Educação e SONAE ou a arte de desconversar

Com grande pompa, a SONAE passou a semana a desconversar sobre Educação.

Usando do sensacionalismo próprio dos maus autores, anunciou uma espécie de Toda a Verdade Sobre, a fazer lembrar, por exemplo, o recente desplante de José Gomes Ferreira, o autoproclamado melhor – ou mesmo único – historiador português.

A Fundação Belmiro de Azevedo publicou um, por assim dizer, estudo sobre o impacto do professor nas aprendizagens do aluno. E concluiu que os melhores professores têm um impacto mais positivo do que os maus, o que só está, efectivamente, ao alcance de mentes com quociente de inteligência estratosférico. Num vídeo, Manuel Carvalho, funcionário da SONAE, mostra-se entusiasmado com esta descoberta.

Basta ler a primeira página do estudo, para perceber que estamos diante de uma manifestação de preguiça, sendo que conseguem descobrir quem são os melhores professores com base no resultado de provas de aferição e de exames nacionais, ignorando (porque daria trabalho) um conjunto interminável de factores que contribuem para o sucesso escolar dos alunos (que, só por si, é uma expressão dúbia que os tudólogos pagos por fundações reduzem a classificações, neste caso, de provas externas). O Paulo Guinote publicou hoje uma crítica fundamentada ao estudo.

Entretanto, no lançamento de uma associação com o nome bem português Business Roundtable Portugal, Cláudia Azevedo, da SONAE, afirmou: “Temos de gerir a educação de forma diferente. Não pode ser como há 20 ou 30 anos. Noutros países já se ensina código informático nas escolas.” Nem uma referência, por exemplo, à perda da importância das Humanidades na formação dos cidadãos portugueses.

O estudo publicado faz parte de um processo que se arrasta há anos que tem por objectivo colocar as responsabilidades da Educação apenas sobre as Escolas ou, mais especificamente sobre os Professores, numa linguagem circular quase religiosa: com os melhores professores, os alunos têm melhores resultados nos exames; se os alunos não têm bons resultados nos exames, tiveram maus professores. Tal como a análise pervertida dos rankings, isto serve para desconversar e para não debater a sério os problemas que afectam as escolas, a sociedade e, portanto, o percurso dos alunos.

(Atenção, muita atenção: a qualidade dos professores é um desses problemas – reduzir a questão a isto é, isso sim, desconversar)

As declarações de Cláudia Azevedo fazem parte de uma visão que quer que a Escola prepare trabalhadores e não cidadãos. Desconversar dá jeito: a cultura humanística e científica é um luxo que só deve ser alcançado por quem, por exemplo, puder frequentar o colégio EFANOR, da SONAE, pois claro.

Comments

  1. Filipe Bastos says:

    As declarações de Cláudia Azevedo fazem parte de uma visão que quer que a Escola prepare trabalhadores e não cidadãos.

    Cidadãos desempregados? Longe de mim defender o mamão SONAE, mas o país está cheio de sociólogos, psicólogos, filósofos, advogados, jornalistas… muitos deles em caixas de supermercado, enquanto faltam técnicos e programadores.

    Os melhores são sempre os autodidactas: os currículos das escolas, até das faculdades e cursos supostamente tecnológicos, estão sempre 5 a 10 anos desfasados da realidade. É o pior dos dois mundos: os licenciados não sabem escrever duas linhas sem dar três erros, e pouco ou nada sabem programar.

    A economia e o mercado de trabalho valorizam os trabalhos e as competências erradas, fomentam bullshit jobs, desigualdade, consumismo e um monte de trampa que tem de mudar; mas a solução não é certamente formar mais sociólogos e advogados.

    A questão de fundo, até antes da escola, é que sociedade e que futuro queremos ter; como alcançá-los; e que equilíbrio é possível entre o inevitável planeamento central necessário para alcançá-los, e a economia de mercado de que tão cedo não nos livramos.

    • POIS! says:

      Pois é!

      Faltam técnicos e programadores para construir uma verdadeira sociedade de técnicos e programadores.

      Esta malta não exerga que o futuro já está passado e que, se queremos andar para a frente, temos de dar um salto para a frente e cair de cú na caixa de areia da sexta revolução industrial.

      E tal.

      • Abstencionista says:

        “…o futuro já está passado e que, se queremos andar para a frente, temos de dar um salto para a frente e cair de cú na caixa de areia da sexta revolução industrial.”

        Quando estás sóbrio não te envergonhas das burrices que escreves no Aventar?
        Ou nunca estás sóbrio?

        • POIS! says:

          Pois é!

          V. Exa. agora passa atestados de sobriedade? Onde é que arranjou mais esse tacho? Nalguma tasca?

          Quanto ao resto: não é nenhuma vergonha para V. Exa. confessar, assim abertamente, a sua iliteracia. São coisas da vida, vida essa que V. Exa, ou nunca teve, ou terá sido horrível, ou ambas.

          O homens com H grande medem-se por outras qualidades que, desafortunadamente, V. Exa. também não possui.

        • POIS! says:

          Pois faltou a resposta à última pergunta…

          Estou sempre sóbrio. Mas não sou fundamentalista. Por vezes fico um bocado Abstencionista mas, nessa altura, não tenho tempo de comentar.

    • António Fernando Nabais says:

      A solução não é formar mais sociólogos ou mais advogados, a solução é dar, o mais possível, a cada um a possibilidade de estudar aquilo que muito bem entender. A empregabilidade é algo a ter em conta, evidentemente, mas, mais uma vez, não pode ser o único critério para se decidir aquilo que se estuda, do mesmo modo que um cidadão é um trabalhador, mas não é só um trabalhador.

    • Paulo Marques says:

      E quer fazer o quê a quem não tem aptidão para STEM, eugenia? E as humanidades que estudam porque é que o sistema não funciona para humanos, incluindo a meritocracia e exigir que ninguém cometa erros, são para calar?
      Para esquerdista, tá fraquinho.
      E não é esse o problema da Sonae, nem sequer aquilo que acha que sabe sobre informática. O problema é favorecer, ou, pelo menos, ignorar, as guerrilhas internas de quem tem poder e não quer ter responsabilidade, e quem lhes lamba os pés, regado a cada um por si e que faça as horas que tiver que fazer para perceber. Pode adivinhar a rotatividade, até porque também subcontractam. Os licenciados podiam ser os melhores do mundo, e se as maiores empresas vão buscar alguns, não estão longe, que os sistemas informáticos continuavam a ser uma manta de retalhos cheia de erros construída em disputas de egos.

  2. JgMenos says:

    Se alguém fala em reformas, os situacionistas ficam na pior!
    Tadinhso…

    • POIS! says:

      Pois tem V. Exa. toda a razão!

      E já o tinha afirmado na sua seminal obra “Teoria Geral dos Lagares de Azeite” e, especialmente, no capítulo inteiro do “best-seller” “Manual Prático de Saneamento Básico”. Está tudo lá!

    • António Fernando Nabais says:

      Verdades como punhos, ó menos! É assim mesmo! Abaixo a situação, viva a revolução!


  3. Seria interessante fazerem tambem um estudo sobra o impacto que os patrões exploradores e esclavagistas têm na vida dos seus trabalhadores e familias, por contraponto aos, poucos, que tratam bem e pagam bem. Aposto que a SONAE ficaria muito mal, mas mesmo muito mal, vista


  4. Devido à polémica do texto, volto aqui ao mesmo, mas de modo mais profundo.
    Como muito bem salientou o António, aquele naco de prosa, sequer é um estudo e por isso o refiro como “texto”. Ao contrário do referido em alguns comentários, o texto nada tem a ver com o futuro do país, mas antes com o futuro da mercearia. E esse é o seu 1º pecado original. Não que eu tenha algo contra as mercearias, mas quando alguma delas se quer identificar com o país, aí já sou totalmente contra.
    Pior ainda, esse desiderato pago pela mercearia para agradar aos merceeiros e dizer-lhes o que eles querem ouvir, pretende passar-se por científico. Assim, assume a postura da verdade absoluta, esquecendo no entanto as bases do método científico, aqui particularmente incómodo. Uma qualquer análise dos problemas educativos teria de começar por equacionar os diversos factores que concorrem para o problema detectado, hierarquizá-los e estudá-los com objectividade. Mas claro que isso é pedir demais àquelas mentes primárias. Em vez disso, optaram por atirar com umas fórmulas pseudo-científicas para deslumbrar o pagode e afunilar toda a problemática no elo final da cadeia hierárquica dos factores, a engrenagem de saída, o professor, ou seja o mexilhão.
    Esta estratégia tem várias vantagens para os merceeiros e sua entourage. Permite descartar todo o resto da hierarquia, esquecer o sistema económico, as políticas, os ministros, a burocracia e tudo o mais, para concentrar as atenções num bode expiatório, o mexilhão, exactamente aquele que por mais que faça está sempre condenado a ser o principal culpado.
    Acresce ainda e para piorar as coisas que a solução mágica é a automação, a coisificação, como se a escola fosse uma fábrica de hamburgers. Convém lembrar que esse tipo de raciocínio rasteiro, apresentado como grande novidade, grande descoberta, mais não é que o retomar do velho estruturalismo dos anos 60, ora apresentado como prato requentado e falto de toda a relação humana.
    Esses comissários arrivistas fingem não perceber que a problemática do ensino envolve pessoas, gente, seres humanos, logo impossivel de reduzir a números, estatísticas, gráficos, fórmulas. Não e NÂO! Por mais que se esforcem (e esforçam mesmo), nunca conseguirão numeralizar pessoas, codificar todos os comportamentos. Quem já trabalhou esse assunto sabe que haverá sempre acções, reacções, comportamentos, atitudes que escapam ao controle, às previsões, por mais (pesudo) científicas que aparentem ser. O ser humano é mesmo assim. Temos pena.