Vai ficar tudo bem? Não,vai ficar tudo na mesma

A organização international ONE – que conta, no seu “board of directors”, com perigosos paladinos anti-capitalistas como David Cameron, Lawrence Summers, Sheryl Sandberg ou Bono Vox – publicou, no final da passada semana, um relatório que revela que o excedente de vacinas adquirido pelas nações mais ricas (UE, EUA, UK, Austrália, Canadá e Japão) seria suficiente para vacinar toda a população adulta do continente africano. Só que não, porque vamos todos sair disto mais unidos e fortes, a fazer corações com as mãos e a desenhar arco-íris nas janelas, a cantar kumbayas e o “põe tua mão na mão do meu Senhor”. E vai ficar tudo bem, eventualmente, excepto para aqueles que nasceram do lado errado da sociedade capitalista.

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    De acordo com o espírito do post, mas África tem dos números covideiros oficiais mais baixos: muito mais baixos que os da Europa, da América ou da Ásia.

    Neste caso, tirando a Austrália e o Japão, o dinheiro até coincide com a necessidade. A crer-se nos números e na necessidade, claro.

    • POIS! says:

      Pois tem V. Exa. manadas de razão.

      Uma das principais caraterísticas do COVID em África é que mata essencialmente africanos. Por isso os custos são incomparavelmente menores.

      Já quando mata um filandês, por exemplo, pode estar em risco o novo Nokia que é tão fino que dá para palitar os dentes e se for um alemão ainda pior, o Mercedes com “jacuzzi”, movido a energia produzida por hamsters a pedalar, pode nem ver a luz do dia. E um português, então nem se fala: pode causar uma recessão irreversível nos mercados dos produtores de alvarinho e de trabalhadoras do sexo.

    • Filipe Bastos says:

      Bem verdade, POIS, mas os números permanecem: África tem muito menos infectados e mortos que os outros continentes, com excepção da Oceânia.

      Números não são racistas ou colonialistas, são números. Pode-se não acreditar neles, mas isso é outra história.

      Esta hipocrisia dos Camerons e Bonos da vida esconde outra: adoram dizer aos pobres dos países ocidentais que comparados aos pobrezinhos de África são ricos. E que portanto escusam de protestar ou querer mudanças, pois têm muita sorte.

      • POIS! says:

        Pois já estou esclarecido!

        Estava desconfiado do seu comentário. Era muito manso.

        Estava à espera de uma coisa do tipo:

        “As vacinas são produzidas por laboratórios mamões e compradas por chulecos que recebem comissões sobre as compras.

        Agora organizações de chulecos vêm dizer que são precisas mais vacinas para África, em vez de fazerem ver aos africanos que antigamente estavam muito pior.

        Sim, nunca estiveram tão bem e só se queixam porque são infantis. Primeiro temos de resolver outros problemas causados pelos chulecomamões e pelos mamochulecos, e depois já se pensa nisso dos covides, malárias e outras coisas”.

        Mas, depois de ler o segundo, fiquei descansado. Tal como disse aquele gajo que roubou um piano e o levava ás costas quando foi apanhado, “foi num momento de fraqueza”.

      • Filipe Bastos says:

        Pois a sua desconfiança não era totalmente imerecida: creio mesmo que as vacinas, como tudo na Big Pharma, enchem muito mamão e muito chuleco. E creio mesmo que isso tem de acabar.

        Sou contra toda a saúde privada excepto em estética e afins, i.e. tudo que seja essencial. O POIS discorda?

        Os “covides, malárias e outras coisas” deviam ser a nossa 1ª prioridade, não este absurdo carrocel de bullshit jobs e mama capitalista. E o problema começa no Ocidente: é aqui que estão os grandes mamões, os donos do mundo.

        Por isso, sim, para poder resolver os males de África temos de resolver primeiro os nossos. A começar pela falta de democracia e pela desigualdade extrema.

        • POIS! says:

          Pois não, não discordo.

          Porquê? Estava à espera que discordasse?

          Mas o problema é muito mais complexo que isso. As atividades privadas situam-se a níveis muito variados. Assim é na medicina como em muitas das outras atividades económicas.

          É uma boa discussão: o que é que deveria estar totalmente sob o controlo do Estado, e o que ficaria para os outros setores: cooperativo, social, privado.

          A estatização total falhou, no sentido em que deixou de existir, salvo umas exceções que costumam ser apontadas, mas nem sempre com rigor.

          Para exemplo, Cuba tem já 2000 tipos de atividades que admitem investimento privado, mesmo na Coreia do Norte a estatização já há muito deixou de ser total. E o ex-líder da IL, Carlos Guimarães, até foi dar aulas de liberaleirismo para o Vietname, onde liberalismo impera, e impera mesmo, no sentido em que é imposto por uma ditadura.

          Curiosamente a nossa Constituição, particularmente na sua versão inicial de 1976, definia ( e ainda define, mas…) precisamente a nossa economia como um sistema misto, onde coexistiriam diversos sectores de propriedade (pública, privada e cooperativa), sendo as atividades económicas enquadradas por um Plano, imperativo para o Sector Público e indicativo para os restantes.

          Sim, a saúde não deve existir segundo a lógica da empresa privada porque o lucro é incompatível com a sua função social.

          Mas já não sei dizer se algumas atividades não poderiam ser abertas a iniciativa privada, desde que devidamente enquadrada. E eventualmente produtora de um “lucro” que se deve entender como um “excedente socialmente legítimo” e, como tal, limitado, nas palavras que cito de cor de um escrito de Orlando de Carvalho, um antigo professor de Coimbra já falecido.

        • Filipe Bastos says:

          Pois nada contra um sistema misto, pelo contrário, o Estado perderia muito sem a iniciativa privada.

          O exclusivo estatal resume-se a algumas actividades: saúde, educação, segurança, água, energia, dinheiro, combustíveis, comunicações, … aquelas que sabemos essenciais e/ou transversais, com uma função social, ou onde monopólios ou oligopólios são particularmente nocivos. Não é uma lista muito difícil de fazer.

          Há depois outro critério: a dimensão. Qualquer empresa acima de, digamos, mil milhões, deve ser parcialmente pública. Não pode haver ‘too big to fail’, ou o poder do Google, do Facebook, da Amazon, etc., sem escrutínio público e controlo democrático.

          O Plano que indica é uma hipótese, mas sei que divergimos quanto à sua validação: para mim tem de ser referendado. Não pode ser outra Constituição criada e ‘interpretada’ à revelia da população.

          Por fim, a limitação do lucro. É indispensável. Do lucro e da riqueza. É-me incompreensível como tantos toleram tanta desigualdade. A sério que não percebo. Talvez sejam pessoas melhores do que eu, mais pacientes, mais sábias, mais tolerantes… é possível.

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