Portugal: terra de capitalistas sem capital

«A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos mas de endinheirados. Rico é quem possui meios de produção. Rico é quem gera dinheiro e dá emprego. Endinheirado é quem simplesmente tem dinheiro. Ou que pensa que tem. Porque, na realidade, o dinheiro é que o tem a ele.»

Mia Couto

Fotografia de João Carlos Santos

Comments

  1. Pedro Luiz de Castro says:

    São palavras sábias as de Mia Couto. De facto o valor social do dinheiro não é produzir mais dinheiro (em resultado de pura especulação), mas sim dar origem à produção de matérias-primas, bens e serviços, e concomitantemente justificar, criar e sustentar empregos.
    Dar emprego é também outra valência do valor social do dinheiro, que acaba por permitir aos mais desafortunados viver melhor, ou um pouco melhor do que na situação de desempregados.
    É pena que em Portugal tenham desaparecido as indústrias e os industriais, tudo «esmagado» ou destruído pela lógica da integração europeia. E em lugar dessas indústrias e desses industriais, temos hoje centenas ou milhares de recebedores de subsídios, quais novos-ricos (perdão…), endinheirados de circunstância, que fazem da ostentação, a sua forma bacoca de se afirmarem….

    • João L Maio says:

      Tudo começou com a liberalização da economia, esta última totalmente desregulada e sem donos (a maior falácia), quando, nos anos 80, Thatcher e Reagan “inventaram” o neo-liberalismo.

      Obviamente, passaram-se muitas mais coisas, mas isto dos capitalistas sem capital começou, não andarei longe, nessa altura. E os grandes idiotas úteis desta “ideologia” são os pobres de direita.

      • POIS! says:

        O seu comentário, bem como o do Pedro Castro, trouxe-me à memória algo que ouvi numa sessão pública onde estava presente a deputada Mariana Mortágua. Terá sido pouco depois da comissão parlamentar do caso BES.

        Não quero que isto seja tomado como citação, mas a afirmação foi no sentido de que seria ainda arriscado considerar o negócio bancário e financeiro como intrinsecamente desonesto, mas talvez não estivéssemos muito longe disso.

        Eu estou convencido que assim é. A multiplicação constante de novos produtos (warrants, futuros e derivados, “moedas” virtuais…) ao serviço da globalização financeira é imparável. Em 2007 os ativos financeiros eram no valor de duas a três vezes o PIB mundial. Desde essa altura não têm existido dados fiáveis, mas é consensual que a tendência se tem mantido e mesmo reforçado. Ou seja, não existe relação nenhuma entre o valor desses ativos e a economia real.

        Outro dado, entre muitos (cito um artigo que li aqui:

        https://journals.openedition.org/espacoeconomia/17523

        e que tem outros pontos interessantes:

        “Exemplifica-se que, atualmente, nos Estados Unidos o valor de empréstimos bancários para as instituições financeiras é considerado quatro vezes maior do que empréstimos destinados a criação de empregos e renda, ou seja, há uma maior busca por dividendos e juros sobre o capital próprio do que investimentos em unidades fabris e na contratação de pessoas (BELLUZO e GALÍPODO, 2017)”.

        Em Portugal, a desregulamentação do sector bancário começou timidamente com as privatizações e acentuou-se na era cavaquista e com a adesão à então CEE. O PS, quando no poder, nunca tentou contrariar a tendência, antes pelo contrário. Isso explica a razão pela qual na AR não passa uma única medida que faça sequer cócegas aos banqueiros e financeiros em geral.

        Já ninguém se lembra mas há umas décadas, a banca de retalho estava separada da de investimento. Os depósitos, mesmo à ordem, eram remunerados. Era proibido aos bancos de retalho utilizarem o dinheiro dos depositantes para cavaladas especulativas. Era proibido conceder crédito para compra de títulos na Bolsa! (olha o Berardo, e não só…). Os corretores eram simples intermediários, não podiam ter carteiras próprias!

        Um dia, um corretor de nome Pedro Caldeira foi preso. Porquê? Ora, por factos que hoje seriam, na sua esmagadora maioria…perfeitamente legais!!!

        • Paulo Marques says:

          Então agora quer acabar com a liberdade dos acumuladores de riqueza? Vá para a Venezuela, POIS! Não estamos muito mais livres agora que são todos demasiados grandes para falhar e demasiado importantes para imprisionar?

          • POIS! says:

            Bem, se na Venezuela conseguirem acabar com isso…embora seja conveniente que um tipo se alimente, tenha casa e, já agora, medicamentos quando precisa, durante e depois da atividade de exterminio.

            Quanto à segunda pergunta: estamos pois! Ora essa! Só não vê quem não quer!