O fato da ata

einstein malk

© Arthur Sasse/ AFP (http://bit.ly/1nr6nXc)/© Sandro Miller courtesy Catherine Edelman Gallery, Chicago (http://bit.ly/1C21BaE)

O Dario Silva decidiu trazer-nos o Guevara/Malkovich. Por razões óbvias, prefiro a do Einstein. Graças ao fotógrafo Sandro Miller, o Malkovich e o Einstein regressam ao Aventar, num dia sem grandes surpresas, no sítio do costume:

De tudo o que ocorrer nas reuniões será lavrada ata que contenha um resumo do que de essencial nela se tiver passado, indicando, designadamente, a hora, a data e o local da reunião, os membros presentes e ausentes, os assuntos apreciados, as decisões e deliberações tomadas e a forma e o resultado das respetivas votações, bem assim, o fato da ata ter sido lida e aprovada.

(…)

A Câmara Municipal de Porto Moniz em colaboração com a Escola Básica e Secundária do Porto Moniz, promoverá o apuramento de todos e quaisquer fatos que requeiram esclarecimento no ato de análise das candidaturas.

 

Che por Vhils


Trabalho de Alexandre Farto em colaboração com René Burri para #festivalImages. Via stick2target.

Fotografias imaginadas: Lennon e Che


John Lennon não esteve com Che Guevara

Estarias nas Astúrias, Che Guevara, não fosse uma espingarda americana

Não fosse o imperialismo americano o que é, e a defunta URRS tão ciosa de não ter concorrência ordenado ao subserviente Fidel um fim rápido mas tropical, talvez ainda estivesses entre nós. Mesmo que numa cadeira de rodas, sempre com vontade de estar entre os mineiros asturianos.

Com Paco Ibañez e Nicolas Guillen, e um obrigado ao Carlos Guimarães Pinto por me ter recordado que hoje Ernesto Che Guevara faria 84 anos.

Poemas com história: Reunião conspirativa

Este poema foi escrito em 1968. Inspirei-me numa reunião em casa de antifascistas abastados de uma cidade de província no Outono daquele annus horribilis do capitalismo internacional e da ditadura portuguesa – com a onda de choque do Maio parisiense a atingir as universidades, com Salazar a cair da cadeira, com a agudização da Guerra Colonial, sobretudo na Guiné. A repressão aumentava, mas a esperança dos antifascistas também. A forma de exprimir essa esperança assumia, por vezes, aspectos caricatos, como os que refiro no poema. A «unidade antifascista» obrigava, porém, a pactuar com este tipo de «resistência», onde havia mistos de reunião conspirativa, cocktail e vernissage. Com outros dois companheiros, percorremos algumas centenas de quilómetros para assistir a uma suposta reunião política e deparou-se-nos um agradável e acolhedor, mas politicamente inócuo, convívio social  entre a burguesia bem pensante da pequena cidade. Nessa altura, por bem pensante já se entendia ser democrata e antifascista. Apenas se salvou a recolha de fundos a que procedemos (o uísque também não era nada mau). O poema com que reagi a esta realidade só foi publicado, no meu livro O Cárcere e o Prado Luminoso, mais de vinte anos depois de ser escrito. Diz assim:

 

Reunião conspirativa

Uma memória dos anos sessenta

 

Chez revolucionário de lareira,

cada coisa está no seu lugar:

Lenine na estante,

uísque na garrafeira.

Nas paredes é uma festa:

Mondrian, Utrillo e Leonardo

(em boas molduras de aço anodizado),

submetem-se ao poster;

«Che» preside,

com os cabelos ao vento da Baía e a boina guerrilheira. (1)

Cá em baixo,

ao nível da alcatifa,

o Zeca chora a morte da ceifeira.

Come-se aperitivos de importação

e (presença da cultura popular)

pastéis de bacalhau.

Entre um cigarro americano

e uma (oportuna) citação

do presidente Mao,

a anfitriã cala o Zeca

e liga a televisão.

_________

(1)     – O muito divulgado poster com o retrato de Ernesto «Che» Guevara, depois também estampado em T-shirts, pensava-se na altura que era uma fotografia tirada quando foi repelida a invasão da Baía dos Porcos, organizada pela CIA. Soube-se depois que fora feita em 5 de Março de 1960 pelo grande fotógrafo cubano Alberto Korda, quando uma sabotagem fez explodir um barco em Havana.