
Há quase um quarto de hora de publicidade antes do Isto é Gozar com quem Trabalha. Achei importante começar por aqui para enquadrar o impacto do RAP – o gajo que não tem redes sociais – na televisão portuguesa. E a televisão, sublinhe-se, é um bocado como o Facebook: toda a gente diz que está obsoleta, que já ninguém usa aquilo, mas os números dizem o contrário.
Bem sabemos que os humoristas não decidem os destinos do mundo. Nos EUA, antes de ser eleito, John Stewart, Steven Colbert, John Oliver e Conan O’Brien foram implacáveis com Donald Trump. Foi um esforço inglório, mas rendeu quatro anos de boas piadas. Algumas fizeram-se sozinhas.
Mas, mesmo sabendo da inutilidade dos humoristas, quando o tema são coisas sérias, é sempre bom ver o país que somos ao espelho. As Marcelices, os pavilhões parcialmente pagos que não existem, o provincianismo que orbita a Web Summit, a mudança de secretário-geral no PCP, o pavilhão de Caminha, os tribunais sem papel, A4 e higiénico, e a brilhante ilustração da imprensa portuguesa na peça sobre o misterioso frigorífico no centro de Coimbra. Ah, e os 300 mil euros que não-sei-quê.
Ricardo Araújo Pereira é genial e tem com ele uma equipa de génios. Fazem serviço público de qualidade. Valha-nos o humor, que a política é uma tragédia.






Tem piada, mas como crítica, é mais um lib a mitificar uma realidade que não só não era estável, como continua alegremente no seu caminho de inevitabilidade indiferente ao “sistema de regras”. Um burguês a queixar-se do superficial para depois lamentar-se do populismo dos outros.
É pena.
Como fã de humor, estou especialmente grato ao ao Ricardo Araújo Pereira por se apresentar como “comunista”, porque, assim: (a) pode fazer humor inteligente e contundente na televisão, na rádio e na imprensa escrita, em vez de estar remetido para jornais online, para o “backoffice” ou para o estrangeiro; (b) pode fazer piadas sobre ciganos, como as (fantásticas) que fez no domingo à noite, sem ter de levar com uma queixa da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial; (c) pode gozar à vontade com a seita leninista e com a quadrilha do António Costa sem ser qualificado de “fascista”, “neoliberal” ou “passista” – só se queimou com os translibãs, e, sendo esperto, nunca mais se meteu com eles; (d) pode fazer entrevistas, durante a campanha eleitoral, a todos os líderes dos partidos parlamentares boicotando um deles sem ser sancionado pela Comissão Nacional de Eleições – o que nos livrou de ter de gramar com o insuportável Ventura em registo “humorístico”.