Joe Berardo, democracia e o monopólio da corrupção

A detenção de Joe Berardo, ainda que acabe por dar em nada (espero que não, teria muito gosto em vê-lo enjaulado durante vários anos e despojado de todos os bens, incluindo os que estão em nome de familiares e fundações, e deixá-lo só com o sorriso imbecil com que nos gozou a todos, há meses, na comissão de inquérito), bem como as prisões efectivas de Armando Vara e Duarte Lima, e, antes deles, de Isaltino Morais, ou mesmo José Sócrates, que chegou a ser detido, e que dificilmente escapará das acusações que lhe foram imputadas pelo juiz Ivo Rosa (wishful thinking, I know), pelas quais poderá passar mais de 10 anos na cadeia, são reveladoras de um aspecto que a cultura da indignação antidemocrática quer, a todo o custo, obliterar do espaço público, porque coloca em causa a narrativa e a agenda autoritária que se quer instalar no poder, seja através dos neofascistas agrupados no gangue chegano, seja através dos aspirantes a autocratas instalados noutros partidos, porque, uns e outros, continuam a ter em Salazar o seu referencial maior de estadista, na medida em que se possa chamar estadista à besta abjecta de Santa Comba Dão.

É que, não há muitos anos, era literalmente impossível ver um figurão destes a bater com os costados num banco de réus, quanto mais ser detido ou encarcerado. Repito: literalmente impossível. E não se trata de haver mais corrupção hoje do que havia na década de 80 ou 90. Basta ver os gangues nascidos e criados à sombra do Soarismo e do Cavaquismo para perceber isso mesmo. Ou, se quiserem recuar até ao tempo do fascismo, à relação de corrupção e tráfico de influências que Salazar mantinha com os antepassados dos Salgados e restante elite financeira instalada nos negócios, relação sobre a qual assentava a gestão económica do Estado Novo. Isto não piorou. Por incrível que possa parecer, e pese embora o longo caminho que há a fazer, a situação melhorou e muito. Não porque a classe política é hoje mais honesta ou transparente, mas porque temos hoje outros mecanismos de escrutínio, independentemente daquilo que achamos deles. Mas não será a espuma dos dias a dizer-nos isso. Será a história, como sempre, no devido tempo. O simplismo é inimigo da democracia e só beneficia os venturas desta vida.

E desengane-se quem acha que ele, o simplismo, é sempre um resultado da ingenuidade. Não é, e tal assumpção encobre todo um projecto de poder baseado numa falsa humildade virtuosa, que visa combater a conhecimento científico e o livre pensamento, demonizando-os, com o intuito claro de estupidificar a sociedade, para melhor a controlar. Há muito quem suspire por um regime autoritário, porque ficou retido em 24 de Abril de 1974, e que quer, a todo o custo, poder descarregar as suas frustrações e o seu ressabiamento nas mulheres feministas, na comunidade LGBT, nos negros que já não aceitam ser seus escravos e noutras minorias que perturbam o funcionamento do seu vácuo craniano. Nenhum deles quer acabar com a corrupção. Querem o seu monopólio, de preferência nas mãos de alguém que imponha o mau velho “respeito”, baseado no medo, na censura e na opressão. A democracia continua a ser o pior dos sistemas, se exceptuarmos todos os outros. E vale a pena, agora mais do que nunca, lutar por ela.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Parvoíce, toda a gente sabe que só aumenta quando mais gente é investigada e detida, porque a percentagem nunca muda.
    /s

  2. Filipe Bastos says:

    Sigh, como dizem os ingleses. Suspiro.

    João Mendes: Salazar foi um estadista; um dos mais argutos do seu tempo. Era também uma besta? Em certos aspectos sim, e a sua ditadura beata, parola e bafienta apela sobretudo a carneiros ansiosos por um paizinho. Mas foi um estadista.

    Uma coisa não impede a outra, está a ver, João? Não é preciso ser maniqueísta para se criticar Salazar ou o Estado Novo.

    Quanto aos figurões a bater com os costados, é v. o ingénuo: nada mudou. Nada de significativo. Umas charadas paralamentares que valem zero, uns julgamentos-fantoche, uns mesitos ou anitos a gozar regalias numa cela confortável… está feita ‘justiça’.

    O dinheiro? Nem vê-lo. Voltam tranquilamente para as fortunas, propriedades e vidinhas que tinham, até para os mesmos tachos como o Isaltino, e tudo como dantes, quartel em Abrantes.

    Isto não é uma democracia. Esta partidocracia podre não deve ser defendida: deve ser derrubada. Estes pulhas devem ser perseguidos e malhados. Digo-lhe mais: se o Chega o fizesse, até o Chega seria bem vindo. Mas é mais do mesmo. Mais trampa.

    • Paulo Marques says:

      O que o camarada Filipe queria era um Ventura que fosse a sério no que diz. Continuava a não ver o dinheiro, mas também deixava de ver os casos, e ainda batia em quem não alinhava com a suposta limpeza.
      Mas não, não vê o dinheiro, nem alguma vez vai ver num sistema neoliberal globalizado onde escondê-lo é trivial. E, quando muito, ia para outros iguais, com ou sem Ventura, com ou sem Salazar. A escolha é quanto é que isso importa.

    • Filipe Bastos says:

      O que o camarada Filipe queria era uma democracia a sério, mais directa, onde os cidadãos possam participar nas decisões relevantes, em vez de tudo delegar nos viveiros de parasitas e trafulhas inimputáveis a que chamamos partidos.

      E nas decisões que ficarão a cargo deles, pois é inevitável delegar algumas, investigar cada adjudicação, cada nomeação, cada cêntimo gasto e cada cêntimo que eles têm na conta.

      Acabar com esta visão absurda da política como serviço público prestado por cavalheiros acima de suspeita, quando 99% dos que lá andam são bandalhos à cata de poleiro e tacho.

      Perder respeitinho bacoco a esta canalha: esta nunca o mereceu. Investigá-los, escutá-los, interrogá-los, fazer-lhes a vida negra. Não gostam? Óptimo: que larguem a pulhítica. Vão trabalhar. Só assim se limpa o esgoto e abre caminho a pessoas sérias.

      O ‘sistema neoliberal globalizado’ é mantido por vermes como o Ventura, que ajudam os mamões a esconder os milhões, mas não foram eles que o fizeram: foram os governos. Foi o Centrão Podre, em grande parte o seu Partido Sucateiro. Esse Centrão estava cá antes do Ventura e continuará cá depois dele.

      Continuem a guinchar sobre o Chega, que é um mero sintoma, e a ignorar o elefante de mil toneladas na sala. O Chega agradece. E os mamões também.

      • Paulo Marques says:

        E os cidadãos vão, todos, um a um, “investigar cada adjudicação, cada nomeação, cada cêntimo gasto e cada cêntimo que eles têm na conta” e votar em cada medida plenamente informados, sem precisar de continuar a confiar em terceiros porque terão tempo para tudo, e pronto a fuzilar quem cometer qualquer erro. Correrá bem e sem problema nenhum, nem condicionantes externas serão relevantes porque estaremos bem orgulhosamente sós.

        É evidente que não estão a cima de suspeita, a questão é que nem isso é possível, nem é que não cometam erro nenhum. E até que as duas coisas são diferentes. A dúvida é como é que se limita sem entrar em repetições maoistas.

        • POIS! says:

          Claríssimo!

          E há um conceito básico que se mantém, a despeito de qualquer teria da decisão política ou de regime económico: o de custo de oportunidade.

          Arriscaríamos uma decisão tão boa, tão boa, tão informada, tão racional, tão escrutinada que seria ou inútil, ou muito mais custosa, ou seja pior, que uma decisão tão má, tão má, tão leviana, tão irracional e tão descontrolada, que até chateie.

      • Filipe Bastos says:

        “E os cidadãos vão, todos, um a um, “investigar cada adjudicação, cada nomeação, cada cêntimo gasto…”

        No mínimo devem ser rigorosamente informados. Para investigar, escutar, interrogar e punir, uma nova entidade: uma polícia política com departamentos técnicos, legais, financeiros, etc. Uma polícia só para pulhíticos.

        Esta canalha tem de sentir-se vigiada e apertada. Muitos dos polícias e especialistas podem ser estrangeiros. Quanto menos permeáveis a subornos, influências e à pegajosa cultura tuga das palmadinhas nas costas, tanto melhor.

        Mas têm razão, Paulo e POIS: cá estou eu a exagerar. Não faz falta nada disto. É ‘populismo’. Vendo bem, é melhor não mudar realmente nada. Deixar tudo na mesma.

        Afinal, está tudo a correr tão bem, não é?

        • POIS! says:

          Otimamente! Ó larilas!

        • POIS! says:

          Ah! Esqueceu-se:

          De uma polícia só para polícias de pulhíticos.

          Talvez treinada pela KGB (atualmente nas versões Putin e Bieloputin).

          Ou uma Gestaltpulhiticos, quem sabe!

        • Filipe Bastos says:

          Em última análise, todas as instituições devem responder democraticamente perante a população. Até essa polícia.

          O essencial é que esteja fora das patas dos pulhíticos e dos mamões que neles mandam. Aliás, a polícia não é só para pulhíticos: serve também para os mamões.

          V. goza, mas é a única maneira. Até lá só vai piorar.

          • POIS! says:

            Pois é!

            Pelo menos é essa a previsão do Professor Bastambo e do Mestre Bastar.

            Os astros confirmam, embora haja divergências. Por causa disso Júpiter cortou relações com Saturno. Ultimamente não se falam. Negócios de anéis.

        • Paulo Marques says:

          E quem é que fiscaliza a polícia, e o tribunal, para garantir que não mentem por razões de interesse pessoal? Os jornais, propriedade do capital?
          No Brazil correu tão bem o justicialismo que o Moro foi corrido, o Lula liberto, e o Bolsonaro constrói a teocracia armada enquanto mete tudo ao bolso; já na Itália, ficou tudo tão limpo que só restou o Berlusconi a comer, e não melhorou muito desde então, agora com o planeador da destruição criativa a ter as mãos livres sem oposição.
          Mal por mal, ao menos vamos no sentido certo de ir apertando a malha.

          • Filipe Bastos says:

            …vamos no sentido certo de ir apertando a malha.

            Apertadíssima: os mamões até tremem. É ver as pernas dos banqueiros, já dizia o Pedro Maserati.

            Falo em democracia mais directa e em policiar pulhíticos, v. traz Berlusconi e Bolsonaro: dois exemplos da sua partidocracia. Com a polícia de que falo nem chegavam ao poleiro; se chegassem eram logo presos. Mas v. não quer.

            Quem fala em ‘justicialismo’, nesta pocilga corrupta, das duas uma: ou é otário ou come / espera comer umas migalhas da gamela. A bem da nossa relação, vou continuar a assumir que é otário.

  3. doorstep says:

    Nos mentideros de Frankfurt comenta-se o silêncio do MP e dos media sobre a identidade de três dos arguidos, alegadamente dois “CEO’s” em funções de bancos da praça e um indigitado para CEO de um novo banco público.

    Não se comenta, e já nem sequer se espera, a divulgação da lista de “jornalistas” que refocilava no saco azul do BES.

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