Banho turco 

É comovente ver o proto-fascista Erdogan preocupado e, até, indignado com o que ele diz ser a falta de liberdade e democracia nos países da Europa que lhe recusaram espaço para seu número de circo político. Na verdade, a criatura não queria, bondosamente, levar a sua campanha referendária aos seus compatriotas espalhados por esses países. Fosse esse o caso e a oposição turca também se poderia movimentar à vontade sem receio de ser presa ou morta. Erdogan investiu, sobretudo, sobre os países que atravessam processos eleitorais, tentando neles intervir de vários modos, influenciando as decisões políticas dos cidadãos – nomeadamente os de origem turca, mas não só – e procurando caçar a oposição turca exilada ou pressionado os governos desses países para que lhe fizessem o trabalho sujo. Não por acaso, a acusação de a Alemanha ter um regime nazi seguiu-se à exigência – recusada, e bem, pelo governo alemão – de prisão dos “terroristas” turcos residentes na Alemanha que são, do ponto de vista de Erdogan, os opositores ao seu regime, nomeadamente os curdos.
Só a França cedeu na importação da “campanha” do governo turco, autorizando um comício no seu território. E a grosseria agressiva e belicista do discurso do ministro turco destacado para a função foi a merecida paga que os anfitriões receberam por terem patrocinado essa imitação grotesca de “liberdade de expressão”, por essa patética insegurança na defesa de princípios fundamentais. A violência do último discurso de Erdogan – para consumo interno e externo – não devia, penso eu, deixar dúvidas quanto à natureza do seu projecto e aos riscos que aí vêm. [Read more…]

O Sultão do Bósforo

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O presidente turco Erdogan pertence à perigosa cepa de homens cuja virilidade se enfoca numa sensibilidade exacerbada àquilo que entende por sua honra e numa desmedida ambição de poder.

Carismático e eloquente, aplica extensivamente e com êxito a sua receita populista: a polarização como meio de mobilizar os seus adeptos e dividir a sociedade, atemorização e repressão dos que se atrevem a não estar do seu lado. Metade da população está com ele, a outra metade (turcos liberais, curdos, alevitas) não tem direito à existência. Declara que “representa o povo”, tudo o resto é ilegítimo.

Após a tentativa de golpe militar de 15 de Julho do ano passado, Erdogan vem dando crescentes largas aos seus instintos ditatoriais. Não lhe basta ter extinguido a liberdade de imprensa (a Turquia ocupa o lugar 151 de 180 no ranking da liberdade de imprensa da “Repórteres sem Fronteiras”; “na maior prisão mundial de autores” estão mais de 150 jornalistas e escritores, todos acusados de apoio ao terrorismo) e atirado para a cadeia muitas centenas de milhares de pessoas; Erdogan quer mandar como um verdadeiro sultão, desde o seu palácio de mil divisões. [Read more…]

Tourada turco-alemã

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Cem Özdemir, presidente do partido alemão “Os Verdes”, foi, em 1994, o primeiro deputado de origem turca com assento no parlamento federal. Uma das suas bandeiras, o reconhecimento como genocídio dos massacres aos arménios, cometidos há mais de um século pelo Império Otomano, tornou-o um alvo do presidente Erdogan. Já no seu discurso em Maio de 2014, em Colónia, Erdogan se lhe referiu como “suposto turco” e declarou que não queria voltar a vê-lo no seu país. E desde que, no passado dia 2 de Junho, o parlamento alemão aprovou por grande maioria uma resolução que reconhece o genocídio ao povo arménio, Özdemir – bem como outros 10 deputados de origem turca – passou a receber ameaças, até de morte, tendo sido colocado sob protecção policial e fortemente desaconselhado de se deslocar à Turquia. Esta resolução tornou-se um espinho cravado na garganta de Erdoğan, que logo desancou verbalmente estes deputados como porta-vozes do PKK (o proibido Partido dos Trabalhadores do Curdistão) que, tal como os terroristas, teriam sangue degenerado, ou falta de carácter – duas opções para traduzir as palavras utilizadas por Erdogan. [Read more…]

Valores limitados

Recep-Tayyip-ErdoganFoto: AP

A democracia é um comboio do qual se desce quando se chega ao destino”, Erdogan nunca deixou dúvidas quanto à sua convicção anti-democrática e, desde a fracassada tentativa de golpe, tem carta branca para a “caça às bruxas” que já levou à prisão mais de 40.000 pessoas – entre as quais militares, juízes, jornalistas, professores, polícias – e à suspensão de 80.000 funcionários públicos. As cadeias estão de tal modo sobrelotadas, que o governo anunciou que irá libertar 38.000 prisioneiros detidos antes do golpe, para arranjar lugar para todos os supostos simpatizantes do movimento Gülen, ao qual Erdogan achou por bem atribuir a tentativa de golpe. Segundo Erdogan, o golpe foi “um presente de Alá”, que o legitima a dar largas às ganas de liquidar tudo o que se lhe oponha, falando de expurgação, punição exemplar e de reintrodução da pena de morte. Para tudo isto Erdogan conta com o apoio ilimitado de uma substancial parte da população turca. No regresso a Istambul após a debelação do golpe, Erdogan foi recebido por milhares de pessoas no aeroporto, muitas das quais bradando “ordena-o e mataremos, ordena-o e morreremos”, e, sucessivamente, “Alá é grande!”. À gigantesca manifestação orquestrada pelo presidente três semanas depois do golpe, acorreram mais de um milhão de pessoas. Quem ainda se atreve a ter uma posição crítica, tem o destino marcado. A divisão de poderes foi desmantelada, a Turquia a caminho da ditadura.
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Ditaduras acarinhadas pela direita nacional

TU

Se eu seguisse a cartilha de uns quantos académicos do ministério da propaganda, que catalogam de socialista tudo o que mexe à esquerda, como se o Syriza, o PS e a catástrofe venezuelana fossem a mesma coisa, diria que o que se passa na Turquia é o neoliberalismo em todo o seu esplendor, bastando para isso recorrer ao mesmo argumento dos iluminados – o facto do AKP de Erdogan ser um partido de direita, conservador e apologista do liberalismo económico. [Read more…]

Carta do Canadá – Sombra dos nossos dias

Na Europa e no Mundo, não estamos a viver dias claros e límpidos. Somam-se as sombras da angústia, da preocupação, da incerteza.

Erdogan, o ditador turco cujas subterrâneas simpatias pelo Daesh são tão inexplicadas como as suas opiniões fanáticas acerca das mulheres que estudam, trabalham e vestem à ocidental, acaba de decretar o estado de emergência por três meses – depois dum golpe militar de origem mais do que suspeita que ele aproveitou para caír como um milhafre sobre a população. Tem sido um trágico cortejo de prisões e despedimentos de militares, magistrados, professores e jornalistas. Alguns turcos que fugiram para o mundo livre fazem saber, através das televisões, que há populares decapitando opositores de Erdogan na ponte do Bósforo. Tal qual fazem os membros da seita Daesh, a que não esconde querer estender o Califado à Europa ao mesmo tempo que as suas hostes são bombardeadas e dizimadas no Médio Oriente. Os sequazes de Erdogan que enchem as ruas de Istambul não precisam que a pena de morte seja instituída, por via parlamentar. Já a praticam. Impunemente.
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Às portas da União

Erdogan

Golpe de Estado ou encenação, o poder de Erdogan sai reforçado e a União Europeia fragiliza-se perante um estado a quem entregou 3000 milhões de euros para controlar os fluxos migratórios de refugiados sírios, acompanhados de promessas de um novo impulso nas negociações para a adesão da Turquia. A mesma Turquia que pretende agora reinstituir a pena de morte, cenário incompatível com a adesão mas apreciado por ditadores locais como Viktor Orbán. E enquanto a fronteira leste da Europa se radicaliza de forma aterradora, os donos da União brincam à austeridade, castigando exemplarmente as ovelhas tresmalhadas do sul. Entretanto, em Ancara, a purga de Erdogan soma e segue. E, segundo o comissário europeu Johannes Hahn, o regime turco já tinha em sua posse a lista de alegados golpistas, mesmo antes do caos se instalar. Mas isso não interessa para nada, pois não?

Rir ou punir, eis a questão!

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É sabido que os ditadores ou candidatos a tal têm pouco sentido de humor e adoram triturar quem arranja maneira de fazer humor sobre a sua falta de humor. Estamos a assistir a um caso apimentado que se enquadra nessa problemática humorística e tem honras de destaque nos média alemães de hoje. Um humorista alemão apresentou, num programa satírico, um poema com uma forte sátira ao presidente turco Erdogan. Segundo consta, chamou-lhe de tudo (não pude ver o vídeo porque já foi retirado da net; existe um outro vídeo, de outro programa de sátira política alemão, com legendas em inglês, que (ainda) não foi retirado). [Read more…]

“Eleito com 50% dos votos”,

diz o Primeiro-ministro turco Erdogan, para usar o argumento da legitimidade democrática. Resta saber quantos votaram, isto é, o que representa 50% desses cidadãos eleitores. Não há volta a dar-lhe: a democracia representativa não funciona em lado nenhum.

A foto do momento

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Embora não o querendo, esta «woman in red» tornou-se um símbolo da luta do povo Turco contra o seu governo.

Parecendo calma, desarmada, com todo o ar de quem só lá foi para «ver a bola», é atacada por um polícia que lhe atira gás lacrimogéneo. Terá ela feito alguma coisa que as câmaras fotográficas não captaram? Terá ela provocado os agentes da autoridade até que este senhor não aguentou mais e deitou mão daquilo que tinha mais à mão, passo a redundância? Aquele aparentemente inocente saco branco esconderá sabe-se lá que armas perigosas e ilícitas? Acredito que foi o seu vestido de cor ousada que chamou a atenção do polícia. Que o fez desejar aniquilá-la. [Read more…]