Canções históricas

 

(e também por ocasião da Páscoa)

2 – Bella Ciao

È questo il fiore del partigiano
O bella ciao, bella ciao, bella ciao ciao ciao
È questo il fiore del partigiano
Morto per la libertà

Em tempo de berreiro…


Uma oportuna crónica, para ler aqui:
“Bombacci foi líder do Partido Socialista Italiano com Mussolini e, depois, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano. Após a Marcha sobre Roma, com o consenso mussoliniano com o velho liberalismo, a Igreja e a Monarquia, Bombacci manteve-se fora. Com a ruptura do consenso, com a derrota militar e a criação da República de Salò- um Estado fantoche manipulado pelos alemães – deu-se aos “velhos fascistas” poder para reeditarem as premissas do movimento. Não podendo governar (os alemães não o deixavam), empenharam-se na “purificação” do fascismo. E o que nasceu desse esforço ? Republicanismo, defesa das nacionalizações, formulação de uma teoria de co-gestão empresarial, sindicalismo revolucionário, anti-catolicismo militante.
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A máquina do tempo: serões da província

Estava a melhorar da minha cleptomania. Não sei se têm reparado que já há muitos textos que não surripiava nenhum título. Mas porque um blogger não é de pau e o Júlio Dinis estava mesmo a pedi-las, tive uma recidiva. Assim, como habitualmente, sem que o conteúdo tenha a ver com o título do romance aqui estão estes «serões da província» que de bucólicos e de românticos pouco tinham. (e daí…). Bem, como agora se diz, então é assim:

Há quarenta anos estava-se no auge da luta antifascista. Salazar caíra da cadeira, Caetano prometera democratizar, mas tudo continuou na mesma – guerra colonial, polícia política, censura, partido único… ditadura, para tudo dizer numa palavra. Mudou os nomes às coisas, mas tudo ficou na mesma.

Uma boa parte da população conspirava, sobretudo nas camadas mais esclarecidas da pequena-burguesia – professores, profissionais liberais, oficiais do exército (geralmente de patente não superior a capitão), pequenos empresários, estudantes… E, sobretudo nas pequenas cidades, conspirava-se. Como? [Read more…]

Poemas com história: Reunião conspirativa

Este poema foi escrito em 1968. Inspirei-me numa reunião em casa de antifascistas abastados de uma cidade de província no Outono daquele annus horribilis do capitalismo internacional e da ditadura portuguesa – com a onda de choque do Maio parisiense a atingir as universidades, com Salazar a cair da cadeira, com a agudização da Guerra Colonial, sobretudo na Guiné. A repressão aumentava, mas a esperança dos antifascistas também. A forma de exprimir essa esperança assumia, por vezes, aspectos caricatos, como os que refiro no poema. A «unidade antifascista» obrigava, porém, a pactuar com este tipo de «resistência», onde havia mistos de reunião conspirativa, cocktail e vernissage. Com outros dois companheiros, percorremos algumas centenas de quilómetros para assistir a uma suposta reunião política e deparou-se-nos um agradável e acolhedor, mas politicamente inócuo, convívio social  entre a burguesia bem pensante da pequena cidade. Nessa altura, por bem pensante já se entendia ser democrata e antifascista. Apenas se salvou a recolha de fundos a que procedemos (o uísque também não era nada mau). O poema com que reagi a esta realidade só foi publicado, no meu livro O Cárcere e o Prado Luminoso, mais de vinte anos depois de ser escrito. Diz assim:

 

Reunião conspirativa

Uma memória dos anos sessenta

 

Chez revolucionário de lareira,

cada coisa está no seu lugar:

Lenine na estante,

uísque na garrafeira.

Nas paredes é uma festa:

Mondrian, Utrillo e Leonardo

(em boas molduras de aço anodizado),

submetem-se ao poster;

«Che» preside,

com os cabelos ao vento da Baía e a boina guerrilheira. (1)

Cá em baixo,

ao nível da alcatifa,

o Zeca chora a morte da ceifeira.

Come-se aperitivos de importação

e (presença da cultura popular)

pastéis de bacalhau.

Entre um cigarro americano

e uma (oportuna) citação

do presidente Mao,

a anfitriã cala o Zeca

e liga a televisão.

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(1)     – O muito divulgado poster com o retrato de Ernesto «Che» Guevara, depois também estampado em T-shirts, pensava-se na altura que era uma fotografia tirada quando foi repelida a invasão da Baía dos Porcos, organizada pela CIA. Soube-se depois que fora feita em 5 de Março de 1960 pelo grande fotógrafo cubano Alberto Korda, quando uma sabotagem fez explodir um barco em Havana.