Obrigado Merkel

Konrad Adenauer, chanceler no pós-guerra, inicou a “desnazificação” e guiou o país para ocidente.
Willy Brandt apaziguou a relação com as ditaduras do leste. Helmut Schmidt combateu o terrorismo interno, deu passos para a formação da UE e lançou novas estratégias de defesa do continente. Helmut Kohl viu cair o muro, liderou a reunificação da Alemanha e o lançamento da União Europeia.

E Angela Merkel?
Para mim, a chanceler alemã é a maior política que tive oportunidade de acompanhar em vida. Mesmo no meio de péssimos líderes europeus, Merkel manteve o seu país unido, próspero e liderou a União Europeia em várias crises.
Na crise económica, teve a dignidade de admitir erros. Mesmo que a maioria dos erros não lhe pertençam e que algumas mentiras permaneçam como dizer que a Alemanha abandonou os gregos quando estes receberam perdões de dívida, reduções de juros, linhas extraordinárias de fundos e uma série de benesses financiadas por outros, que as corruptas lideranças gregas foram destruíndo até à inevitável queda.

Ou dizer que foi Merkel que enterrou Portugal quando ela fez o possível para o impedir. Acima de tudo, muitos dos seus críticos nunca entenderam que Merkel tinha que responder perante a coligação do seu governo então muito divida, o Tribunal Constitucional e o Banco Alemão bem como – e principalmente – os contribuintes alemães. E contribuintes holandeses, finlandeses, austríacos, etc.

Mas mesmo no meio de toda esta complexidade política, económica e também cultural que distingue norte e centro da europa do sul e parte do leste, Merkel prosseguiu e a UE também. Mesmo sendo para muitos a “vaca gorda de Berlim” que lançou Portugal na crise. Sim, porque não foram os “líderes” portugueses na sua insaciável forma de esturrar e roubar dinheiro ou de brincar aos PECs enquanto adiavam reformas ou procuravam consensos, coisas chatas mas normais para quem sabe liderar e governar.
Não, não foram os nossos. Foi a Merkel.

Merkel cometeu também vários erros com a crise de refugiados ou com a Turquia, talvez por saber dos milhões de turcos que tem na Alemanha e por outro lado, acreditar que o seu país conseguirá integrar os refugiados que recebeu. Se ela assim o pensa, não serei eu a contradizê-la.
O futuro dirá também se a sua abordagem a Putin foi ou não útil a Ucrânia e ao resto da Europa. Veremos.

De resto, dá-me para rir quando vejo fãs de Cavaco ou Sócrates a atacar Angela Merkel. Porque enquanto o lugar de Merkel na história já está assegurado, o dos líderes portugueses das últimas décadas resume-se a um parágrafo, ou vá lá, um parágrafo e meio porque os portugueses têm nomes mais compridos e ocupam mais caracteres (não confundir com carácter).

Angela Dorothea Merkel atravessou todo o seu consolado rodeada por alguns dos piores líderes europeus de sempre, como o egocêntrico Chirac, o criminoso Sarkozy, o inútil Hollande, o sanguinário Blair, o patético Cameron ou Silvio bunga bunga Berlusconi.
E mesmo no meio de tal maralha, uma vezes contribuindo e muitas outras liderando, Merkel lá ajudou a que a UE resistisse.

A mesma Angela que provavelmente regressará amanhã ao seu apartamento em Berlim onde fez a sua vida familiar para lá da política. Porque mesmo quando o poder era muito e o estatuto imenso, Merkel nunca deixou que tal lhe subisse a cabeça, talvez guiada pela palavras quando afirmou que “aquele que decidir seguir uma carreira política tem que saber que ganhar muito dinheiro não é uma prioridade”.
E as prioridades de Merkel sempre foram a Alemanha, a Europa e a sua estabilidade e as relações com os seus vizinhos.

O futuro dirá, mas estou seguro que as prioridades de Merkel foram sempre estas e apenas estas e que as perseguiu exercendo o serviço público de forma firme, consensual e ética. Uma chanceler impar e uma europeia de corpo inteiro.
Um pulso de aço de uma líder escolhida pelos alemães e que escolheu também solidificar a Europa.
Como europeu, só lhe tenho a agradecer.

Comments

  1. João Mendes says:

    Em tempos não escreveria o que agora vou escrever, por ignorância minha, mas hoje, 26 de Setembro de 2021, subscrevo cada palavra deste texto, Paulo.

    • Paulo Franzini says:

      é normal discordar-se dela do ponto de vista ideológico, ela foi muitas vezes uma conservadora de direita de forma bem vincada, principalmente nos primeiros tempos.
      Mas sempre soube ouvir todos e criar os melhores consensos possíveis, quer na Alemanha quer na UE.

  2. Carlos Almeida says:

    “Porque mesmo quando o poder era muito e o estatuto imenso, Merkel nunca deixou que tal lhe subisse a cabeça,”

    Talvez porque foi educada de criança na RDA, não seria ?

    • Paulo Franzini says:

      sim, ela conheceu de perto o fascismo e o comunismo. Daí que mantenha distância dos dois e ainda bem.

  3. Filipe Bastos says:

    Que tal assim, Franzini.

    Merkel é uma matrafona zelosa e limitada, com a imaginação de uma esfregona e a apaixonante personalidade de uma couve-flor, que daria excelente química, engenheira ou contabilista.

    Defendeu sempre a Alemanha, era o seu papel, mas continuou a dividir e a afundar a UE, a encher mamões, a dançar entre lindas causas politicamente correctas e a brutal realpolitik dos DDT, em suma, a contribuir para o sombrio futuro da Europa.

    Só quando comparada à canalha pulhítica que temos, do gangster Putin a palhaços e trafulhas como Sarkozy, Hollande, Berlusconi, BoJo, Blair, o 44 e outros que citou, é que passa por estadista.

    E a mediocridade do que chamamos ‘democracia’ é tal, que após 16 anos consegue ser ainda de longe a melhor e deixar tamanho vazio. Mas em vez de confrontarmos esta farsa partidocrática e a imensa fraude chamada UE, seguimos alegremente para bingo.

    P.S. Caracteres, plural, não leva acento.

    • Paulo Franzini says:

      não concordo, ainda que perceba o ponto. Acho que fez muito com o cenário que tinha.
      Agradeço também a chamada de atenção sobre o acento.
      Um abraço.

  4. Paulo Marques says:

    Pois, é o que dá a teoria do senso comum, fica como europeísta quando sempre recusou cumprir os mínimos insuficientes (mas isso é outra conversa) com que o outro grande europeísta Miterrand enterrou a maior parte dos países como necessário a uma moeda única. E não se absteve de negociar para que o país mantivesse o privilégio, bem como o de proteger a sua finança de maus investimentos ou a indústria de aldrabices.
    É preciso muito mau conhecimento económico para ignorar que a política de continuação de contenção de salários interna só podia ter como consequência as desvalorizações internas da periferia, mas a eurofilia obriga à cegueira. E depois há os efeitos que isso causa nos gigantes buracos de políticas ambientais e de industrialização, mas também de geopolítica, onde até a Austrália goza com a eurolandia, e qualquer oligarca compra e lava dinheiro cá dentro para o guardar num paraíso fiscal.
    Se com os tratados era difícil, o legado da coveira é também o enterramento da ideia de solidariedade, quer interna, quer externa, onde já ninguém quer saber do vê se te avias da compra de PPEs e açambarcamento de vacinas, e onde a propaganda da oportunidade única já passou a controlo apertado do défice, de onde, de resto, nunca saiu.


  5. Mas a senhora Merkel faleceu?
    Não é que queira mal á senhora mas acho estranho ver tanta gente a falar bem dela.

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