Habeck, o admirável ministro da economia alemão

As respostas de Robert Habeck, ministro da economia alemão, num talk show televisivo ocorrido há três dias, foram uma magistral lição de filosofia, economia, política, seriedade, coragem, autenticidade e visão.

Com uma paciência de Jó, com toda a simplicidade e nunca simplismo, Habeck, desprovido da arrogância, pretensiosismo e a habitual opacidade da esmagadora maioria de dirigentes políticos que ocupam os governos do mundo, abananou a sociedade alemã ao falar de forma brilhantemente diferenciada sobre as consequências da guerra na Ucrânia para o abastecimento de energia da Alemanha e as razões pelas quais continua a rejeitar um embargo energético contra a Rússia, enquanto tudo faz para libertar a Alemanha da dependência russa, assegurando também o abastecimento de electricidade à Ucrânia.

E aqui ficam algumas das clarividentes respostas de Habeck no programa de Markus Lanz, um conhecido moderador neoliberal da TV alemã, que acabou por engolir em seco as suas próprias picadelas sedentas de sensacionalismo, usando e abusando das fotos em que Habeck cumprimenta, inclinado, o emir do Qatar:

“A Alemanha sempre se apresentou como se nós fizéssemos tudo melhor, soubéssemos tudo melhor; e depois aprovámos Nordstream II no ano da anexação da Crimeia, e no ano seguinte transferimos parte da nossa infra-estrutura petrolífera para a Rosneft, a companhia petrolífera russa, no ano após a anexação da Crimeia! Os ucranianos agradecem-nos pelas armas, mas perguntam-nos, porque é que só as forneceram agora que o nosso povo já está a ser assassinado? Teria sido muito mais inteligente entregá-las antes, poderia até ter acontecido que nem sequer chegássemos a ser atacados; e nós só podemos dizer a nós próprios que estamos a fazer tudo bem, se partirmos de uma concepção política em que estamos sempre do lado moralmente correcto; mas não é esse o caso.”

“Afinal com quê que andam os nossos carros? Será possível que tenham no tanque petróleo da Arábia Saudita? Por acaso já alguém alguma vez pensou nisso? E onde estava o programa do Markus Lanz para perguntar o quanto somos hipócritas, por estarmos indignados por causa de Putin, mas andamos a passear usando petróleo saudita? Eu não quero fugir à responsabilidade, mas em toda a parte, seja na extracção de produtos para todas as formas de telemóveis, computadores, etc., nós temos uma responsabilidade em relação a países por vezes difíceis e regimes difíceis e nunca nos preocupámos com isso; no entanto, em determinados pontos, descobrimos sempre, como dizer, a nossa consciência moral, e eu creio que esta selectividade, na realidade não nos ajuda, ela paralisa-nos; o que nós precisamos é de um trabalho estrutural de mudança e de melhoria (…)”.

“A convicção de que nós na Alemanha fazemos sempre tudo bem, e só quando, em situações excepcionais viajamos para Qatar, e compramos gás, é que estamos a fazer negócio com o diabo, com Belzebu, mas de resto, quando vivemos a nossa vida quotidiana, quando enchemos o tanque dos nossos carros, quando colocamos a carne picada no nosso hamburger, aí estamos sempre do lado dos bons, nisso só pode acreditar quem nunca esteve numa fábrica de criação de suínos. Não, não é assim. Com a nossa vida quotidiana, estamos a abrir um rasto de destruição na terra e ainda nem sequer estamos a enfrentar esse problema”.

“Se formos honestos, temos de ter a coragem de dizer: tudo aquilo que fazemos tem consequências; nós não somos anjos, mas podemos tentar, passo a passo, tornar as consequências um pouco menos más. E na minha opinião, a visita ao Qatar é um pouco menos má, porque nos liberta do gás de Putin, que atacou um país e violou o direito internacional.”

Habeck foi ao Qatar e não deixou de dialogar com o seu anfitrião sobre a violação de direitos humanos – ao contrário de certos presidentes que consideram tal assunto uma intromissão na soberania de outros povos – mas tem uma linha clara, ponderada (a bússola está aferida”, nas suas palavras), e sabe por onde ir, para chegar ao objectivo humanista e ecológico que definiu e não perde de vista.

Finalmente, um político à altura dos tempos que correm. Que assim se mantenha!

Comments

  1. JgMenos says:

    Falar claro, uma necessidade universal..

    • POIS! says:

      Pois, que tal…

      Uns rebuçadinhos do Dr. Bayard?

      Na saudosa época salazaresca foi assim que se conseguiu erradicar a gosma. A seguir à lobotomia, foi a maior façanha em matéria de saúde que aconteceu nessa época.

  2. Teresa Palmira Hoffbauer says:

    As mulheres amam o nosso Robert 😍

  3. Paulo Marques says:

    Que bonito, mais palavras, exactamente o que falta para mudar o mundo! Imagino que a seguir vai fechar a venda de armas à Tunísia que permitem às empresas alemãs não terem que lidar com greves. Não? Hmmm, pois. E acabar com o Hartz para haver fluxo económico para a transição? Também não?
    Fui ver. Era o vento.

  4. Teresa Palmira Hoffbauer says:

    O Robert Habeck tinha uivado furiosamente, se o governo da Angela Merkel comprasse gás saudita. O tipo é bem parecido e as mulheres não entendem a sua incompetência [a incompetência dele e delas] 🤔

    • Miguel Leão says:

      E a incompetência e ingenuidade de Angela Merkel em avançar com Nordstream 2 e entregar uma grande parte da infraestrutura energetica a Putin, isso já lhe agrada? Tipos bem parecidos é o que não falta na Alemanha. Mas o seu tipo parece ser mais o sunny boy Lindner, que, esse sim tem fama de entusiasmar as mulheres.

      • Teresa Palmira Hoffbauer says:

        Prefiro mil vezes o gás russo do que o saudita, embora deteste ambos os governos. Pelo menos na Rússia as mulheres têm outras liberdades. O Verde e o Liberal são amigos de longa data.

        Meu querido 🦁 lamento tê-lo irritado!!

        • Paulo Marques says:

          Foi criado o seu registo como putinóloga por defender que a realpolitik é complexa. Será contactada pelo representante do Ministério da Verdade mais próximo.

          • Teresa Palmira Hoffbauer says:

            “putinóloga„

            O Paulo Marques tem cá uma sorte!!
            Se o Will Smith fosse o meu marido, o Paulinho já tinha um tiro nos •••

          • Paulo Marques says:

            Teresa,

            tenho discordâncias consigo, mas aqui era sarcasmo, e nem sequer à sua custa.
            Apontou bem um dos factores para a dificuldade de ter certezas de algum bem no meio disto.

      • balio says:

        a incompetência e ingenuidade de Angela Merkel em avançar com Nordstream 2

        Não foi incompetência nem ingenuidade. Angela Merkel fez com isso duas coisas bem:

        (1) Privilegiou o fornecedor mais barato que tinha à sua disposição. O gás natural liquefeito vindo de África, do Qatar ou dos EUA fica muito mais caro do que o gás russo. (Porque vem de muito mais longe, e porque necessita de ser liquefeito e depois regaseificado.)

        (2) Privilegiou um contrato de fornecimento de longo prazo e a um preço fixo, dessa forma dando segurança tanto ao consumidor como ao produtor e não ficando à mercê dos muito voláteis preços spot.

  5. Rosa Lourenço says:

    Independentemente de moralismos porque, infelizmente, a ética e a moral, na actialidade, são negligenciadas, há que recorrer sempre a diversos fornecedores e a diferentes clientes. Nenhum país deve tornar-se refém de qualquer fornecedor nem de um único cliente. Quanto maior a diversidade de fornecedores e de clientes, maior será a liberdade e a democracia desse país.

  6. Rosa Lourenço says:

    Lamento a gaffe…era actualidade.

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