Derrubar o Padrão dos Descobrimentos e outros talibanismos

Não é um fenómeno novo, mas ganhou uma dimensão mediática que, numa era sem redes sociais, não seria possível de forma tão fácil, rápida ou impactante. Falo na tentação dos diferentes poderes, para, em determinado momento, quererem destruir estátuas, edifícios ou registos históricos de uma era ou tempo que rejeitam, ou ao qual se opõem, pelos mais variados motivos, legítimos ou não, que não é nova nem particularmente surpreendente. Mas é, regra geral, uma pulsão que peca por inútil, e que apenas serve para alimentar ódios e divisões, e evitar que as feridas sarem, para que seja possível, de uma vez por todas, seguir em frente.

Não se apaga a história: aprende-se com ela. E a memória viva dos acontecimentos trágicos, sejam eles o Holocausto, a Inquisição ou as diferentes colonizações – e todas as ondas de choque que delas resultaram, até às descolonizações mais ou menos violentas, que levaram ao poder novos facínoras, outrora combatentes da resistência contra as forças ocupantes – devem, em todos os momentos, servir como faróis para que a Humanidade não volte a cometer os mesmos erros. Por muito que a história insista em se repetir.

É legítimo que um negro estado-unidense queira derrubar estátuas que celebram generais confederados, como é legítimo que os habitantes de Estados outrora ocupados pelo rolo compressor soviético queiram destruir todas as representações artísticas do estalinismo, como não é menos legítimo que Ascenso Simões pretenda a demolição do Padrão dos Descobrimentos. E é frequente, no day after de qualquer revolução, que quem se liberta destrua os símbolos do regime deposto. É, convém recordar, é quase sempre uma questão de perspectiva ideológica. Se Ascenso Simões defendesse a destruição de um qualquer palacete dos tempos da ocupação muçulmana, não lhe faltariam adeptos entre aqueles que agora rasgam as vestes por este alegado insulto à pátria. Azar o nosso, foram todos abaixo. Não tivemos o olho para o turismo dos espanhóis.

A propósito, o argumento do insulto à pátria é um insulto à inteligência dos portugueses. Destruir uma estátua não apaga nem belisca a memória daqueles que ela representa. Quando um regime muda, insisto, os seus símbolos tendem a cair. Foi assim com as estátuas de Saddam. Tende a acontecer, quando as revoluções acontecem. Porém, se as revoluções não os destruirem, em princípio é deixá-los ficar. Se a humanidade seguisse, em todos os momentos, essa orientação, na próxima semana já não haveria Taj Mahal, pirâmides em Gizé ou Coliseu em Roma. Provavelmente, nem a Kaaba ou a Basílica de São Pedro resistiriam.

Os novos talibans, sedentos de revoluções culturais que derrubem os Budas hereges ou que apaguem a história, sentem hoje que têm a missão de derrubar estátuas, edifícios e registos históricos associados a períodos de má memória. Ao fazê-lo, as estátuas derrubadas transformam-se em símbolos de resistência ou de novos ódios, agravando a balcanização ideológica reinante, alimentando a radicalização, já de si crescente, e levando, por fim, aos mais variados conflitos. E isso traz consigo um efeito perverso, que não é inocente, porque é dele que vivem os novos populistas e extremistas que emergem entre o caos e a divisão. No entanto, são as liberdades, os direitos e as ideias que se devem sobrepôr. Derrubar o Padrão dos Descobrimentos não traria grande mal ao mundo. Mas de que serve? Não deveríamos antes estar a discutir o porquê de ainda não termos fechado o capítulo da ditadura fascista e da guerra colonial? Em que medida é que derrubar uma pedra esculpida com as imagens de navegadores portugueses contribui para o que quer que seja? Em princípio, não contribui para nada. Ou não ser, lá está, para manter a chama do conflito acesa.

Comments

  1. Alexandre Barreira says:

    …….acho bem……derrubem o Padrão dos Descobrimentos…e no seu lugar…o Padrão do COVID….ficava giro…..!!!

  2. Paulo Marques says:

    Chegou a haver algum argumento sério a favor de demolir o padrão?
    Já as estátuas confederadas têm outro contexto, com um propósito indiscutível à data que nunca deixou de ser assinalado.
    E também temos o caricato, transformar o Pavilhão da Utopia no Altice Arena.

  3. JgMenos says:

    «Destruir uma estátua não apaga nem belisca a memória daqueles que ela representa.»
    Evidência mendes, de 1ª categoria!

    «não é menos legítimo que Ascenso Simões pretenda a demolição do Padrão dos Descobrimentos»
    «Quando um regime muda, insisto, os seus símbolos tendem a cair.»
    Mudou o regime dos descobrimentos!

    A isto se resume a cultura abrilesca:; tolera-se todo o disparate desde que o coirão do autor invoque ser contra um regime que acabou vai para 50 anos.

    Má consciência esta, que em vez de se rever no que fez e faz sempre procura execrar o que outros fizeram.
    É o que há a esperar desta ralé!

    • Paulo Marques says:

      O botas descobriu a Índia há 50 anos?

      • POIS! says:

        Ah sim! Mas foi há mais!

        Há 60 anos descobriu que até a que restava lhe tinham tirado!

        • JgMenos says:

          Um é, na melhor hipótese, disléxico, o outro não perde a oportunidade de fazer a figurinha do costume.

          • Paulo Marques says:

            Se só desconversas ou projectas, a gente levaria-te a sério por que razão?

    • José Peralta says:

      Ó “menos”

      «não é menos legítimo que Ascenso Simões pretenda a demolição do Padrão dos Descobrimentos» ?

      Não sou “advogado de defesa” do Ascenso !

      Mas depois da calinada, o homúnculo, tentando justificá-la, logo foi dizendo (pormenor que ignoraste…maganão !) que ela, a calinada, foi feita em sentido “epistemológico”…

      • JgMenos says:

        Nem sabia que o cretino conhecia a palavra.
        Mas a ideia persiste: apagar tudo que signifique grandeza de propósito e de acção; tudo conformar à vil tristeza que é o paraíso dos medíocres.

        • POIS! says:

          Pois claro!

          E não há maior grandeza que a simbologia patente no Padrão: o Infante, intrépido e resoluto, apontando o caminho do Mar da Palha, como quem afirma à malta que se apinha atrás dele : “Ide e descobride. Daide novos mundos ao Mundo. Quando voltardes à vossa espera estará este cesto de Pastelinhos de Belém que tenho na mão e vos matará a larica. O primeiro a chegar tem direito a dois”.

          Sim , o Infante, aquele que descobriu o Mundo todo ser ter tido necessidade de sair de casa, antecipando assim em vários séculos a Globalização, estava consciente que a dieta de vários meses à base de vinho e especiarias acabava definitivamente com as lombrigas mas deixava os descobrideiros perfeitamente derreados e a cheirar a vinha de alhos.

  4. Filipe Bastos says:

    No geral de acordo com o João Mendes, com uma ressalva: estas demolições não são uma revolução ou queda do regime. O regime, a partidocracia e o capitalismo dominante continuam de pedra e cal.

    Como revolução cultural é também curta: derrubadas as estátuas e imposta a terminologia PC pela brigada woke, que terá realmente mudado? Mais uns negros e gays nos media? É só ler o Guardian: artigo sim, artigo não, foto sim, foto sim, temos mulher, negro, gay, muçulmano, ou (para bingo) tudo isto junto.

    A revolução é fácil de resumir. Branco europeu e heterossexual mau; tudo o resto bom, ou pelo menos aceitável. Só o branco é inaceitável e tem de mudar já, agora mesmo. Não veremos a malta woke a dar sermões na Ásia, na África ou na América do Sul, onde o racismo vai muito além de ‘micro-agressões’. Quem tem rabo tem medo.

    Ah, e o Ascenso. Que dizer de um monte de merda como o Ascenso?

    • Paulo Marques says:

      A malta não vive na Ásia, vive cá. E, mesmo assim, fala nos genocídios pela China, Israel e Turquia, por exemplo.
      Mas, sim, não mudou nada. A polícia continua irreformável, a Markle um ataque à monarquia, o problema dos subúrbios de Londres continuam a ser as minorias, a transfobia vende livros, os Republicanos continuam a restringir o direito de voto, as linhas de desemprego na América continuam cheias de negros, o único problema em Espanha é a Catalunha, o técnico da Goldman vai salvar Itália… é quase como se fosse importante para o sistema que nada mude.
      Ah, mudou uma coisa, ficou-se a saber que afinal é o Filipe que lê o Guardian…

    • Filipe Bastos says:

      A entrevista da Markle e do panhonha do marido à Oprah é um bom exemplo da sua causa: dois multimilionários a queixar-se a uma bilionária. Todos uns oprimidos, claro.

      Os subúrbios de Londres têm vários problemas, alguns deles, sim, com minorias. Ou melhor, chamemos as coisas pelo nome. Não sei de problemas com lituanos ou nepaleses. São negros que andam à facada, e são grooming gangs sobretudo muçulmanos que prostituem crianças de 12 a 16 anos.

      Claro que jamais o saberia no Guardian: lá isto é tabu. Tal como foi tabu a agressão sexual a centenas de alemãs numa só noite, ou os abusos diários a mulheres, gays e ao que calhar por certa religião, apesar de toda a retórica feminista e pró-gay.

      Porque será? Sendo especialista deve saber. Duas hipóteses:
      1) na ‘interseccionalidade’ woke há uma hierarquia, como na tropa ou na bisca, e a carta do Islão bate todas; só depois vem a raça, depois o género, etc.
      2) as mulheres não andam à bomba nem à facada, o Islão sim; como já vimos acima, quem tem rabo tem medo.

      • Paulo Marques says:

        Descobriu a causa de relativizar o racismo sempre que pode como forma de alguém o ouvir. É uma escolha. Quando vieram para si, já sabe, está sozinho.

      • Filipe Bastos says:

        Como assim? Sozinho já estava: não sou muçulmano, nem negro, nem gay, nem trans… nem sequer mulher!

        Sou um dos opressores, dos privilegiados, lembra-se?

  5. amiguel says:

    Pois se assim fosse feito, como alviltrou Ascenso Simões, deputado do PS, que vive arrogantemente à custa dos portugueses, teríamos que derrubar pontes e outros monumentos deixados pelos romanos, obras feitas pelos espanhóis e ingleses, teríamos que acabar com o vinho do Porto.
    Enfim….sempre nos saiem de vez em quando umas boas bestas….

    • Paulo Marques says:

      As pontes já passam a monumentos, tal o disparate a quem umas dúzias de bandeirinhas metem medo.

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