Bruxelas quer

Ah! As costas largas de Bruxelas. Ocorre-me claramente o que eu quero para “Bruxelas”, mas vou passar à frente.

O meu problema com este tipo de pressões reside em dois aspectos. Em primeiro lugar, o que é que acontece se os alunos, pura e simplesmente, optarem por não estudar? Isso deve ser imputado aos professores? Ao que sei, hoje em dia é corrente os alunos chegarem à sala de aula e mostrarem-se espantados por irem ter teste, tal é a atenção que dão ao seu êxito.

A educação começa em casa, coisa que os ideólogos do Excel preferem ignorar a cada vez que apenas olham para os números. E começar a educação em casa implica dar tempo aos pais para poderem acompanhar os filhos, o que entra em conflito com as correntes de flexibilização do trabalho – em particular, no que respeita vínculos precários e mais horas de trabalho por semana (chamam-lhe produtividade).
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E na Educação?

Nada se transforma, tudo se mantém. 

Desigualdades socioeconómicas e sucesso educativo ou a descoberta da pólvora

Saiu um estudo da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, intitulado Desigualdades socioeconómicas e resultados escolares – 3.º Ciclo do Ensino Público Geral.

Na p. 2, podemos ler: “Em termos de resultados e conclusões, o estudo sugere que em Portugal há uma relação muito forte entre o desempenho escolar dos alunos e o meio socioeconómico dos seus agregados familiares. Por exemplo, entre os alunos cujas mães têm licenciatura ou bacharelato, a percentagem de “percursos de sucesso” 2 no 3.º ciclo é de 71%, enquanto entre os alunos cujas mães têm habilitação escolar mais baixa, equivalente ao 4.º ano, a mesma percentagem de percursos de sucesso é de apenas 19%.” Leia-se, a propósito, a notícia do Público: “Quando a mãe tem a 4.ª classe, só 19% das crianças têm um percurso limpo na escola”.

Não nego a importância destes estudos, mas a verdade é que a correlação entre o desempenho dos alunos e o meio socioeconómico/sociocultural em que vivem é conhecida e reconhecida há vários anos, porque o assunto está estudado e porque os professores confirmam isso todos os dias.

Curiosamente, no mesmo estudo, há uma preocupação em repetir a ideia de que isso não equivale a destino:

as estatísticas apresentadas no estudo sugerem também que o nível socioeconómico não equivale a destino, ou seja, não determina de forma inapelável o desempenho escolar dos alunos. (p. 3)

Apesar de estas disparidades muito acentuadas mostrarem que as condições socioeconómicas das famílias têm um impacto elevado nos resultados escolares dos alunos, um impacto porventura maior do que o desejável, ao mesmo tempo é necessário salientar que as condições socioeconómicas não equivalem a um destino traçado, pois existem outras influências e fatores importantes em jogo. (p. 13)

Dos resultados da nossa análise subsiste, todavia, a importante mensagem de que o nível socioeconómico não equivale a destino, ou seja, não determina de forma inapelável os resultados dos alunos, escolas e regiões.

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A preparar o insucesso dos alunos

Para além de uma actualidade desastrosa na Educação, graças ao experimentalismo do ministro, vale a pena olhar brevemente para o futuro.

De uma maneira geral, vários ministros da Educação e alguns cúmplices mais ou menos assumidos têm declarado que o sucesso dos alunos depende exclusivamente – ou sobretudo – da escola ou, mais especificamente, do professor.

Esta afirmação pode parecer um elogio, mas, na realidade, é uma  desresponsabilização e uma mentira.

Começando pela mentira, sabe-se, empírica e cientificamente, que o meio socioeconómico em que uma criança é criada tem, na maior parte dos casos, uma influência enorme ou decisiva no seu sucesso escolar. Já escrevi sobre isso, no âmbito de uma polémica em que alguns aventadores participaram. Descobri hoje mais dois textos sobre o assunto: Poor Kids Are Starving for Words e Starting School at a  Disadvantage: The School Readiness of Poor Children. [Read more…]

Governo recomenda tratamentos a pessoas saudáveis

Vamos imaginar que uma pessoa está saudável. Percebe-se que lhe seja passada uma receita ou recomendado um tratamento? O leitor imagina-se, estando são e viçoso, a receber um vale para usar numa farmácia a fim de recolher, gratuitamente, medicamentos para curar doenças que não tem? [Read more…]

A emigração de professores e o insucesso educativo

O mais recente relatório do Conselho Nacional de Educação divulga alguns dados: um aluno que entre aos seis anos para o primeiro ano do primeiro ciclo (a antiga Primeira Classe), aos quinze deveria estar no nono ano, devendo iniciar a frequência do Secundário com dezasseis. Do universo de jovens com mais de quinze anos a frequentar a escola, no ano lectivo de 2009-2010, 43% ainda não estavam no Ensino Secundário. O estudo realça, ainda, o facto de que, em 2010, “14% dos alunos do sexo masculino que frequentavam o 12.º ano tinham 20 ou mais anos.”

Estes dados são, evidentemente, preocupantes e merecem uma análise aprofundada. O CNE conclui que “o sistema continua a não estar preparado para responder às necessidades da população que acolhe, utilizando muitas vezes a repetência como meio de superação de dificuldades.” Depois de se apontar como solução uma “mudança profunda na atitude dos professores e das escolas face ao insucesso dos seus alunos”, explica-se que isso se faz diagnosticando as dificuldades, para que haja uma intervenção precoce, tentando evitar a acumulação de retenções.

Nada de novo, vindo de uma entidade tutelada por Ana Maria Bettencourt. Nas escolas, os problemas são, na maioria dos casos, detectados e diagnosticados, mas muitos problemas de aprendizagem só podem ser resolvidos com trabalho individualizado e não no interior da turma, para não falar do peso que o ambiente socioeconómico tem no desenvolvimento intelectual dos alunos ou da pouca importância dada pela sociedade à Educação. Como, graças à mentalidade contabilistóide dos responsáveis políticos, as escolas têm vindo a ser privadas, cada vez mais, de recursos humanos, esse trabalho é impossível e, por muito boa vontade que exista, os problemas não são resolvidos, sendo certo que a reprovação acaba por ser o único recurso, mesmo sabendo da sua pouca eficácia. Ainda assim, se o CNE quisesse, mesmo, aprofundar esta investigação, ainda poderia chegar à conclusão de que há, provavelmente, demasiada benevolência por parte dos professores, sem o que a taxa de reprovação seria, ainda, mais alta.

Como de costume, em Portugal, as pessoas com poder de decisão ou de aconselhamento limitam-se a proferir leviandades: face ao insucesso educativo, que começa por um problema social, culpa-se os professores; diante do insucesso educativo, aconselha-se os professores a emigrar.

Os números do sucesso educativo

Governo traça metas para sucesso educativo (TSF)

A ministra da Educação está a pedir às escolas que tracem metas para melhorarem os resultados. Os novos objectivos de aprendizagem para o sucesso começaram, na terça-feira, a ser explicados pela ministra em Braga junto de mais de 300 directores de agrupamentos de escolas.

Pela voz da ministra da educação ficamos a saber que o governo quer que a educação em Portugal tenha maior sucesso. Não se reuniu nem se dirigiu aos alunos para que estes estudem mais. Nem aos pais para que melhor acompanhem os seus filhos. Não. Pediu às escolas que estabeleçam metas. É claro como água que os números sucesso educativo melhorarão e que os alunos continuarão a saber tanto quanto hoje sabem.