Portuguesa ou Estrangeira, que pagasse reformas. Ou seja, tinham de auferir uma pensão de aposentação, por mais pequena que fosse, caso contrário, nada receberiam.
    Quando os antigos combatentes de ascendência africana, eram bastantes, reclamavam nos balcões da Loja do Antigo Combatente, a sua “pensão do Paulo Portas”, constatava-se nos ficheiros que nenhum deles tinha pensão de reforma, por nunca terem feito descontos para a Segurança Social ou CGA, impossibilitados que estavam de receberem aqueles parcos 160,00€/ano. Por pouco que fosse, para eles já seria uma ajuda.
    Já no final da minha vida profissional, tive de novo a sorte de fiscalizar e inspecionar algumas pequenas e médias empreitadas de obras públicas, na grande Lisboa, ao nível da chamada “Higiene e Segurança no Trabalho”. Dos variadissimos casos com que me defrontei, o mais problemático foi perceber que havia quantidades enormes de trabalhadores africanos subempreitados, sem quaisquer descontos para a Segurança Social, muitos deles clandestinos, alguns deles menores de idade, enfim, um rol de atropelos e ilegalidades, típico de um país asiático ou da América latina. Tudo isto só possível, fruto do desespero e instinto de sobrevivência desta gente, e da complacência e vista grossa dos poderes públicos.
    Portugal tem uns políticos de merda que só olham para os números, nas suas mais variadas vertentes, no curto prazo. Nunca se pensa um pouco mais à frente.
    Depois admiram-se de haver estes pequenos submundos como o da “Jamaica”, onde germinam pequenos criminosos ou ódios contra a sociedade que em vez dos integrar e ajudar, apenas os explora.

  3. Julio Rolo Santos says:

    Estes bairros estão conotados com o consumo e venda de drogas e isso é mau para a maoiria das pessoas que la vivem e levam uma vida decente, trabalham e têm filhos. Generalizar negativamente é mau, difícil é saber como se deve resolver o problema dos delinquentes e não São tão poucos como se imagina. Atirar a polícia para aqueles bairros é expo-los ao suicídio quando sabemos que não têm o apoio na retaguarda para no caso de algo correr mal como foi o caso recente no bairro da Jamaica.


  4. Os polícias são, portanto, o bode expiatória da incompetência e demagogia dos políticos nacionais e dos autarcas mais preocupados em gritar por políticas de solidariedade do que em praticá-las, dizendo-se de esquerda. Isto para não falar na inenarrável manifestação frente à Câmara do Seixal cheia de betinhos onde a comissão de moradores do bairro se demarcou, percebendo a demagogia e a guerra entre esquerdas.


  5. Hoje ouvi e vi na TV que no Seixal há uma oficina de reparação de instrumentos musicais de sopro, arte que tende a desaparecer. O seu proprietário já se propôs dar formação mas ninguém o apoiou. Quantos jovens daquele bairro não dariam por bem empregue o manuseamento e reparação de instrumentos musicais. Que os podia transformar em trabalhadores ou empresários em vez de desempregados? A autarquia conhece esta oficina? Ou é musical demais?

    • Julio Rolo Santos says:

      Aqui está uma boa sugestão pena é que a CMS não acarinhe a ideia visto que estas não abundam como seria de esperar sobretudo por parte daqueles que lamentam a triste sorte de quem quer ter uma oportunidade na vida. Seria uma boa oportunidade para os autarcas mostrarem o que valem.

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