O Velhaco

     Hugo Arsénio Pereira
     Ainda não percebi se por desleixo, se por tropeçar em si próprio de tão sôfrego e ansioso que é, se fez de propósito, ou se se está já a “cagar” simplesmente por ser o segundo mandato, este discurso da raposa que está em Belém foi tão óbvio e descarado naquilo que são as suas intenções desde sempre, que é facílimo de desmontar e contradiz-se a si mesmo. Senão vejamos:
     «Era um orçamento importante num momento importante (…) de acesso a fundos europeus. (…) A rejeição ocorreu logo na primeira votação, não esperou pelo debate e discussão na especialidade (…)»
     Engraçado…Foi precisamente ele, o Presidente da República, que não esperou sequer pelas negociações e conversações públicas e, precisamente, as da Assembleia da República, para gritar aos quatro ventos que ia dissolver a Assembleia e convocar eleições…Precisamente “num momento importante (…) de acesso a fundos europeus.”
     «A base de apoio do Governo mantida desde 2015. (…) [houve] divergências (…) que pesaram mais do que o percurso feito em conjunto até aqui.»
     Marcelo, o Presidente, a fazer de comentador televisivo, novamente. Marcelo sabe que desde 2019 que não existe base formal (repito, formal) de apoio ao Governo, que este, again, formalmente, claro, governa sozinho, em minoria, contrariamente ao que sucedia entre 2015-2019, onde havia…formalmente, again…aquilo a.k.a. acordos de incidência parlamentar. Marcelo sabe isso, mas decidiu fazer de Marques Mendes. «(…)e pesaram [as dissidências] mais do que o momento vivido (…) à saída da pandemia, e da crise económica e social (…) já bastava uma crise na saúde, mais outra económica e outra na sociedade e que, por isso, dispensava mais uma crise política a somar a todas elas». E, perante essas crises todas, o que é que este rato velho faz? Grita, antes das conversações, again, formais, que vai convocar eleições, comprometendo qualquer remota hipótese de mudança de posição e, por conseguinte, de aprovação do orçamento.
     «[eu] disse atempadamente que a rejeição do Orçamento conduziria a eleições antecipadas e que não haveria terceiras vias (…), a de um novo orçamento». Marcelo, não o Presidente, nem o comentador, mas o professor de Direito, sabe que, constitucionalmente, o chumbo de um orçamento não leva automaticamente à dissolução da Assembleia e a eleições. Sabe que existem, constitucionalmente, again, formalmente, aquilo a que ele chama de terceiras vias. Mas fingiu que não é prof. de Direito, e fez disso tábua rasa [não estou a dizer, atenção, que o ideal era o PS apresentar um novo orçamento, estou só a tirar a maquilhagem à raposa].

     «Sabemos todos que campanha eleitoral bem como debates (…) realizados no Natal – o primeiro Natal depois daquele que (…) não tivemos – ou pelo Ano Novo são (…) indesejáveis e podem ser meio caminho andado para o aumento da abstenção.». «O sensato é apontar para debates e campanha a começar em 2022».
     Tradução: “Deixa lá o PPD/PSD – i.e., o meu partido, correr com o Rui Rio e pôr lá o Rangel, e assim dar-lhe tempo de fazer listas, distribuir lugarzitos e deixar os patetas da esquerda cozinhar mais umas semanas em lume brando, enquanto o Costa capitaliza mais um bocadinho a governar interinamente mas com poderes reforçados devido a uma Assembleia da República dissolvida onde só funciona a Comissão Permanente».
     «Não havia a terceira via de manter em vigor o actual Orçamento do Estado [para 2021]»… Que é exactamente o que vai acontecer até Abril/Maio ou mesmo Junho, ficando o actual orçamento, o de 2021, a ser executado em duodécimos.
     Outro dado engraçado é ele relembrar que ele próprio, quando era líder da oposição, entre 1996 e 1999, fez o seu partido viabilizar três orçamentos do também minoritário governo PS. E ele poderia tê-lo feito novamente. Sabendo que Rui Rio não tem qualquer pudor em fazer aproximações ao PS, Marcelo poderia ter feito aquela coisa, aquela imagem, que dá montes de tesão aos paineleiros-comentadeiros e aos fantoches e representantes do capitalismo, e ter obrigado António Costa a “sentar-se à mesa” [perceberam a tesão?] com Rui Rio e ali ter cozinhado um “acordo de regime” [tesão novamente para o establishment], se o tal “interesse nacional” e momento de urgência fosse realmente importante. Mas não quis fazê-lo. E não o fez intencionalmente; estava mais ocupado a receber, não o líder da oposição, mas sim o challenger do líder da oposição na liderança do partido… que também é o seu. E, ao final de contas… 30 de Janeiro: a data que Paulo Rangel, alegadamente, queria, dando-lhe tempo para se organizar. Como Marcelo ele próprio disse: «Há momentos assim.»
     E Marcelo teve um momento em que deixou ficar a olho nu aquilo que sempre foi e sempre será: um velhaco. É, sempre foi, e sempre o será: o afilhado da União Nacional e de Caetano. Não foi por falta de aviso.

Fotografia: Paulo Novais/LUSA

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Um dos melhores textos que li sobre Marcelo.
    Mas como já aqui afirmei bastas vezes, o povo gosta muito deste tipo Selfie Made Men.

  2. J. M. Freitas says:

    Penso que Marcelo não devia ter declarado (ia para dizer ameaçado), ainda antes da rejeição do orçamento, que dissolveria a Assembleia das República.
    Penso que a rejeição não implica eleições antecipadas, principalmente quando se verifica que é muito provável que fique tudo na mesma. Havia outras soluções que podiam pelo menos ser tentadas.
    Noto que ele disse, mais que uma vez, ao dirigir-se ao povo: Portugueses. Muitos esperavam que ele dissesse “Portugueses e Portuguesas”. As feministas ferrenhas devem ter ficado furiosas (imagino a Fernanda Câncio a bater com a cabeça nas paredes). Elas querem ser sempre mencionadas duas vezes: já estão entre os “Portugueses” mas querem o pleonástico Portuguesas.

  3. JgMenos says:

    Este palhaço está numa de que a esquerdalhada haveria de poder chantagear o governo em mais um orçamento e obrigá-lo a ceder ou a demitir-se e entrar em duodécimos na hora.

    A geringonça foi um aborto, e como tal se manifestou ainda que ao retardador!

    • CHEGA, Menos! says:

      Menos, tu a defenderes o governo?
      Cá para mim o Costa comprou-te alguma coisa!

    • João L. Maio says:

      Tens nudes do Costa, Menos?

    • JgMenos says:

      Era o que me faltava, para atacar o treteiro oportunista do Costa, ir favorecer a comunada do Bloco e do PC!

      • POIS! says:

        Pois era, mas veja lá, ó Menos…

        Que Vosselência está a perder coerência a toda a velocidade.

        Ao criticar a queda de um governo de um regime que nunca devia ter existido está a favorecer os anti-salazarescos.

        Pior, pior, só criticar a postura do Marcello Caetano. Aí sim, V. Exa. passaria logo a Renegado Salazaresco. Seria trágico!

      • João L Maio says:

        É, é. Tu gostas é de Marcel(l)os! Para ti é sempre Primavera, ó Menos.

    • Paulo Marques says:

      Estás, portanto, a admitir que o teu querido líder foi frouxo?

  4. JgMenos says:

    A cambada queria levar para o parlamento as tácticas do metro e da Transtejo….

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