A máquina do tempo: serões da província

Estava a melhorar da minha cleptomania. Não sei se têm reparado que já há muitos textos que não surripiava nenhum título. Mas porque um blogger não é de pau e o Júlio Dinis estava mesmo a pedi-las, tive uma recidiva. Assim, como habitualmente, sem que o conteúdo tenha a ver com o título do romance aqui estão estes «serões da província» que de bucólicos e de românticos pouco tinham. (e daí…). Bem, como agora se diz, então é assim:

Há quarenta anos estava-se no auge da luta antifascista. Salazar caíra da cadeira, Caetano prometera democratizar, mas tudo continuou na mesma – guerra colonial, polícia política, censura, partido único… ditadura, para tudo dizer numa palavra. Mudou os nomes às coisas, mas tudo ficou na mesma.

Uma boa parte da população conspirava, sobretudo nas camadas mais esclarecidas da pequena-burguesia – professores, profissionais liberais, oficiais do exército (geralmente de patente não superior a capitão), pequenos empresários, estudantes… E, sobretudo nas pequenas cidades, conspirava-se. Como?

Não falando dos militantes do Partido Comunista que estavam enquadrados por elementos ligados a estruturas regionais ou sectoriais, os chamados «controleiros» e que reuniam em obediência a regras de segurança, próprias do funcionamento de um partido (casas clandestinas, casas de apoio, pseudónimos, regras estritas do funcionamento das reuniões, etc.), a chamada gente da «oposição democrática», não observava essas regras de segurança. Uma reunião tinha, por vezes, sobretudo nas pequenas cidades, o ar de um serão cultural.

A Oposição Democrática só fazia reuniões formais em período de eleições. Passados esses períodos, grupos de amigos continuavam a reunir-se, muitas vezes sem que essas reuniões tivessem outro objectivo que não fosse o de manter acesa a chama da resistência. De uma forma geral, era gente que não estava organizada em partidos, embora por vezes aparecesse um ou outro «pescador» tentando cooptar elementos. O PC fazia isso, as outras organizações mais pequenas também. Os resultados não eram muito bons.

A «conspiração» desta gente resumia-se a fazer serões culturais. Um projector de 8mm, uma cópia do «Aniki Bobó» ou do «Couraçado Potemkin», discos com canções do Yves Montand, do Jean Ferrat, do Brel, do José Afonso, do Fanhais, do Luís Cília ou da María Casares; bobinas com as declarações de Havana, do Fidel Castro, ou com canções da Guerra Civil espanhola…

Coisas assim, acompanhadas por brande (o uísque não era tão barato como é hoje e quando aparecia era uma festa), chá, café, uns bolos caseiros feitos pela anfitriã… E assim se reuniam vinte, trinta pessoas. Era, mais ou menos, uma vez por semana – a noite de sexta-feira era a preferida. Chamar a isto resistência parecerá excessivo se não tivermos em conta o contexto político.

Era sobretudo uma maneira de resistir à ofensiva cultural do Estado Novo que, sentindo a morte aproximar-se, apertava as suas malhas. E a cultura não fugia a essa ofensiva. Na música era o «nacional-cançonetismo», expressão inventada, salvo erro, pelo Mário Castrim, com o Calvário, a Madalena Iglésias, o Artur Garcia, e a Simone (a mesma Simone que, depois de Abril, se auto-reciclou, aparecendo como cantora de protesto).

A televisão, apenas com dois canais públicos, a Emissora Nacional e outras estações de rádio controladas pela ditadura, os jornais e as editoras, apertados pela censura e depois pelo exame prévio… Enfim, um aro de ferro apertado em torno das cabeças. Os serões da província eram uma forma de cultura alternativa. As pessoas abriam janelas para outros conteúdos culturais. Não terá sido por acaso que as mentalidades se abriram à Revolução de forma tão espontânea. Os serões tiveram o seu papel nessa abertura (gosto de acreditar nisso).

Ia-se mudando de casa, para não dar muito nas vistas. Mesmo assim, havia quem denunciasse, geralmente por carta anónima, que na casa de fulano havia reuniões estranhas. Lembro-me de uma reunião, essa mesmo conspirativa, numa cidade minhota onde no fim cantámos os «parabéns a você» para simular uma festa de aniversário. Era muita gente, vinda de vários pontos do país, muitos carros estacionados numa rua de pouco movimento. Enfim dava nas vistas e aquela foi a saída.

Este cenário que estou a descrever era mais frequente nas pequenas cidades. Mas assisti a muitas reuniões deste tipo político–gastronómico–cultural, no Porto e em Lisboa. Prova, se fosse preciso prová-lo, de que todo o País continuava (e continua) a ser provinciano.

Segue-se uma série de vídeos com algumas das audições recorrentes nas tais reuniões. Por exemplo, esta canção de Jean Ferrat era muito escutada, «Nuit et brouillard», tradução de «Nacht und Nebel», noite e nevoeiro, nome dado pelos nazis à operação de deportação de prisioneiros para os campos de extermínio. Noite e nevoeiro, porque queriam que sobre o crime caísse uma noite que o tornasse invisível e um nevoeiro que o fizesse esquecer. Em 1956. Alain Resnais realizou um filme com este título. Ouçamos Ferrat:

Outra presença certa nos serões era «Ay Carmela», um canto da Guerra Civil de Espanha. Todos cantávamos em coro, com o anfitrião a pedir para não fazermos muito barulho por causa da vizinhança – El ejercito del Ebro, rumba, la rumba, la rumba la…

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Yves Montand e o seu «Chant de la liberation», que se converteu durante a ocupação em hino da Resistência, nunca faltava às nossas reuniões:

E o Zeca, como podíamos passar sem o Zeca?

Cuba era uma referência, um farol. Quantas vezes ouvimos Fidel e as suas emocionadas e emocionantes declarações de Havana. Para meados da década, começámos a perceber que Fidel se rendia a um pragmatismo que o obrigava a fugir do imperialismo americano, lançando-se nos braços do imperialismo soviético. Guevara era a voz pura da Revolução de 26 de Julho:

O «Couraçado Potemkin», cujas cópias conseguíamos comprar em Paris ou em Londres, animavam muitas das nossas reuniões. Realizado por Sergei Eisenstein em 1925, provinha de uma União Soviética ainda não totalmente estalinizada. Era peça de êxito assegurado, com palmas no final. Se não viram e dispõem de algum tempo, não percam este filme que constitui um elo imperdível da história da cinematografia mundial.

Por vezes, ouvia-se as emissões da Rádio Portugal Livre, a partir de Praga e ligada ao Partido Comunista; e a voz declamatória de Manuel Alegre, o locutor da Rádio Voz da Liberdade, emitida de Argel.

Quando as reuniões, os serões da província, acabavam, os «conspiradores» iam saindo em pequenos grupos. As casas ficavam desarrumadas. O casal anfitrião, enquanto levava copos e pratos para a cozinha, repunha cadeiras no lugar, comentava entre si: «Não correu mal, pois não?»

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