Crise, inflação, capitalismo

A Estónia, supremo unicórnio liberal, lidera agora o ranking da inflação dos 27, que naquele país ronda os 22%. A situação não difere muito do restante Báltico ou dos países que fazem fronteira com a Federação Russa, e a causa é demasiadamente evidente, pelo que não perderei tempo a elaborar.

Contudo, importa recordar muitos dos que agora acenam, e bem, com a guerra da Ucrânia, e respectivas ondas de choque, como causas primárias para este aumento da inflação no El Dorado do crescimento económico a leste, são mais ou menos os mesmos que se recusaram a aceitar o impacto da crise de 2008 na hecatombe portuguesa que se seguiu. A culpa era do Sócrates, apenas e só do Sócrates, e de mais ninguém para lá do Sócrates.

Não me entendam mal: Sócrates é um corrupto que minou a democracia e que empurrou o país para o precipício. Por mim estava preso por muitos anos com os bens confiscados, incluindo os que estão no nome da mãe. Mas o ódio anti-socrático não pode, racionalmente, servir de justificação para ignorar a realidade. E a realidade é esta: todos os países, sem excepção, estão hoje reféns de um modelo económico que se sobrepõe a eles e aos seus cidadãos. Um modelo económico que mais não é do que um reflexo das vontades e exigências da elite. A verdadeira elite. Não falo do tipo que tem alta casa com piscina e um Porsche na garagem. Falo de dinheiro a sério. Falo de ilhas privadas, foguetões fálicos e iates com 200 funcionários e helipad. Bons carros e mansões qualquer rico tem.

Os mercados, essas abstracções que ninguém compreende bem, e os investidores, a maior parte dos quais os piratas da era moderna, funcionam como uma espécie de IV Reich, que não mata em câmaras de gás mas na miséria da pobreza e da escassez necessária para manter o estilo de vida obsceno do 0,1%. E uma das melhores ferramentas para este business model da pilhagem consiste em fabricar crises. Sejam crises económicas, políticas ou militares. E nunca falham.

A luta do século não é contra a extrema-direita, contra as alterações climáticas ou contra a guerra. É contra eles, que são a causa de quase todos os males que nos assolam. São quem mais polui, quem mais consome os recursos do planeta, quem mais lucra com as guerras, quem mais desigualdade semeia. São a pandemia para a qual precisamos de uma vacina. Azar o nosso, os laboratórios onde se produzem vacinas também são deles.

Comments

  1. JgMenos says:

    «Um modelo económico que mais não é do que um reflexo das vontades e exigências da elite.»

    Se por elite se entende a cambada política que compra votos e promete tudo a troco de nada, estou de acordo.

    • Paulo Marques says:

      Acima de tudo, prometem atacar o Outro, sem qual correria tudo bem, nem que seja preciso mudar de alvo de 4 em 4 anos, e tudo se aceita como menos importante, de não levar líquidos no avião, ser espiado constantemente, ou passar fome e frio.
      Amén.

    • POIS! says:

      Pois não!

      Por elite não se entende Vosselência & Cª. Isso não! Esteja descansado!

  2. JgMenos says:

    «Os mercados, essas abstracções que ninguém compreende bem,»
    É MUITO difícil!
    Tens dinheiro para gastar, logo aparece alguém a vender-te uma merda qualquer. muito DIFÍCIL!

    • Paulo Marques says:

      ?

    • POIS! says:

      Ora pois!

      Ora diga lá quanto tem Vosselência hoje, que a malta manda já um vendedor à sua esquina (Vosselência pertence áquela equipa de salazarescos estrategicamente disseminada, não é?).

      Pasta “Couto”, restaurador “Olex”, cera “Galo”, solarina “Coração”, “Farinha Amparo”, vinho “Quinado”, “Ovomaltine”, sabão “Clarim” há de trudo. E ás toneladas! Uma maravilha estes mercados!

      Se não estiver interessado em nada disto, há merda a gosto. Mas isso não vendemos. Aqui tem de procurar outro mercado mais simples. Tente na rua Miguel Lupi. Há lá um estabelecimento muito conceituado a produzir essa mercadoria. Fica no nº 12.

  3. Paulo Marques says:

    Só comem e bebem enquanto os alimentamos, quando não houver, e não falta tanto como isso, não costuma correr bem para aqueles lados.
    Mas quanto aos mercados, não é assim tão difícil: é preciso ignorar a ortodoxia e olhar para o que fazem os agentes relevantes, bem como os incentivos que têm ou criam.

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