A NATO e a farsa democrática que nos rebentará nas mãos

O ano de 2022 tem sido fértil em tragédias e desilusões, com a invasão da Ucrânia à cabeça, perpetrada por esse antigo investidor de referência do neoliberalismo dirigente, hoje convertido em hitleriano ditador, a quem, ainda assim, continuamos a comprar commodities.

Contudo, do Kremlin nunca esperei democracia. Daí que considere mais preocupante, no que ao nosso modo de vida e à democracia diz respeito, assistir à capitulação da Suécia e da Finlândia, que se ajoelharam e ofereceram a democracia numa bandeja a outro ditador, que só não rosna mais por não se lhe conhecer arsenal nuclear.

Para garantir a adesão à NATO, os dois estados nórdicos necessitam da aprovação de Erdogan, algo que, por si só, deixa claro que a democracia não tem grande peso no seio da Aliança Atlântica. De outra forma, a Turquia não faria parte. Mas só quem não conhece o modus operandi da NATO poderá achar que a sua acção tem alguma coisa a ver com democracia e direitos humanos. Não tem. Ambas as dimensões serão, quanto muito, uma fachada para o seu modelo de negócio: garantir a hegemonia mundial dos EUA e manter o complexo militar-industrial americano em alta rotação. É para isso que serve a NATO, não para proteger europeus indefesos. Para os EUA, uma Europa amiga é mais rentável que uma Europa hostil. E é isso, não a democracia, que passa cheques à NATO.

Na passada semana, apesar do clima de guerra fria entre a NATO e a Federação Russa, Erdogan, líder de um Estado membro da NATO, reuniu-se com Vladimir Putin e Ebrahim Raisi, em Teerão, posando no final para a fotografia de mãos dadas com os seus pares.

Aparentemente, isto não faz soar nenhum alarme em Washington, Bruxelas ou Londres. Como não parece incomodar ninguém que, entre as condições impostas por Ancara a Estocolmo e Helsínquia, esteja a deportação de activistas curdos para posterior execução num calabouço turco. Deve ser a isto que se referem os que falam nos superiores valores democráticos da “comunidade internacional”. E eu que pensava que era só a boa velha realpolitik.

Estamos, portanto, nestes tristes preparos. Exigimos democracia a Vladimir Putin, ao mesmo tempo que deportamos activistas para satisfazer a vingança de Erdogan, que por sua vez se reune e surge de mãos dadas com aquele que ameaça directamente vários estados-membros da NATO, apontando ogivas para o Velho Continente, com a pata ensanguentada sobre o Donbas. A mesma Turquia que, recorde-se, obteve estatuto de país candidato a integrar a UE em 99, e que se arrisca agora a ser ultrapassado pela Ucrânia. E não serão, seguramente, questões de direitos humanos a travar o processo. Afinal, é aos turcos que pagamos para conter a vaga de imigração terrestre, com os métodos que todos conhecemos. E Erdogan não é assim tão diferente de Orbán. O problema da Turquia é outro. Europe’s got 84.000.000 problems but that bitch ain’t one.

Comments

  1. JgMenos says:

    Só num país de palhaços democráticos é que os ‘activistas’ das FP-25 não precisaram de se refugiar em lado nenhum.
    Quanto à Europa esta tem andado debaixo da capa orçamental e operacional das FAs dos EUA.
    A chulice acabou, e a besta do Trump sempre nisso teve razão.
    Sem os EUA estaríamos hoje a ir ao beija-mão a Moscovo.

    • POIS! says:

      Pois ora bem…

      O que vemos? Oh! Um calcanhar na testa! Um testículo atrás da orelha! Sai abundante urina pela cova do braço! Uma mama nas costas!

      O Menos está cada vez mais torcido. A coluna parece um parafuso de um Boeing! Um dó!

    • Paulo Marques says:

      Orçamental e operacional? Mas não importamos tudo da China agora?
      Tem quase razão, mas falha por quilómetros, que a UE não tem soberania. Porque nunca a quis.

  2. POIS! says:

    O que vale é que, nestas coisas da NATO há sempre uma saída. Há uns dos nossos que se dão muito bem com o inimigo.

    Eis o que constará nas futuras memórias do Erdogan:

    “Como a gente se dava muito bem com o inimigo, nós tínhamos um avião que dava para todos, não era? Eles bombardeavam às Segundas, Quartas e Sextas, e a gente bombardeava às Terças, Quintas e Sábados, e lá íamos vivendo.”

  3. JgMenos says:

    O bobo da corte esquerdalha não d´tréguas.
    Entediante…

  4. jose Micaelo says:

    Aprendam a ceder passagem!

  5. Paulo Marques says:

    O problema não é a realpolitik; tem mesmo que ser. O problema é que não é admitida, a propaganda de que os nossos olhos mentem, e toda a visão alternativa é “cancelada”.
    Ora, um sistema que não funciona e que só é bom a propagandear o perigo do inimigo fraco e certas diferenças do sistema acaba a promover como única alternativa o quê, e a empurrar os descontentes para onde?
    Pois. Como já é por demais evidente, compara-se a situação com a guerra errada.

  6. luis barreiro says:

    O J. Mentes mais um bocado de contorcionismo e a culpa da guerra além de ser dos neo-liberais e da Il também é do Passos Coelho. Máta-te!

    • POIS! says:

      Pois, estou desconfiado!

      Que os comentários do barreirasco são patrocinados por alguma agência funerária. Só pode ser!

      Quanto é a comissão, ó barreirasco? Ou é em troca de serviços em géneros a Vosselência?

    • Paulo Marques says:

      Actualiza-te, a culpa já vai no papa.

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