Et tu, Gabriela?*

Ainda a propósito dos Mirós, noticia o jornal Expresso de hoje que a venda dos ditos já vinha do tempo do anterior governo (do PS, de Sócrates e de Gabriela Canavilhas).
Era o que já se sabia, pois se houve Ministro da Cultura a fazer fretes foi Gabriela Canavilhas, que faz agora tudo para aparecer como a grande defensora da cultura e do património (dos touros e das touradas já sabemos que é fã). Que tristeza!
Quanto aos Mirós, recomendo a leitura de Vasco Pulido Valente no jornal Público de ontem. Artigo lúcido, de um homem que foi um dos melhores Secretários de Estado da Cultura dos governos após o 25 de Abril.

*Reza a história (sem confirmação científica) que quando o Imperador Júlio César foi apunhalado no Senado, no ano 44 aC , e ao ver que o seu pupilo Marcus Junius Brutus também fazia parte da tramóia, terá dito a frase “Et tu, Brutus?”, que numa tradução livre quer dizer  “Também tu, Brutus?”.

Há uma ética de esquerda e uma ética de direita?

No jornal Público de 22 de Janeiro é apresentado um trabalho, pela pena do jornalista José António Cerejo, sobre a Casa Fernando Pessoa, sobre a sua directora Inês Pedrosa, e sobre adjudicações. O artigo é claro. Conheço o CCP (Código da Contratação Pública), mas sem mais pormenores sobre o que foram os ajustes directos realizados (despachos de autorização de abertura dos procedimentos, consulta/s efectuada/s, etc.) não posso dizer se os casos apontados estão ou não dentro da legalidade.

Mas uma coisa eu sei, os mais elementares princípios de ética estão ausentes deste/s caso/s referidos na notícia. Esta matéria não tem tido o mesmo “tratamento” na opinião pública à semelhança de outras mais ou menos parecidas.

E daí a minha dúvida, haverá uma ética de esquerda e uma ética de direita?

Na caixa do artigo é referido o nome de Rui Pereira, director municipal.

E pensei, este director Municipal, Rui Pereira, será a mesma pessoa que foi chefe de gabinete do Secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas (ex-director da Casa Fernando Pessoa)?

As Assembleias Distritais

A reforma do Estado é um tema actual e toda a gente fala disso (embora eu ache que para este  governo essa reforma seja despedir funcionários públicos, privatizar serviços/ áreas da administração e cortar nos vencimentos, mas isso são contas de outro rosário).

Assim trago hoje para aqui um exemplo de algo anacrónico na nossa administração pública, as Assembleias Distritais. São orgãos que ainda hoje existem, com património próprio e com pessoal.

Para que servem e o que fazem? Pois……..

Uma leitura rápida (são duas páginas e pouco) pelo Decreto-Lei 5/91 de 8 de Janeiro de 1991 que definem o que são, competências, etc, é esclarecedora!

Os Mirós, o Património Cultural e a hipocrisia

A sra. deputada Gabriela Canavilhas, ex-Ministra da Cultura do 2º governo de José Sócrates (2009-2011), vem insurgir-se contra a venda dos badalados Mirós, por parte do Estado Português. Argumenta com a eventual inventariação e classificação dos quadros, baseando-se na Lei de Bases do Património Cultural (Lei 107/2001).

A sra. deputada alega que a referida Lei de Bases estabelece de forma clara princípios fundamentais e estruturantes que atribuem ao Estado responsabilidades inequívocas na salvaguarda e valorização do património cultural”.

E continua, “Se não der seguimento à inventariação, tal como a lei prevê, então [o Estado] estará a contornar a lei e a afirmar publicamente que pretende deixar alienar bens públicos sem sequer os inventariar, o que é muito grave. E só temos duas semanas para travar este processo”.

Pois, digo eu. Isto é tudo muito bonito, mas pergunto, o que andou a sra. deputada Gabriela Canavilhas a fazer quando foi Ministra da Cultura? Uma coisa é certa, achou que a área do Património Cultural e dos Museus não era importante, pois delegou no seu Secretário de Estado essas matérias. O que desde 1980 até 2011 (sim, em 31 anos) nunca tal tinha sido feito por parte de todos os Secretários de Estado da Cultura (quando não havia Ministério) nem por parte de todos os Ministros da Cultura!

 

Os Mirós do Japão*

        Nos últimos dias, alguns jornais, nomeadamente o Público, noticiavam que havia uma petição on-line no sentido de impedir que uma colecção de cerca de 85 pinturas de Juan Miró, propriedade do Estado Português, fosse vendida. Desde logo apareceram os “bitaiteiros” do costume. Que sim, o Estado não tem capacidade para ser proprietário de tal colecção, e o montante da venda serviria para abater ao prejuízo daquele banco. Que não, a venda da colecção é um crime de lesa pátria. E por aí fora.

Por aquilo que fui lendo, o assunto incomoda, e parece que ninguém (da comunicação social a responsáveis do BPN, passando pelo Ministério das Finanças, etc.) esclarece o que de facto se passou. Felizmente há alguém que tem escrito sobre o assunto, e de forma acutilante. Lendo o que Manuel de Castro Nunes escreve (vários posts)  percebe-se tudo. [Read more…]

Ainda Eusébio e o Panteão

Como se calculará, esta conversa vem a propósito do voto da Assembleia da República, que determina o depósito de Eusébio no Panteão. Contra a qual tenho quatro ou cinco objecções. Por um lado, não me cheira que Eusébio gostasse de se ver naquela companhia. Por outro, ninguém lhe pediu autorização para esse exercício de propaganda dos políticos, que ele talvez não apreciasse. E há mais. Há que Eusébio era um génio da sua profissão e de repente (tirando Garrett e Amália) o rodeiam de uma série de mediocridades, que nunca se distinguiram por terem ajudado a humanidade ou os portugueses. Sim, senhor, Eusébio merece um Panteão. Mas não aquele. Um Panteão no estádio do Benfica, ou perto dali, que as pessoas pudessem visitar sem medo de se irritar ou contaminar. Quanto ao Panteão Nacional, do que ele precisa com urgência é de um “saneamento” sucessivo, que o aproxime um pouco da realidade.

Texto parcial do  artigo de hoje de Vasco Pulido Valente (actual cronista no Público e um dos melhores Secretários de Estado da Cultura do pós 25 de Abril).

Príncipes de Portugal, suas grandezas e misérias *

Nos últimos dias, por motivo da morte de Eusébio, falou-se muito no Panteão Nacional. A Presidente da Assembleia da República, vários partidos (PS, PSD, CDS, principalmente), vários políticos, o presidente do S. L. Benfica, etc.

Todos estes intervenientes no sentido de serem transladados para o Panteão Nacional os restos mortais de Eusébio.

A comunicação social, na generalidade, deu grande destaque ao tema. Mas deu-me a impressão de que a maioria das pessoas que falou sobre o assunto não sabe o que é isso do Panteão Nacional. E ainda a qual deles se estava a referir. Confusos? A questão é simples. O Panteão Nacional, seja ele o da Igreja de Santa Engrácia, Lisboa, seja ele o do Mosteiro de Santa Cruz, Coimbra, não é um monumento, é um estatuto, uma função. Em 1916, essa função foi atribuída à Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa. E  aí estão os restos mortais de escritores e ex-presidentes da República. As excepções são Amália Rodrigues e Humberto Delgado. Por outro lado, em 2003, foi atribuído ao Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra o mesmo estatuto/função, o de Panteão Nacional. Esta decisão foi fundamentada pelo facto de aí estarem sepultados D. Afonso Henriques** e D. Sancho I. Outros monumentos há, que também poderiam ter essa função/estatuto. Por exemplo o Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, onde estão os restos mortais de Luís de Camões, de Vasco da Gama ou de Fernando Pessoa.

Quanto à eventual trasladação de Eusébio, e estando uma discussão em aberto, a questão deve ser muito bem ponderada, com a razão e não com o coração. Eusébio foi e será um dos maiores futebolistas de sempre? Sem dúvida! Esse estatuto foi obtido com a camisola da selecção nacional? Não me parece, apesar do Mundial de 66. Foi com a camisola do Benfica que Eusébio se mais notabilizou em todo o lado. E isto não é coisa pouca. O Benfica teve, na altura, uma das melhores equipas do mundo, e em alguns períodos foi mesmo a melhor equipa do mundo!

Mas na altura Portugal era outro país, que felizmente acabou e ao qual não quero regressar.

Se eu fosse adepto do Benfica quereria que ele fosse sepultado no Estádio da Luz.

 

*Título de um livro de Aquilino Ribeiro (também ele está no Panteão Nacional,Santa Engrácia, com alguma polémica à mistura), cuja leitura recomendo.

**Não há a certeza. Relembro que a investigação prevista sobre esta matéria foi proibida, isto é, não foi autorizada a abertura do túmulo e consequente análise ao seu interior por partes de investigadores da Universidade de Coimbra. Episódio onde pontuaram, entre outros, pela negativa, José Sócrates, 1º Ministro, Isabel Pires de Lima, Ministra da Cultura, Elíso Sumavielle, Director-Geral. Todos de triste memória para a nossa Cultura e para nosso Património Cultural.