religião, confissão do medo-II parte

La Pietá, Michelangelo Buonorroti, 1494

2.- Confissão do medo. IIª parte

Duvidei. Duvidei e volto a duvidar. Não da divindade[1], mas sobre se uma qualquer Confissão é de medo ou do medo. Caso escolha a primeira opção, não tenho outra alternativa que desorientar o leitor de que os seus sentimentos de fé ou Confissões foram organizados para assustar os seres humanos da sua divindade. Se escolher a segunda alternativa, é-me possível explicar o que tenho observado em trabalho de campo. Um dia, um rapaz sem trabalho, deslocou-se ao centro de emprego para se inscrever na lista dos sem trabalho. Acendeu uma vela. Como faria um antropólogo qualquer, perguntei porquê. Respondeu de imediato: para pedir pelas almas dos meus defuntos Bem sabia eu que não era assim, era pelo medo que tinha de não obter uma resposta positiva. A anima rogada era ele próprio e seu medo do insucesso. Foi e voltou sem nada, endereçou-se à vela e disse com raiva: vela maldita que nada fizeste por mim, e apagou-a. Lá foram os seus defuntos e as suas almas rogadas! Queria cobrar ânimo, valor. [Read more…]

O bater das asas da borboleta

“O bater de asas de uma borboleta em Pequim pode gerar um tufão no outro lado do mundo”. Mais palavra, menos palavra, esta é uma das premissas da Teoria do Caos, a qual estipula que fenómenos dinâmicos não padronizados podem gerar efeitos muito aumentados, não previsíveis e não expectáveis.

Aplicada a fenómenos da física e da matemática, a teoria do caos pode igualmente ser interpretada no plano das relações humanas. Utilizando ainda linguagem para-científica, a uma causa sucede uma consequência, a qual pode ser causa de outra consequência e assim sucessivamente. A questão, o seu busílis, está na previsibilidade da consequência, e  aqui, no campo das relações humanas, a ciência deixa de o ser pela absoluta irrepetibilidade das condições da experiência, logo da consequência.

Não é avisado desprezar que podemos estar a viver tempos, em termos de civilização humana, de aparente novo paradigma, ou até mesmo, e apenas o tempo futuro o dirá, de mudança de matriz civilizacional. No estado actual das coisas, entre centenas de sinais contraditórios, as religiões reganharam uma força há poucas décadas insuspeita – um exemplo de sinal contraditório é que, se em alguns lugares do mundo é mais fácil, hoje, um indivíduo assumir-se como ateu (negar a existência de Deus), noutros a mesma assumpção tornou-se muito mais perigosa e geradora de condenação à  morte.

Um grupúsculo fundamentalista cristão, sedeado numa ignorada aldeola americana, pretende queimar o Corão no próximo dia 11 de Setembro. [Read more…]

Proibição do véu integral em França

“A defesa patrimonial da laicidade é levantada pelos gauleses contra as mudanças culturais. Mas é difícil lutar contra essas mudanças quando trazidas pelos próprios franceses. Já não podemos brincar ao nós e eles quando são francesas convertidas ao Islão a usar o niqab”.

Muito se tem falado em relação á presença Islâmica na Europa, sobretudo em França, sobre o facto de os imigrantes tentarem impor os seus costumes enquanto estrangeiros mal agradecidos á sociedade ocidental, a qual os acolheu benevolentemente.

Vou-me centrar em França, país onde o debate está na ordem do dia e que personifica a meu ver a contradição ocidental entre tolerância e xenofobia.

Em primeiro lugar convém lembrar que a população de origem magrebina existente em França resulta do facto de os franceses terem colonizado os seus países durante décadas, concedendo posteriormente a esses povos o direito de viverem e trabalharem em França.

Em França, onde fazem o trabalho sujo que os franceses não querem fazer e onde pagam os seus impostos, que contribuem para pagar as reformas dos franceses.

Hoje em dia os franceses de origem magrebina são aproximadamente 5.000.000 de pessoas, quase 10% dos 65.000.000 de franceses, cidadãos de pleno direito desse país e maioritariamente muçulmanos.

Algumas das mulheres que professam a religião muçulmana, cerca de 2.000, usam o niqab, um véu que esconde a face, associado ao hijab ou ao xador, que lhes cobrem a cabeça e o pescoço.

Essas 2.000 mulheres representam cerca de 0,003% da população de França e 0,08% do total de mulheres muçulmanas francesas.

É deste “problema” que estamos a falar, ainda por cima com uma nuance _ a grande maioria dessas mulheres são jovens de origem magrebina nascidas em França ou francesas convertidas ao Islão.

Segundo as estatísticas existem cerca de 60.000 franceses convertidos ao Islão, a maioria dos quais mulheres, número que aumenta anualmente em cerca de 3.600 cidadãos.

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