Fetos abortados usados na produção de energia (e outros sinais de talibanização e demência avançada na América de Trump)

Do que vou lendo por aí, sinto que muita gente não tem noção daquilo que hoje se passa nos EUA. Que acredita que os EUA são o cosmopolitismo de NY ou a vibe hollywoodesca das grandes cidades da costa oeste.

Não é.

Os EUA são hoje uma democracia em profundo declínio, em larga medida fruto da brutal radicalização do Partido Republicano, que sempre teve os seus flirts com extremismos e extremistas.

Podia aqui escrever linhas e mais linhas sobre inúmeros temas, da multiplicação dos tiroteios, sem paralelo à escala mundial, à recente revogação de Roe vs Wade, passando pelo racismo estrutural ou pelo fundamentalismo religioso, que não distingue alguns movimentos americanos da praxis Taliban, mas vou antes pegar num dos grupos que melhor ilustra este estado de alucinação colectiva que parece marcar o início do fim da hegemonia dos EUA: os movimentos “pró-vida”.

Catherine Glenn Foster, uma activista da extrema-direita norte-americana que preside à Americans United for Life, uma dessas organizações radicais travestidas de “pró-vida”, prestou declarações no congresso norte-americano, em Maio deste ano, no âmbito do processo que terminou com a revogação de Roe vs Wade. Sob juramento, Glenn Foster garantiu que as empresas de energia de Washington DC usam fetos abortados para produzir energia:

“Bodies [are] thrown in medical waste bins, and in places like Washington DC, burned to power the lights of the cities’ homes and streets”

E acrescentou:

“Let that image sink in with you for a moment. The next time you turn on the light, think of the incinerators, think of what we’re doing to ourselves so callously and numbly.”

Este discurso absolutamente absurdo, demente e digno do mais radical dos imãs wahhabitas já não é um discurso de franja. É mainstream. É o legado de Trump. E será gravado na campa do Ocidente: aqui jaz a civilização mais avançada de sempre, que decidiu sucumbir à estupidez, à conspiração mais idiota e ao mais arcaico fundamentalismo religioso.

RIP, uncle Sam.

Comments

  1. JgMenos says:

    Não é novidade que na sociedade americana se pode encontrar do melhor e do pior.
    Que sendo terra de emigração, começou por ser destino dos mais desfavorecidos da Europa e outros lugares; sendo terra de escravatura tem muita gente com não distante origem em condições miseráveis de desenvolvimento pessoal.
    Que havendo liberdade de expressão tanto o melhor como o pior se tornam visíveis.
    Que essa visibilidade é exponenciada pelo facto de ‘o sonho americano’ ser o oposto do ‘culto da mediocridade’ tão caro ao igualitarismo esquerdalho.

    Também não é segredo que a esquerdalhada tudo faz esquecer para repescar o pior e o pôr a cargo do capitalismo.

    • POIS! says:

      Ora pois!

      “Que essa visibilidade é exponenciada pelo facto de ‘o sonho americano’ ser o oposto do ‘culto da mediocridade’ tão caro ao igualitarismo esquerdalho”.

      Ora pois! Um antigo professor meu que dá ocasionalmente aulas nos EUA como convidado, ao chegar á universidade que o acolhe perguntou por colegas que estavam reformados e com os quais tinha perdido o contacto.

      Não foi sem surpresa que lhe disseram que ambos estavam novamente a trabalhar, aos setenta e tantos anos de idade, um deles num emprego bastante modesto, porque os fundos de pensão onde tinham colocado as poupanças tinham falido e o que lhes restava não dava para se sustentarem.

      Já para não falar de um casal de antigos vizinhos (já falecidos) que emigrou para os EUA nos anos sessenta do século passado e que por lá trabalhou durante quase trinta anos.

      Tiveram de regressar a Portugal, onde sempre trabalharam até emigrar, para se conseguirem tratar no Serviço Nacional de Saúde e conseguirem um lar para o homem, assim que se acentuou o “Alzheimer”.

      Realmente é um sonho! Pelo Menos é muito lindo! Muito!

      • JgMenos says:

        Tem toda a razão!
        No ‘sonho americano’ não entra o colinho do Estado, ou seja os impostos dos outros sonhadores.

        • Paulo Marques says:

          Pois não; então agora iam deitar fora o sonho de perder tudo por factores alheios e/ou aleatórios?

        • POIS! says:

          Pois é!

          Morre acordado que é para aprenderes!

          Quem os mandou colocar as poupanças em quem lhes estourou o dinheiro?

          Não acertaram? Lamentamos!

    • Paulo Marques says:

      Pois não, os senadores como a MTG que não só concordam com estas afirmações, mas acham que são razão para um golpe de estado não são, de facto, medíocres. Não sei é em que é que o culto da loucura, normalmente com suporte imaginário de um livro que nunca leram, é superior, mas lá saberá o Menos, e os nossos líderes.

  2. Luís Lavoura says:

    A senhora é capaz de ter razão.
    Um feto abortado é um resíduo hospitalar perigoso, como uma perna amputada ou coisa do género. Os resíduos hospitalares perigosos têm perigo contaminante e são incinerados a alta temperatura, para eliminar esse perigo. Tenta-se aproveitar a energia libertada pela incineração para produzir alguma eletricidade (como se faz na incineradora da LIPOR, por exemplo).
    Se assim fôr, e eu creio que será, pois de facto os fetos abortados serão transformados em eletricidade. Teoricamente, porque na prática, incinerar aquilo absorve mais energia do que aquela que produz (devido ao alto teor de água).

  3. Alberto says:

    Sim, verdade. Por exemplo, a ultima nomeada para o SCOTUS foi incapaz de definir o que é uma mulher.

  4. José Maurício says:

    Não é preciso ir buscar exemplos aos Estados Tolinhos, aqui neste canto da europa temos muitos exemplos de extremismos religiosos, basta ler com atenção as notícias que vão aparecendo. Principalmente no norte. Alguém dizia “a religião é o ópio do povo” e tinha razão, podem andar com a canga e levar porrada, porque aceitam tudo o que lhes digam dentro daquelas paredes e fora delas também.

    • JgMenos says:

      A religião envolve a fé, que de facto promove esses sintomas, seja ela a católica seja a esquerdalha,

  5. Anonimo says:

    Estão bem uns para os outros, terraplanistas do mundo comandado pelos lagartos aliens, e os do espectro de 99 géneros não binários.

  6. Pimba! says:

    Esta gente näo é “radical”. É extremista!
    Há uma confusão nos termos, que urge limpar!
    “Radical” vem de “raíz”, até é a tradução semi-literal do tão propalado “grassroots”.
    Sim, “grassroots movements” säo movimentos radicais, mas näo säo extremistas. Até em Portugal houve um partido Radical, por isso mesmo.

    Já agora, a talibanização dos EUA vem de longe.
    As organizações extremistas travestidas de “pró-vida” existem há pelo menos 50 anos, desde que o “Roe vs. Wade” foi implementado. Antes faziam parte da “maioria moral”, a tal que manteve o apartheid nos EUA até quase 1970.
    Trump é o sintoma, não a doença.

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