O Chega e a glorificação da criminalidade violenta

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Esta manchete é de 2018

Se Portugal fosse um país racista, segregacionista, as manifestações de homenagem a Bruno Candé corriam sérios riscos de serem abalroadas por contramanifestações de neofascistas e neonazis violentos. Felizmente, ainda não chegamos a esse ponto. O racismo existe, está impregnado no nosso tecido social, das mais variadas formas, mas os portugueses, é minha convicção, não são um povo estruturalmente racista.

Isso não significa que o racismo seja um fenómeno residual. Não é. E, a esse respeito, vivemos tempos perigosos, aqui e em todo o mundo democrático. Tempos de ressurgimento de forças que promovem o racismo e a xenofobia, não raras vezes com violência à mistura, e que dão voz à boa velha ilusão conspirativa da invasão árabe, que destruirá a tal democracia europeia que também eles querem destruir, e a submeterá a sharia qualquer. Tão útil que ela é, para contornar os princípios mais elementares que presidem às democracias liberais, e ir por aí fora, a atropelar direitos humanos e liberdades fundamentais, Tiananmen style. E dizem eles que não gostam dos chineses. Tomara eles, poder “governar” como os camaradas do PC Chinês (suspiro).

Por cá, promove-se o mártir possível que a extrema-direita conseguiu arranjar. O escolhido foi Evaristo Marinho, o homem que assassinou Bruno Candé com quatro tiros, numa rua movimentada de Moscavide. À entrada da prisão de Lisboa, onde está preso preventivamente, Evaristo Marinho foi perentório: “Em Angola, matei vários como este”. Não há arrependimento, o que não admira. Falamos de alguém que mandou um cidadão português, de raízes cabo-verdianas, regressar à senzala. Que, dias antes, lhe terá dito: “Tenho armas do Ultramar e vou-te matar”.

Mas se Evaristo Marinho não passa de um assassino, o mesmo não pode ser dito sobre três dirigentes do Chega que se manifestaram prontamente sobre este caso. Carlos Tasanis, conhecido pela sua ligação ao movimento neo-nazi Nova Ordem Social, e por ser o jota que acredita que “Salazar era um bom homem” e o “melhor estadista de sempre”, twittou o seguinte:

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Não, Carlos Tasanis não é o único a favor do criminoso de Moscavide. Manuel Matias, assessor do Chega e activista anti-laicidade do Estado, antigo presidente do Partido Pró-Vida (oh, the irony!), vai mais longe. Para ele, a culpa é do Estado, porque “Portugal não racista, o Estado é que é corrupto e não defende os cidadãos de bem”. Tipo aqueles cidadãos de bem que usam uma pistola 6.35, roubada à PSP, para executar um cidadão português com quatro tiros, em plena luz do dia, para que todos pudessem ver, crianças incluídas. Muito católico, muito pró-vida.

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Finalmente, o inevitável CEO da sua própria sociedade partidária unipessoal. “Nada neste homicídio aponta para crime de ódio racial”, escreve André Ventura, que, incomodado com a multiplicação de homenagens a Bruno Candé, decidiu fazer a sua própria contra-manifestação. Porque se sentiu ameaçado por manifestações de pesar por mais uma vítima da tal criminalidade que o Chega diz querer combater? Ou porque já não consegue controlar as pulsões autocráticas, e quer crescer nas ruas, para mostrar força e tentar tomar o poder de assalto?

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E, por falar em “Nada neste homicídio aponta para crime de ódio racial”:

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Não sei se Portugal é um país racista, e estou convencido de que não é tão mau como alguns o querem pintar. Mas sei que Portugal tem agora um partido de extrema-direita, que agita as bandeiras da justiça, da segurança e do combate à criminalidade, o que não o impede de albergar e ter como dirigentes indivíduos que defendem, promovem e glorificam um criminoso violento, que assassinou um cidadão português com uma arma roubada às forças de segurança. Assim se honra a pátria, na era do fascismo do terceiro milénio.

*****

P.S: O que se passou no início da semana, em frente à sede do SOS Racismo, não é grave por ter sido em frente à sede do SOS Racismo. Teria sido grave em qualquer local ou ponto do país. E não, não tem rigorosamente nada a ver com o propósito de homenagear um agente da autoridade caído em serviço. Todos os heróis deste país merecem homenagem. Tem a ver com fazê-lo mascarado e de tocha não mão. Isto não é uma homenagem. É uma declaração política, ainda que feita por cidadãos possivelmente não-partidarizados – não sabemos, não lhes pudemos ver a cara – e tem uma mensagem óbvia e objectiva. Já vimos estas máscaras e estas tochas no Brasil, nos EUA e noutras paragens que julgávamos imunes. E estamos a dar uma de Chamberlain, a entregar os Sudetos aos nazis, porque, em princípio, vai correr tudo bem e a extrema-direita vai ser razoável. 1938 all over again.

KKK

Comments

  1. POIS! says:

    Pois é muito simples!

    Se um tipo der uma arrochada no Manuel Matias ficamos a saber que a culpa não é dele! É um falhanço do Estado! Ou então do próprio Matias por não ter sido capaz de educar o Estado!

    Quanto ao Carlitos a mensagem é simples: “será que anda tudo com falta de tasanis?”. Mas, quando o confrontarem a resposta vai ser: não me referia propriamente ao Evaristo. Há muitos outros idosos em moscavide, note-se, com letra minúscula. É outro idoso e outro moscavide. Nem sabe até quem fez o tuíte, que já foi apagado.

    Qunto ao Venturinha, pois terá razão quando diz que, neste caso, nada aponta para crime de ódio racial. Quando o Evaristo diz que “em Angola, matei vários como este” referia-se a atores, e só no palco e a fingir. Em Angola dedicava-se às artes cénicas.

    E o Evaristo julgava até que a arma, por vir das forças de segurança, não disparava. Foi enganado por um agente desmotivado e a precisar de aumento que lhe vendeu a arma porque o Estado falhou.


  2. Se pegarmos neste ou naquele vamos encontrar um quadro de misérias tão variadas quanto se queira encontrar.
    O homem é um assassino e vai dentro.
    Se matou em Angola, até pode ser uma vítima do fascismo com seu stress pós-traumático, coitadinho (se fosse militante de esquerda, naturalmente!).
    Certo e seguro é que matou numa má época, em que o corretês está com esta cena do racismo muito a peito.
    Daí que sendo ele branco e a vítima preto, ele é mais criminoso e a vítima é mais vítima.

    • POIS! says:

      Pois nem mais! Ou melhor, nem Menos!

      Assassino que se preze pondera sempre a época antes de dar um tiro.Realmente estamos numa época muito má para homicídios. A altura ideal teria sido lá por alturas da Páscoa, mas estava tudo confinado e, nessa altura, o Evaristo andava a ajudar o Matias a passear os crucifixos.

      Tem razão Manuel Matias, aqui o Estado falhou totalmente ao não definir uma época de caça aos homens de 38 anos, tal como o faz com a perdiz, a rola ou mesmo a sardinha. Os idosos precisam muito de aliviar o stress e nada há como uma mão-cheia de tiros para relaxar e espantar a soturnidade que invade os cidadãos de bem depois de uma vida de trabalho..

      Sim, deve levar-se-se em conta que o Evaristo, segundo o fervoroso cristão pró-vida Matias, agiu “depois de uma vida de trabalho a pegar numa arma de fogo”, o que é, realmente, muito stressante.

    • Paulo Marques says:

      “O racismo existe, está impregnado no nosso tecido social, das mais variadas formas, mas os portugueses, é minha convicção, não são um povo estruturalmente racista.”

      Nem pareces de esquerda… Os povos são todos iguais, porque as pessoas são todas iguais; o que difere são as instituições que os influenciam de formas perceptíveis ou nem tanto, sejam formais ou informais.
      E se uma mãe nem pensa duas vezes no que significa exibir um filho como prova que não há problemas numa manifestação, até lhe saltarem em cima, algo vai muito mal de estrutural no país.

  3. João says:

    Leio alguns comentários e percebo o quão a sociedade está doente. Felizmente AINDA são uma minoria e, mesmo que algum dia consigam ser alguma coisa, serão sempre pequeninos no que toca a valores e a princípios. São como aqueles parolos que compram carrões porque não têm mais nada de significante para exibir, tal como a sua vida. Anda aí uma onda a espalhar a mensagem dos hitlerilas que por aí polulam.

    PS – Já agora, que se aproveite, de uma vez por todas, para aumentar a pena máxima em Portugal que é ridícula.

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