Salazar e a fábula do homem humilde e incorruptível

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Já todos ouvimos a fábula. Contam-na lealistas, saudosistas e ermitas do armário, ermitando por vezes no seio de partidos ditos democráticos. Aqueles que, como eu, perdem tempo demais no Facebook, com certeza já se terão cruzado com diferentes montagens, exibindo um Salazar em pose de estadista, acompanhado por dizeres que vão mais ou menos assim: “no tempo dele… blá blá blá… humildade… blá blá… não era corrupto…blá… não se deixava instrumentalizar pelos poderosos…blá blá”.

Há também a outra fábula, aquela do “morreu pobrezinho”, mas essa o Rui Curado da Silva já aqui contou. Foquemo-nos, então, nesta outra forte tendência entre a extrema-direita das catacumbas virtuais, que para além de correr com os emigrantes – ignorando, porque convém, que em 2017 viviam 2,3 milhões de portugueses lá fora, ao passo que aqui vivem actualmente cerca de meio milhão de imigrantes – prender os políticos todos, e de caminho abolir a democracia representativa, castrar quimicamente todos os pedófilos, e se possível a comunidade LGBT, e subtrair uns quantos direitos adquiridos em nome da tradição ou da religião, procura também pregar a velha fábula do homem humilde e incorruptível.

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Antes Cristas que Bolsonaro

O título deste texto é inspirado num comentário escrito no facebook por um amigo meu que é comunista dos sete costados, numa polémica em que desafia um centrista a pronunciar-se sobre a opinião de Assunção Cristas.

A líder do CDS, instada a escolher entre Bolsonaro e Haddad, numa hipotética situação em que seria eleitora brasileira, declarou que votaria em branco (na verdade, declarou que não votaria), colocando ambos os candidatos no mesmo nível, quando se sabe que Bolsonaro defende abertamente a ditadura, com direito a tortura, censura e outros mimos, elogiando, pelo meio, Brilhante Ustra. Haddad, independentemente de todos os defeitos ou erros do PT, faz parte do campo democrático, tal como Assunção Cristas, por muito medíocre que seja ou por muito má que tenha sido a sua passagem pelo governo.

O argumento usado para não votar em Haddad é extraordinário: “A corrupção leva à ditadura. Destrói, mina a democracia e leva à ditadura.” É extraordinário porque admite que ainda não se chegou à ditadura. Entre um que não admite senão a ditadura e outro que ainda não chegou à ditadura, Cristas encolhe os ombros.

Entretanto, não defendendo a corrupção, o salto que chega daí à ditadura é um vazio argumentativo. Por outro lado, tenta deixar, implicitamente, a ideia de que a corrupção, no Brasil, é toda de esquerda.

Na verdade, Assunção Cristas, ao colocar ao mesmo nível dois candidatos tão diversos, põe-se ao lado da ditadura, mas terá vergonha de o confessar. As redes sociais, no entanto, estão cheias de gente declaradamente saudosa de Salazar e que suspira por bolsonaros, gentinha perigosa que mina a democracia muito mais do que a corrupção.

 

Salazar pelas esquinas

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“Sabia que em pleno centro de Ansião existe uma rua Oliveira Salazar? Fica a dois minutos da Câmara Municipal mas parece que ninguém se preocupa com o assunto. Em Monte Real, concelho de Leiria, também encontra uma rua homónima.
Ajude-nos a mapear as ruas Oliveira Salazar que continuam a existir em Portugal”

in Má Despesa pública

Ser Europeu

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Pertencer à União Europeia, estar na Europa, Ser Europeu, foi uma das grandes novidades que nos trouxe este Portugal moderno saído dos finais do século XX e entrado pelo novo milénio adentro cheio de acrescentos identitários e “mais-valias” civilizacionais, oferecidas pela diversidade da Europa e dos povos que a habitam. Foi assim que aquilo que ameaçava transformar-se numa jangada de pedra, à deriva pela solidão do mundo pós-imperial, se transformou numa energia intra-solidária, comprometida com valores ancestrais que partilhamos com os nossos “parceiros” do velho continente.
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PONTE SALAZAR – Tenhamos a CORAGEM de lhe devolver o nome original.

Ponte Salazar

É este o nome de uma petição que circula na internet e que conta já com a assinatura de cerca de 1700 simpatizantes do fascismo. A petição, lançada na passada Quarta-feira, propõe alterar o nome da Ponte 25 de Abril para o original Ponte Salazar, devolvendo, desta forma, aos fascistas, o saudoso culto do chefe. Mas existe o risco de se tratar de uma jogada humorística, pelo menos a julgar por parte do conteúdo, feito de verdadeiras anedotas. Vejamos algumas: [Read more…]

António de Oliveira Portas

Lides domésticas, procriação e uma salva de “pelmas” para as mulheres a preto e branco. Amém.

Queima das Fitas, 2015

O carro 26, de História, era assim. Passos Coelho entra para a História, Salazar já lá estava. Fotos minhas e de Sérgio Rodrigues.

O avó cavernoso e as 7 enfermeiras

Porn Salazar

Hoje podia ser capa de um filme para adultos. Mas sabemos bem que o ditador era um homem de fé, temente a Deus e incapaz de se meter em depravações. Claro que nesta fase também já não havia muito a fazer, nem o comprimido azul era comercializado, nem lhe ia adiantar de muito se fosse.

Bustos

Já cá faltavam as boas almas a desancarem o PCP, os Verdes e o BE pela oposição que aqueles partidos manifestaram à presença dos bustos dos “presidentes” nomeados por Salazar na exposição da Assembleia da República. Pois eu subscrevo o protesto daqueles deputados. E isso não tem nada a ver com o “apagar da história” com que tanto se preocupam alguns.

Deixando de lado o facto de a exposição de bustos ter sempre associada a ideia de homenagem – dou de barato que não será esse o caso – a questão é de saber se o tempo que vivemos é a 2ª ou a 3ª República, ou seja, se o período fascista foi uma fase da República Portuguesa. Se esse regime se plasma numa “res-publica”, coisa do povo, coisa pública. Na minha modesta opinião, não. Logo, é totalmente desadequado classificar os três títeres fascistas como “presidentes da república”, já que tal república não existia. Não podemos ficar reféns da dicotomia república-monarquia. Diria mesmo, talvez para escândalo de alguns, que a monarquia constitucional em Portugal teve momentos mais próximos dos valores republicanos que o Salazarismo.

Gémeos

Passos Salazar

A defesa de Passos Coelho é um clássico nacional: tal como Salazar não enriqueceu. Faz sentido: ambos têm igualmente em comum terem ajudado a enriquecer uns poucos à custa de tantos.

Hayek , Salazar e o resto

Um artigo de Francisco Louçã sobre o liberalismo pouco liberal a não perder.

O lado errado da história

O Canadá mandou  uma delegação  de grande peso político ao funeral de Mandela:  o actual primeiro ministro, Steven  Harper, e três antigos primeiros ministros, os conservadores Brian Mulroney e Kim Campbell, e o liberal Jean Chrétien. A Mandela, desde que saíu da prisão e acabou com o apartheid, foi oferecida a cidadania canadiana, com passaporte e toda a parafernália burocrática inerente. Era, pois, um homem a quem o Canadá amava  e a quem honrava. O governador geral não foi ao funeral porque a chefe do estado canadiano, Raínha Isabel II,  já  estava representada pelo Príncipe Carlos. O mesmo se diga da Austrália e da Nova Zelandia. A Commonwealth não é uma treta: funciona e tem poder.

Brian Mulroney, em entrevista que todo o país viu, explicou o tratamento dado a Mandela: “em todas as situações, temos de ter o maior cuidado para não ficarmos do lado errado da história”.  E disse bem, porque é importante um país ficar do lado certo. Nenhum povo gosta de ficar do lado errado. Por uma daquelas travessuras em que a política é fértil, depois de Mulroney os barões do seu partido, o conservador, trataram de tornar impossível a eleição da primeira ministra provisória Kim Campbell, uma senhora que teria proporcionado ao país um enorme salto qualitativo, graças à sua notável qualidade política e cultural, o que representou uma garantida e duradoura estagnação. O Canadá não gostou de ter perdido o comboio da história e esse mal estar é cada vez mais evidente. [Read more…]

Também não é preciso exagerar

eusebio
Só falta dizer que Eusébio foi um preso político do salazarismo…

A glorificação do passado entre a direita portuguesa

beber vinho

Mário Soares disse o óbvio: Eusébio foi mais um analfabeto num país de analfabetos e bebia uns copos onde Salazar ordenara que se bebesse vinho para dar de comer a um milhão de portuguesas. Nada que o desonre ou lhe apague os golos e as fintas, lhe ofusque a excepcional inteligência que demonstrava onde sabia, no campo; assim viveu, foi um homem do seu tempo.

A direita berra, histérica. Mentir, e aquela hipocrisia avulsa de fazer dos mortos uns heróis como nos romances,  está-lhe na alma. Esquecer a verdade desse tempo, também. Isso e o ódio a Mário Soares que, suprema ironia, acaba os seus dias como o último símbolo de Abril que obcecadamente querem enxofrar, ele que foi muito mais de Novembro. O mundo é um lugar estranho, onde se dão muitas voltas mas a direita é sempre a mesma.

A elegia do fascista

Querendo elogiar Álvaro Cunhal um salazarista compara-o a Salazar. Insulta os dois, mas deus, como não existe, distribuiu a inteligência e a cultura em forma de mijo: uns ficaram só com os pingos.

Ainda o inglês

Se há coisa que eu detesto é quando um político, nomeadamente estes de última geração, nos tentam fazer de burros! E Nuno Crato está nesse registo. O de um telelé de nova geração, daqueles que em três tempos é trocado por um outro qualquer .

Vejamos:

– com a Escola a tempo inteiro introduzida por José Sócrates o inglês passou a ser obrigatório nas actividades extra-curriculares. Isto é, no 1ºciclo (1-4º ano) os alunos passariam a ter um espaço para a introdução à língua inglesa nas “aulas” depois das “aulas normais”, naquele espaço que ia entre as 15h30 e as 17h30. É verdade que era facultativo, mas a maioria dos alunos passou, realmente, a ter inglês;

– Nuno Crato, no seu projeto de construção de uma Escola Nova , talvez inspirado no Estado novo, resolve retirar ao Inglês esse carácter obrigatório e, ao mesmo tempo, atira para as escolas a possível oferta dessa língua. Possível, porque, na verdade boa parte dos Agrupamentos não terá condições para o fazer e… [Read more…]

Sejamos sérios

Diz-me o calendário que hoje é dia 6 de Agosto de 2013. Data assinalável a vários títulos.

Neste dia, há 68 anos, acontecia a bomba sobre Hiroshima. Eu era um garotinha atenta ao que ouvia à minha volta: a 2ª Guerra Mundial tinha acabado e em Luanda, onde vivia, tinha havido uma grande manifestação de regozijo, mas eu não percebi porque é que foi preso um homem que deu vivas à Rússia, um país aliado segundo diziam os mais velhos. Muitos anos depois, a conversar com o Raúl Indipo, do Duo Ouro Negro, entrámos nessas memórias e fiquei a saber que também ele tinha ficado confuso: julgou que estavam a dar vivas à Russa, má peça com toda a certeza porque quem a saudava era preso, mas ele nunca conseguiu saber quem era a matrona enquanto catraio. Naquele dia, há 68 anos, eu estava sentada na areia da praia onde vivia mais o Sérgio, o filho do cozinheiro que democraticamente andava na escola pública comigo por decisão da minha mãe. Contei ao Sérgio o que tinha ouvido sobre Hiroshima e adiantei que os americanos iam continuar a deitar bombas por todos os lados. Vem de longe esta desconfiança em relação aos camones e vá-se lá saber porquê. O Sérgio estava de olhos arregalados mas não tugiu nem mugiu. Quem o fez por ele foi o pai cozinheiro que, pelo anoitecer, se plantou diante da minha mãe com o filhote pela mão e declarou que ia dormir ao musseque porque queria morrer ao pé da família. O aranzel que aquilo deu. [Read more…]

Salazar: se ainda governasse não havia greves!

Salazar e a greve

Obtido aqui

A nova direita ‘fascistóide’ é demasiado sinuosa e cobarde a contestar o direito à greve. Tenham coragem, e embora saibam estar a contrariar um direito sufragado e aprovado pelo povo, basta sem complexos imitar Salazar e escrever, desenhar ou gritar:  “se ainda governasse não havia greves!”.

E, a rematar, bradem bem alto: “Salazar, Salazar, Salazar!”.

Salazar Coelho

Um utensílio inovador da designer Madalena Martins.

Salazar sabia dos campos de concentração nazis!!! O drama, o horror…

Uma tal de Irene Pimentel, pseudo-historiadora, escreveu 900 páginas de um livro para tentar provar que Salazar sabia da existência de campos de concentração durante o nazismo. Parece que conseguiu.
Sim, e? Era natural que não soubesse? E sabendo, devia ter feito o quê? Fazer uma manifestação a favor dos judeus? Queixar-se ao comité dos Direitos Humanos?
Ele há cada inutilidade…

Quando a realidade supera as minhas piores fantasias

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Ontem comparei Passos Coelho a Salazar. E depois  fotografaram isto.

Fotografia Luís Carregã / As Beiras

O Esteves Coelho

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Salazar, depois do atentado infelizmente falhado, deixou de ter agenda, nas poucas visitas governamentais que lá tinha de ir fazendo. Ganhou com isso a alcunha de o Esteves, já que os jornais noticiavam que o chefe do governo (como se dizia e desde Cavaco se voltou a dizer) esteve ontem aqui ou esteve ontem a inaugurar acolá.

Passos Coelho, ao visitar a cidade onde nasceu em quase clandestinidade como hoje faz, começa a merecer o mesmo epíteto, o Esteves Coelho.

Salazar sobreviveu muitos anos assim, as ditaduras conseguem manter no poder alguém que teme o seu próprio povo. Quanto a este seu herdeiro, chegado a este ponto, assunto encerrado: é um fantasma do seu próprio cadáver político quem ainda nos governa. Em democracia não precisaremos de esperar por uma abençoada cadeira para nos livrarmos deste emplastro.

Até chegava a explicar aos opositores por que razão eram presos e torturados

Jaime Nogueira Pinto. “Salazar em ditadura explicava tudo o que estava a fazer”

Chamava-se salazar

espatulaAgora nas cozinhas portuguesas:

– Chega aí o gaspar para aproveitar o resto da massa.

Um grande texto do grande escritor Mário de Carvalho

Mário de Carvalho, o escritor português vivo que mais habita as minhas estantes, publicou no Facebook um texto sobre a memória e sua ausência. Ali mesmo alguns comentam que isto não era nada assim. A sério. Rui Ramos tem seguidores.

Denegação por Anáfora Merencória

“Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». [Read more…]

Saudades de Cerejeira

Posso gostar mais ou menos ou nada das opiniões emitidas por clérigos e afins, mas não gostaria de viver numa sociedade em que estivessem proibidos de falar. Por outro lado, as generalizações são sempre injustas, é certo, mas a História da Igreja Católica contém demasiados episódios de ligações a poderes opressivos ou de práticas sinistras, com torturas físicas e psicológicas incluídas.

De braço dado com o Estado Novo, a Igreja portuguesa do século XX participou em várias indignidades, quanto mais não fosse por omissão. A mesma instituição que nunca perdeu tempo a criticar as ditaduras de esquerda incitava os fiéis a acatar mansamente a miséria e a opressão. [Read more…]

25 Poemas de Abril (VI)

Por ti , pelo teu ódio à Liberdade
à Razão e à Verdade
a tudo que é viril, humano e moço
a fome e o luto apagaram os lares
e os homens agonizam aos milhares
no exílio, no hospital, no calabouço

Por ti, raivoso abutre,
cujo apetite sofrego se nutre
de lágrimas, de gritos, de aflições,
gemem nas aspas da tortura
ou baixam em segredo à sepultura
os mártires que atiras às prisões [Read more…]

25 poemas de Abril (V)

 
O Viandante
 
Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu,miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite,foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.
 

Carlos de Oliveira

Revivendo o passado em Portugal

É uma verdadeira euforia que atravessa o país, uma onda revivalista que nos leva até às vinícolas memórias de Salazar. Já sabíamos do regresso da fome, da impunidade das grandes fortunas e seus crimes, da boa e velha carga policial, da informação controlada pela ideologia do poder, da deterioração do acesso à saúde. Descobre-se agora que o tempo do candeeiro a petróleo também voltou.

Acho que ainda se vão arrepender de ter transformado um certo edifício da  R. António Maria Cardoso em condomínio privado. Arranja-se sempre outro, mas simbolicamente aquele sempre era mais adequado.

Uma bacalhoada salazarista.

Estive na última edição da FITUR – feira internacional de turismo de Madrid -, onde Portugal, mais uma vez foi vencedor entre os expositores. Pelo desenho do pavilhão e creio que pelos “produtos” apresentados. Pode parecer que tudo está bem, mas não. Olhando com atenção para cada um desses produtos em promoção e em particular para uma conhecida rota de património, reparei que a mesma integrava um conjunto europeu de itinerários culturais. O folheto publicitário era atractivo: da Saxónia à Sérvia, de Itália a Espanha, cada uma das instituições destes países e regiões promoviam actividades paralelas ao âmbito cultural da visita: termalismo, pedestrianismo, rafting, escalada, passeios a cavalo, esqui e ciclismo, entre outras. Portugal, promovia o folclore e um prato de bacalhau assado com batatas.
E depois ficam eriçados com a marca Salazar de Santa Comba Dão? Promover ditadores, ou facínoras (que de resto a maioria dos países já faz) é bem mais original que tentar vender o tradicional ranchinho folclórico ou uma bacalhoada.
Além disso, se há coisa com que os autarcas deste país podiam fazer dinheiro é com o ar decadente e demodé das suas vilas e cidades cheias de rotundas, chafarizes e obras por acabar. Lembro-me que nos anos 80 os estrangeiros vinham a Portugal à procura de pobreza e de todos os estigmas associados. Visitar um país em ruínas, cheio de torres eólicas com estradões em terra mal amanhados, lojas fechadas, desemprego e mendicidade parece-me uma boa aposta turística.
E deixemo-nos de coisas, há mais salazares em nós que numa garrafa de vinho – caso contrário não passaríamos o tempo a bebê-lo acompanhando um dos mil pratos de bacalhau com que atraímos os turistas.

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