O bater das asas da borboleta

“O bater de asas de uma borboleta em Pequim pode gerar um tufão no outro lado do mundo”. Mais palavra, menos palavra, esta é uma das premissas da Teoria do Caos, a qual estipula que fenómenos dinâmicos não padronizados podem gerar efeitos muito aumentados, não previsíveis e não expectáveis.

Aplicada a fenómenos da física e da matemática, a teoria do caos pode igualmente ser interpretada no plano das relações humanas. Utilizando ainda linguagem para-científica, a uma causa sucede uma consequência, a qual pode ser causa de outra consequência e assim sucessivamente. A questão, o seu busílis, está na previsibilidade da consequência, e  aqui, no campo das relações humanas, a ciência deixa de o ser pela absoluta irrepetibilidade das condições da experiência, logo da consequência.

Não é avisado desprezar que podemos estar a viver tempos, em termos de civilização humana, de aparente novo paradigma, ou até mesmo, e apenas o tempo futuro o dirá, de mudança de matriz civilizacional. No estado actual das coisas, entre centenas de sinais contraditórios, as religiões reganharam uma força há poucas décadas insuspeita – um exemplo de sinal contraditório é que, se em alguns lugares do mundo é mais fácil, hoje, um indivíduo assumir-se como ateu (negar a existência de Deus), noutros a mesma assumpção tornou-se muito mais perigosa e geradora de condenação à  morte.

Um grupúsculo fundamentalista cristão, sedeado numa ignorada aldeola americana, pretende queimar o Corão no próximo dia 11 de Setembro. Dizem eles, por linhas tortas, que se trata de uma consequência do ataque às Torres Gémeas. Ora, a verdade é que o ataque às Torres Gémeas desencadeou inúmeras consequências noutros lados do mundo – o Iraque, o Afeganistão, o aumento dos radicalismos, muitos milhares de mortos em guerras e atentados, a progressão do racismo e da intolerância, o reforço dos poderes religiosos, o securitarismo e a sequente restrição de liberdades individuais e, finalmente, o aumento das pulsões nacionalistas, énicas e de credo. Tudo isto (não pretendo agora deter-me nas motivações que estão por detrás e por detrás do detrás, etc.) provocado pelo bater de asas da borboleta Bin Laden e seus sequazes.

Agora outra borboleta – o tal grupúsculo fundamentalista cristão – aspira a ser causa de consequências que ultrapassarão o previsível e que não me atrevo aqui a especular. Aparentemente basta uma borboleta, em Pequim, numa pradaria americana ou em Alguidares de Baixo, para provocar um tufão do outro lado do mundo. É fácil, é barato, e existem forças, grupos e interesses dispostos a, à boleia do actual “mediatismo imediato”, explorar as borboletas que por aí voam. O problema é que um tufão do outro lado do mundo pode ser causa de um ciclone do lado de cá, que pode ter novas consequências do lado de lá, que  podem ser causa de etc., etc., etc.

Comments

  1. carlos fonseca says:

    Melhor era impossível. Pedagógico para distraídos e, em especial, para os presunçosos do saber absoluto. Se é que estes últimos, estão interessados em acrescentar alguma coisa ao pouco, muito pouco que sabem.


  2. Queimar bíblias era tão mais divertido! E inofensivo, também.

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  1. […] “nova inquisição” fundamentalista cristã, após uma farsa sem pés nem cabeça que decorreu de um simulacro […]

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