Evolução em acção

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O triunfo dos porclobos. É a evolução em acção.

Câmara de Torres Vedras corta despesas com transportes escolares

Câmara de Torres Vedras corta despesas com transportes escolares

A Câmara de Torres Vedras vai deixar de pagar no próximo ano lectivos os transportes aos alunos que frequentem a escolaridade obrigatória e que residam a menos de quatro quilómetros da escola.

A “poupança” anunciada pela Câmara será de 0,29% do total orçamentado para o ano em curso. Pôr crianças de seis anos a andar a pé cerca de quatro quilómetros, para poupar zero vírgula vinte e nove por cento!

É gente assim que dá muito mau nome ao partido dito socialista.

Carlos de Sá

A máquina do tempo: vitória do Grande Irmão e triunfo dos porcos (da distopia ficcional ao lixo televisivo)

A expressão «Grande Irmão», «Big Brother», apareceu no romance distópico de George Orwell «1984». O palavrão «distópico», significa o inverso de «utópico» (peço desculpa a quem sabia).  Publicado em 1949, aludia ao perigo de um regime totalitário ao serviço de uma oligarquia assumir o controlo de uma vasta região do planeta. George Orwell foi o pseudónimo do escritor britânico Eric Arthur Blair (1903-1950). A inspiração, tê-la-á ido buscar às ditaduras que soçobraram com a II Guerra, a alemã e a italiana, e a outra que lhe sobreviveu – a estalinista. Orwell não era um homem de direita. Ligado ao POUM – Partido Obrero de Unificación Marxista, movimento trotskista – combateu em Espanha, em Huesca, na Frente de Aragão, contra as tropas fascistas de Franco e foi ferido. Baseado nessa experiência, escreveu «Homenagem à Catalunha» («Homage to Catalonia», 1938).

 

Além destes dois livros, Orwell escreveu outros, nomeadamente «Animal Farm» (1945), uma clara sátira ao estalinismo que na edição portuguesa recebeu o título de «O Triunfo dos Porcos». É deste livro a célebre frase «todos os animais são iguais; mas alguns são mais iguais do que outros».

 

 

 

 

«Nineteen Eighty-Four» relata a história de Wiston Smith, que, aliás, é o narrador, cidadão anónimo de um estado totalitário, onde se pratica a repressão a todos os níveis. Smith trabalha na propaganda do estado, na falsificação dos documentos históricos – incluindo os jornais – à medida das conveniências, a história é diariamente emendada – tudo o que no passado contraria o presente, é refeito. Pessoas que caem em desgraça são suprimidas da história, para os «heróis» da altura, criam-se currículos gloriosos, fotografias são manipuladas – só existe uma verdade, a verdade do «Grande Irmão».

 

Como os jornais e os livros só podem ser consultados na teletela (monitores de função dupla que mostram e captam imagens), os cidadãos sabem que a «verdade» é o que, no momento, a teletela lhes afirmar. Ao mesmo tempo, as teletelas que existem por todo o lado, no trabalho, nas ruas, nas casas, vigiam todos os gestos dos cidadãos.

 

O «Grande Irmão», rosto fictício do regime oligárquico, aparece frequentemente a dar as suas directivas: «guerra é paz», «ignorância é força», «liberdade é escravidão», são algumas dessas consignas. Ao denunciar o perigo dos totalitarismos, o livro é também uma história de amor. De luta do amor contra a tirania, no espírito de poemas que aqui já recordei – «Notícias do bloqueio», de Egito Gonçalves, e «A Invenção do amor», de Daniel Filipe.

 

Socialista democrático, Orwell esclareceu que o romance não foi, como se disse na Inglaterra daqueles anos do pós-guerra) concebido como um ataque ao socialismo ou ao Partido Trabalhista, mas sim como uma denúncia das perversões dos ideais colectivistas, das políticas de massas, como o fascismo e o estalinismo. Significativamente, o livro foi proibido na União Soviética e nos outros estados de Leste.

 

Como é que um livro tão belo e de uma concepção tão elevada aparece ligado a um programa de televisão de nível tão rasteiro, a um reality show tão grosseiro como o «Big Brother»? O holandês John de Moll, pegando na expressão e na ideia básica de um olho omnipresente que tudo vigia e controla, concebeu o programa. Midas tudo o que tocava se convertia em ouro. O capitalismo, tudo o que toca, transforma-se em excremento. O negócio não respeita nada a não ser a percentagem de lucro que vai obter.

 

Já aqui tenho falado da profecia de Marlon Brando que, numa das suas últimas entrevistas, falando dos reality shows, dizia que não faltava muito para que as pessoas viessem defecar diante das câmaras para incrementar as audiências. E, já agora deitemos uma olhadela à «casa» do «Grande Fratello». Um concorrente ameaça cumprir a profecia de Marlon Brando, defecando à vista das câmaras, é eloquente quanto ao elevado nível cultural do programa. Reparem no vídeo sobre o «Grande Fratello» italiano:

 

 

 

 

«Mauro agride Verónica» (…) «Noite de violência no Grande Fratello. E, seguramente, uma expulsão em perspectiva» (…) «Esta noite na Casa verificaram-se episódios totalmente incorrectos e contrários às normas, não só do Grande Fratello, como também da convivência social». São notícias de jornais italianos da semana passada. Lembram-se da agressão do Marco à Sónia? Não que eu tenha a mania das teorias da conspiração, mas não é curioso que em Itália, anos depois se passe exactamente o mesmo que em Portugal? No «Gran Hermano», aqui ao lado, também houve bronca a semana passada. Vejamos o vídeo do «Gran Hermano» da Telecinco espanhola:

 

Dizem os jornais: «Expulsa outra concorrente do «Gran Hermano» após uma zaragata com uma companheira: Indhira não controlou os seus impulsos e agrediu e insultou Carol».(…)«Pela segunda vez esta edição, um concorrente de «Gran Hermano» foi expulso de modo disciplinar após forte zaragata com um dos seus companheiros. Neste caso, foi a malaguenha Indhira que não pôde controlar os seus impulsos durante uma discussão com Carol, acabou por a agredir e insultar».

 

Anuncia-se uma nova série do «Big Brother» em Portugal. O modelo parecia esgotado, mas os crânios da TVI vão tentar insuflar-lhe nova vida. Porque, mundo fora, a droga holandesa da Endemol, vai vingando. Para os que acham que somos particularmente estúpidos e se autoflagelam com acusações aos portugueses, deixo mais um exemplo. Espreitemos o «Big Brother brasile
ir
o. O nível cultural dos participantes não fica nada a dever ao dos programas europeus. 

 

E, já agora, recordemos este momento de ouro da televisão nacional – o pontapé de Marco a Sónia:

 

Há aqui um padrão que se repete. Será que, pessoas de nível cultural básico, tal como os ratos de laboratório, quando enjauladas começam a ter um comportamento agressivo? Ou será que faz parte do guião do programa apimentá-lo com estas cenas deploráveis que, nesse caso, seriam preparadas? Seja como for, no meio de tanta porcaria, esse pormenor desonesto seria irrelevante. A questão que levanto é: por que razão gostam as pessoas de ver estas coisas?

 

Em 1984, o mundo não estava dominado por uma oligarquia como a que George Orwell previa na sua distopia ficcional. Porém 25 anos depois de 1984, temos uma oligarquia que se permite difundir à escala global uma cultura de destruição da cultura, de abolição do respeito que as pessoas a si próprias devem. Porque, derrubadas essas defesas, as pessoas ficam à mercê das diferentes formas de marketing que constituem uma arma mais poderosa do que cem bombas nucleares.

 

Mussolini, Hitler, Estaline, Franco. Salazar, Pinochet, não compreenderam a natureza humana. Acreditando na sua decência, criaram, para destruir pelo terror uma decência que podia ter sido aniquilada de forma menos traumática. Para quê aqueles horríveis aparelhos repressivos com tão mau aspecto – cárceres, torturas, campos de concentração…

 

Para quê um regime fascista, se cada ser humano, devidamente estimulado, destrói voluntariamente as defesas imunitárias do decoro e do auto-respeito? Se por dinheiro, tudo se faz? Para quê tropas na rua, polícias espiando, se a maioria das pessoas está disposta a destruir os princípios básicos da cidadania e a descer ao grau mais básico da escala comportamental. A troco de uns euros ou de uns dólares, séculos de civilização desaparecem. Sem violência visível, sem gastar dinheiro num aparelho policial e repressivo, o Grande Irmão triunfou.

 

É também o triunfo dos porcos.