Bombaças do sultão do Bósforo

Digo a todos os meus compatriotas na Alemanha: Não apoiem o CDU, nem o SPD, nem os Verdes! São todos inimigos da Turquia”, declarou a semana passada o presidente turco, instando a comunidade turca na Alemanha – com os seus 1,25 milhões de eleitores inscritos – a não votar em nenhum dos três maiores partidos nas eleições legislativas de 24 de Setembro. E como é de esperar nesta cepa de homens cuja virilidade se enfoca numa sensibilidade exacerbada àquilo que entende por sua honra e numa desmedida ambição de poder,  acrescentou: “Trata-se de uma luta pela honra de todos os nossos cidadãos que vivem na Alemanha”.

Esta foi mais uma conta no longo rosário da subida de tensão entre os dois governos. [Read more…]

Banho turco 

É comovente ver o proto-fascista Erdogan preocupado e, até, indignado com o que ele diz ser a falta de liberdade e democracia nos países da Europa que lhe recusaram espaço para seu número de circo político. Na verdade, a criatura não queria, bondosamente, levar a sua campanha referendária aos seus compatriotas espalhados por esses países. Fosse esse o caso e a oposição turca também se poderia movimentar à vontade sem receio de ser presa ou morta. Erdogan investiu, sobretudo, sobre os países que atravessam processos eleitorais, tentando neles intervir de vários modos, influenciando as decisões políticas dos cidadãos – nomeadamente os de origem turca, mas não só – e procurando caçar a oposição turca exilada ou pressionado os governos desses países para que lhe fizessem o trabalho sujo. Não por acaso, a acusação de a Alemanha ter um regime nazi seguiu-se à exigência – recusada, e bem, pelo governo alemão – de prisão dos “terroristas” turcos residentes na Alemanha que são, do ponto de vista de Erdogan, os opositores ao seu regime, nomeadamente os curdos.
Só a França cedeu na importação da “campanha” do governo turco, autorizando um comício no seu território. E a grosseria agressiva e belicista do discurso do ministro turco destacado para a função foi a merecida paga que os anfitriões receberam por terem patrocinado essa imitação grotesca de “liberdade de expressão”, por essa patética insegurança na defesa de princípios fundamentais. A violência do último discurso de Erdogan – para consumo interno e externo – não devia, penso eu, deixar dúvidas quanto à natureza do seu projecto e aos riscos que aí vêm. [Read more…]

O Sultão do Bósforo

sultan-erdogan

O presidente turco Erdogan pertence à perigosa cepa de homens cuja virilidade se enfoca numa sensibilidade exacerbada àquilo que entende por sua honra e numa desmedida ambição de poder.

Carismático e eloquente, aplica extensivamente e com êxito a sua receita populista: a polarização como meio de mobilizar os seus adeptos e dividir a sociedade, atemorização e repressão dos que se atrevem a não estar do seu lado. Metade da população está com ele, a outra metade (turcos liberais, curdos, alevitas) não tem direito à existência. Declara que “representa o povo”, tudo o resto é ilegítimo.

Após a tentativa de golpe militar de 15 de Julho do ano passado, Erdogan vem dando crescentes largas aos seus instintos ditatoriais. Não lhe basta ter extinguido a liberdade de imprensa (a Turquia ocupa o lugar 151 de 180 no ranking da liberdade de imprensa da “Repórteres sem Fronteiras”; “na maior prisão mundial de autores” estão mais de 150 jornalistas e escritores, todos acusados de apoio ao terrorismo) e atirado para a cadeia muitas centenas de milhares de pessoas; Erdogan quer mandar como um verdadeiro sultão, desde o seu palácio de mil divisões. [Read more…]

Tourada turco-alemã

erdogan merkel

Cem Özdemir, presidente do partido alemão “Os Verdes”, foi, em 1994, o primeiro deputado de origem turca com assento no parlamento federal. Uma das suas bandeiras, o reconhecimento como genocídio dos massacres aos arménios, cometidos há mais de um século pelo Império Otomano, tornou-o um alvo do presidente Erdogan. Já no seu discurso em Maio de 2014, em Colónia, Erdogan se lhe referiu como “suposto turco” e declarou que não queria voltar a vê-lo no seu país. E desde que, no passado dia 2 de Junho, o parlamento alemão aprovou por grande maioria uma resolução que reconhece o genocídio ao povo arménio, Özdemir – bem como outros 10 deputados de origem turca – passou a receber ameaças, até de morte, tendo sido colocado sob protecção policial e fortemente desaconselhado de se deslocar à Turquia. Esta resolução tornou-se um espinho cravado na garganta de Erdoğan, que logo desancou verbalmente estes deputados como porta-vozes do PKK (o proibido Partido dos Trabalhadores do Curdistão) que, tal como os terroristas, teriam sangue degenerado, ou falta de carácter – duas opções para traduzir as palavras utilizadas por Erdogan. [Read more…]

Valores limitados

Recep-Tayyip-ErdoganFoto: AP

A democracia é um comboio do qual se desce quando se chega ao destino”, Erdogan nunca deixou dúvidas quanto à sua convicção anti-democrática e, desde a fracassada tentativa de golpe, tem carta branca para a “caça às bruxas” que já levou à prisão mais de 40.000 pessoas – entre as quais militares, juízes, jornalistas, professores, polícias – e à suspensão de 80.000 funcionários públicos. As cadeias estão de tal modo sobrelotadas, que o governo anunciou que irá libertar 38.000 prisioneiros detidos antes do golpe, para arranjar lugar para todos os supostos simpatizantes do movimento Gülen, ao qual Erdogan achou por bem atribuir a tentativa de golpe. Segundo Erdogan, o golpe foi “um presente de Alá”, que o legitima a dar largas às ganas de liquidar tudo o que se lhe oponha, falando de expurgação, punição exemplar e de reintrodução da pena de morte. Para tudo isto Erdogan conta com o apoio ilimitado de uma substancial parte da população turca. No regresso a Istambul após a debelação do golpe, Erdogan foi recebido por milhares de pessoas no aeroporto, muitas das quais bradando “ordena-o e mataremos, ordena-o e morreremos”, e, sucessivamente, “Alá é grande!”. À gigantesca manifestação orquestrada pelo presidente três semanas depois do golpe, acorreram mais de um milhão de pessoas. Quem ainda se atreve a ter uma posição crítica, tem o destino marcado. A divisão de poderes foi desmantelada, a Turquia a caminho da ditadura.
[Read more…]

Ditaduras acarinhadas pela direita nacional

TU

Se eu seguisse a cartilha de uns quantos académicos do ministério da propaganda, que catalogam de socialista tudo o que mexe à esquerda, como se o Syriza, o PS e a catástrofe venezuelana fossem a mesma coisa, diria que o que se passa na Turquia é o neoliberalismo em todo o seu esplendor, bastando para isso recorrer ao mesmo argumento dos iluminados – o facto do AKP de Erdogan ser um partido de direita, conservador e apologista do liberalismo económico. [Read more…]

Carta do Canadá – Sombra dos nossos dias

Na Europa e no Mundo, não estamos a viver dias claros e límpidos. Somam-se as sombras da angústia, da preocupação, da incerteza.

Erdogan, o ditador turco cujas subterrâneas simpatias pelo Daesh são tão inexplicadas como as suas opiniões fanáticas acerca das mulheres que estudam, trabalham e vestem à ocidental, acaba de decretar o estado de emergência por três meses – depois dum golpe militar de origem mais do que suspeita que ele aproveitou para caír como um milhafre sobre a população. Tem sido um trágico cortejo de prisões e despedimentos de militares, magistrados, professores e jornalistas. Alguns turcos que fugiram para o mundo livre fazem saber, através das televisões, que há populares decapitando opositores de Erdogan na ponte do Bósforo. Tal qual fazem os membros da seita Daesh, a que não esconde querer estender o Califado à Europa ao mesmo tempo que as suas hostes são bombardeadas e dizimadas no Médio Oriente. Os sequazes de Erdogan que enchem as ruas de Istambul não precisam que a pena de morte seja instituída, por via parlamentar. Já a praticam. Impunemente.
[Read more…]