Basta não falar dele?

Entre os adversários do Chega, há quem defenda que não se deve falar do Chega, que já chega.

Não tenho soluções. Contudo.

(Não tenho soluções, ficais já avisados, é, aliás, o título da autobiografia que nunca publicarei)

As pessoas que fazem afirmações destas têm uma crença definitiva no poder do silêncio. Nada tenho contra o silêncio, que prefiro mil vezes ao barulho, mas não consigo perceber como é que se combate um inimigo de que não se fala. Nem o demónio é ignorado na Bíblia e olhai que a Bíblia sempre é a Bíblia.

Imagine-se o comandante de um exército, rodeado pelos seus conselheiros, mapas espalhados pela mesa de campanha, alguns cachimbos, semblantes gravíssimos, cenhos franzidos. Um conselheiro mais inexperiente arrisca:

  • Talvez devêssemos atacar os ruinlandeses neste…

Não chega a acabar a frase porque sente imediatamente uma pasta com sabor a ferro na boca, percebendo que tem um dente partido. Depois de levar alguns pontapés no chão, o comandante, humano, sereno, levanta a mão:

  • Vamos parar com isso, não somos assim tão selvagens.

O desgraçado levanta-se, tentando perceber o que lhe aconteceu. O comandante, olhando para um infinito próximo, explica:

  • Aqui não se fala dessa gente, porque, se falarmos, eles passam a existir. Isso quer dizer que deixarão tanto mais de existir quanto mais não falarmos deles.

O politraumatizado ainda balbuciou:

  • Mas como vamos combater?

O comandante não consegue evitar que a voz lhe saia mais elevada. Academia Militar, condecorações, vitórias várias, umas, morais, outras, por falta de comparência, anos de experiência a anular o inimigo e ainda tinha de explicar o óbvio:

  • O combate faz-se calando. Nunca ouviu dizer que o calado é o melhor? E tirem-me daqui estes mapas, que ainda digo alguma coisa que não devo.

No campo dos ruinlandeses, diante do silêncio alheio, urdiam-se planos em sossego, a ventura sorria.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Mas convém não fazer o oposto, ir buscar o bicho para falar em toda e qualquer altura. Já vimos esse filme, e para quem foi lucrativo.

  2. Filipe Bastos says:

    História engraçada, Nabais, mas presume-se que os ruinlandeses atacam com armas e balas, não com demagogia e ‘tuítes’ pífios. O silêncio funciona um pouco melhor contra estes.

    A histeria anti-Chega, como o Paulo já constatou, é todo o objectivo do chuleco Ventura: estar sempre na agenda merdiática.

    Caso ainda não tenha reparado, ser vilificado pela esquerda e pelo establishment só reforça a sua fachada de outsider, de contestatário do regime, de herói que diz as verdades inconvenientes.

    Em vez de tentar ‘cancelá-lo’, como dita a actual moda woke, ou de pintá-lo como o anticristo, seria mais útil – e democrata – explicar porque é que ele não tem razão e produzir argumentos que as pessoas entendam… e queiram. Não obrigá-las a querer.

    • Paulo Marques says:

      Não foi isso que eu disse, foi que a promoção na comunicação social beneficia os donos desta. Desde que lhes cortem os impostos e afastem pretensões de direitos laborais, qualquer um lhes dá. Seja hoje, seja em 2016, seja em 1930.

    • Filipe Bastos says:

      OK, e é também verdade, mas não deixa de beneficiar o chuleco Ventura. O propósito deste é que falem dele, bem ou mal; e sempre que o regime fala mal dele, ganha duas vezes.

      Muita gente está farta do regime e desta classe pulhítica, com toda a razão. Ser-se criticado por ela é uma vantagem, não um problema. Creio que certa malta aqui não entende isto.

      • joão lopes says:

        “ser-se criticado por ela…”,então o deputado eleito ou o governante eleito perde direitos como cidadão?não pode falar?não pode criticar? não pode falar de alguns cidadãos de Castro Verde terem envenenado 5 milhafres reais em 3 de dezembro deste ano? ou de cidadãos de Almeirim mandarem frigoríficos para o Tejo,sistematicamente?

      • Paulo Marques says:

        Sim, e não. O problema é que muitas vezes se fala para quem já discorda, e em termos vagos ou mais eruditos, e não para quem pode ser eleitor, onde não conhecem tão bem o filme, mas conseguem ver com quem anda.

  3. joão lopes says:

    Também prefiro o silencio de Marvão,por exemplo,mas aqueles concertos de musica clássica(este ano interrompido) são únicos.De qualquer maneira o K7 ventura deve falar e ser ouvido(embora um vinil riscado seja terrivel).Alem disso ,o Tiago do IL,pobre rapaz,agora também é esquerdalho.,pelo menos foi o que disse a K7.Ó Tiago,lá tens que gramar uma sopa da pedra no Avante.

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