Cristiano Ronaldo, Coca-Cola e o Europeu dos autocratas

Gostei de ver a UEFA a sair em defesa da Coca-Cola, na sequência da ronalidice a que assistimos há uns dias. Até porque nem todos se podem dar ao luxo de cuspir no prato onde comeram, como fez Cristiano Ronaldo.

Por causa deste episódio, fui espreitar os patrocinadores oficiais do Euro 2020. E descobri que pelo menos um terço das empresas patrocinadoras são geridas por oligarcas e directamente controladas por um regime totalitário:

Qatar Airways: a companhia aérea de um regime absolutista, cuja Constituição se baseia na Sharia, onde o testemunho de uma mulher em tribunal vale metade – literalmente – do testemunho de um homem, e onde se aplicam penas como a flagelação ou a lapidação. Direitos humanos? Que se fodam os direitos humanos.

Gazprom: empresa energética do regime russo, gerida por um oligarca que come na mão de Vladimir Putin, de seu nome Aleksej Miller. É também um dos principais patrocinadores da Liga dos Campeões. Como se o dinheiro do futebol europeu não fosse já suficientemente sujo.

Hisense: tecnológica chinesa controlada pelo regime de partido único chinês. Tem tentáculos no Schalke 04, na NASCAR, em provas organizadas pela Red Bull e já patrocinou, anteriormente, o Euro 2016 e o Mundial de 2018. Na volta também tratam da “segurança” destes eventos.

Tiktok: rede social chinesa, “propriedade” de Zhang Yiming, um empresário que é o 13° mais rico da China. Vassalo de Xi Jinping, a sua ByteDance, casa-mãe do Tiktok, é suspeita de ser uma fachada para um sistema de vigilância internacional do regime chinês, alimentada pela cortesia dos milhões de utilizadores do Tiktok.

Sorte desta malta, nenhuma destas empresas está sediada em Cuba, Venezuela ou Coreia do Norte, os três únicos regimes ditatoriais que o Ocidente democrático não tolera. Todos os restantes torturadores, lapidadores e assassinos são bem vindos e neoliberalíssimo capitalismo cá os espera, de braços e pernas bem abertas. Pelo preço certo em euros, tudo se resolve. Que role a bola.

Comments

  1. estevesayres says:

    Um artigo que tem na minha modesta opinião questões edeológicas… Até me parecem bem…
    Espero que um dia, escreva, sobre o capitalismo /imperialismo, e porque não sobre o fascismo , neofascismo e o social-fascismo. Até breve

  2. Rui Naldinho says:

    A UEFA tem dois pesos e duas medidas. Ou melhor, só tem uma medida. A do dinheiro.
    Se o assunto mete uma imagem de propaganda de Cristiano Ronaldo a rejeitar a Coca Cola, deixando as ações da empresa Norte Americana no amarelo, “aqui del rey” que a multinacional nos retira o apoio financeiro.
    Já se a coisa meter LGBT, ou seja, aquilo não dá dinheiro, dá sim respeito à diferença, personalidade e carácter a quem se assume, aí Jesus que isso é politicamente incorrecto.
    Vivemos num mundo de otários. E os otários somos todos nós, cada um à sua medida. Ainda não vi um “Camelo” que não gostasse de Coca Cola, quanto mais não seja para dar um arroto no fim. É isso e o McDonalds.
    Devemos queixar-nos de nós próprios. Sempre fomos indiferentes até passarmos a ser nós os fodidos.

    • Filipe Bastos says:

      Vivemos num mundo de otários.

      Folgo que tenha descoberto a pólvora.

      Só falta incluir os otários que ainda votam nesta partidocracia, assim legitimando esta bandalheira corrupta, e que continuam a branquear ou relativizar o saque do PS/PSD como o ‘mal menor’.

      E claro que quando sou eu a dizer estas coisas – otários, carneirada, chulecos, etc. – sou um botabaixista que ‘diz mal de tudo’. Sendo o Naldinho a dizer, deve ser uma observação razoável e pertinente.

  3. Filipe Bastos says:

    Este é o 3º grande problema da bola e do desporto em geral:
    1) Normalizar a desigualdade extrema.
    2) Distrair a carneirada do que interessa.
    3) Branquear e encher mamões, oligarcas e outros mafiosos.

    Este ano o ‘Chariots of Fire’, traduzido como Momentos de Glória, fez 40 anos. É aquele filme sobre os corredores ingleses nos jogos olímpicos de 1924, com música do Vangelis.

    Um dos pontos centrais do filme é o confronto do protagonista com o status quo da altura, representado por dois reitores muito snobs e arrogantes, como toda a upper class de então (e de hoje).

    Eles defendem que o amadorismo é a única posição digna de um gentleman. Ele discorda e diz-lhes: o futuro é dos profissionais.

    O futuro deu-lhe razão, claro; mas nisto a razão maior era a deles. O profissionalismo desvirtua mais o desporto do que o eleva; abriu as portas à ganância e aos valores obscenos, ao endeusamento de broncos, a todos os problemas que hoje tem.

    Acabar com o desporto profissional seria uma grande medida. No mínimo, taxá-lo a 100% a partir de certo limite.

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