Os Mirós do Japão*

        Nos últimos dias, alguns jornais, nomeadamente o Público, noticiavam que havia uma petição on-line no sentido de impedir que uma colecção de cerca de 85 pinturas de Juan Miró, propriedade do Estado Português, fosse vendida. Desde logo apareceram os “bitaiteiros” do costume. Que sim, o Estado não tem capacidade para ser proprietário de tal colecção, e o montante da venda serviria para abater ao prejuízo daquele banco. Que não, a venda da colecção é um crime de lesa pátria. E por aí fora.

Por aquilo que fui lendo, o assunto incomoda, e parece que ninguém (da comunicação social a responsáveis do BPN, passando pelo Ministério das Finanças, etc.) esclarece o que de facto se passou. Felizmente há alguém que tem escrito sobre o assunto, e de forma acutilante. Lendo o que Manuel de Castro Nunes escreve (vários posts)  percebe-se tudo.

Aqui fica uma pequena amostra:

……..”Num qualquer momento por volta de 2001, pelo que têm divulgado os jornais e as autoridades, o BPN terá emprestado a uma sociedade espanhola uns milhões de Euros, talvez cerca de oitenta, para comprar a um coleccionador privado japonês oitenta e cinco obras de Joan Miró, ficando as obras como garantia do crédito concedido. Tudo leva a crer que a empresa espanhola deixou as obras à guarda do coleccionador a que as adquirira.

 Uma vez que a empresa espanhola entrou em incumprimento, não é claro quando o BPN executou as obras de Miró. O BPN perdia um crédito mas ganhava um investimento, que vieram depois alegar que era tóxico.Era tóxico porquê? Porque de seguida o BPN vendeu as pinturas tóxicas à SLN e a quatro ‘’offshore’’ da SLN, concedendo-lhes de novo um crédito para as adquirir.Recebido o crédito, nem a SLN nem alguma das ‘’offshore’’ pagaram as pinturas que adquiriram, deram de novo as obras de garantia ao BPN. E já lá vão duas compras da colecção Miró por parte do BPN.

Não contente, o BPN ainda pagou quarenta milhões de Euros a quatro administradores das ‘’offshore’’ da SLN por venderem as pinturas de novo ao BPN. E gastou mais trinta milhões na conservação e manutenção das obras, que tudo leva a crer nunca saíram do Japão e viajaram agora do Japão para Londres.

 E já lá vão três compras.”….

* Título de um dos textos de Manuel de Castro Nunes (que não conheço)

Comments


  1. Obrigado pela vossa atenção.
    E as minhas felicitações pelo vosso trabalho e diligência quotidianos.


  2. É notável a coragem do Manuel de Castro Nunes que contra tudo e todos continua a tornar público os meandros do caso BPN por corredores diferentes. Incomoda? Claro, e muito. Para quem ainda não percebeu, a abertura do seu blog e a exposição do caso motivou que fosse constituído arguido. Mas ele continua.

  3. Vitor Afonso says:

    O autor exprime-se muito bem e tem desmontado muitas das manhas destes incompetentes e impunes policias e magistrados hávidos de proeminência mediática, E digo-o por conhecimento de causa de processos semelhantes em que fui implicado. Incomoda de tal forma que cada vez que tento aceder aos seus sites ou blogues o computador bloqueia. Embora não partilhando integralmente de algumas das teses do autor, no que diz respeito á autenticidade da coleccão vendida, acredito sem qualquer dúvida que o professor Castro Nunes é sincero quando diz que as pecas são antigas. Quanto á “coleccão” dos Mirós tudo o que tem dito está bem documentado, e eu até acrescento que segundo o que tenho apurado parte das obras senão a sua maioria é forjada. Aguardo com muita curiosidade o desenvolver desta farsa judiciária, e gostava de estar no julgamento para a presenciar.

  4. Boris Salvado says:

    Sim o homem escreve muito bem, mas enreda-se em complexo labirinto. Vejam (?).

    http://museologiaporto.ning.com/forum/topics/depoimento-sumario-bpn

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