Mimo ou solidão? Ensaio de etnopsicologia da Infância

mimo

…para o meu novo neto, Javier Isley, mi Weñe e o meu primo irmão Pablo… 

O mimo é uma adição. Sabe-se dele, pratica-se e sente-se que não se pode abandonar. O mimo apodera-se da pessoa e, o que não se diz en palavras, passa a ser gestos bem balançados, elegantes, esguios. Esta frase não é minha, é referida por Paul Curtis, director e fundador do American Mime Theater. O mimo é o que pensamos entregar às nossas crianças, como as define um dos meus Santos Padroeiros nestas temáticas, Wilfred Bion em 1966, no seu texto Learning from experience: todo o ser [Read more…]

O mundo da infância – I

troços do novo livro que escrevo

Tchaikovski Album for children

Parece um mundo feliz, especialmente se o bebé que nasce é resultado de uma grande paixão. As paixões têm a sua história pessoal e privada, como essa, que anos mais tarde, produziu o bebé deste ensaio. Paixões com cronologia, tempo e espaço que pertencem apenas aos que entram em amores mútuos.

Começava o ano académico ma Pontifícia Universidade de Valparaíso. Ele, tinha, por teimosia e contradizer à família, abandonado a casa paterna, a da cidade e a do fundo (fazenda em língua lusa), onde tinha as suas aborrecidas obrigações, que não gostava, como supervisor do trabalho dos jornaleiros, caseiros, orientar as malhas (trilla, en castelhano chileno), ofensa para ele, que vestia como os jovens da sua classe social, elegantes e bem-parecidos; com a cumplicidade da mãe embarcado num comboio para se transferir a cidade onde existia a licenciatura que lhe apetecia estudar: engenheria. O seu projecto ia fracassando. [Read more…]

pais e cônjuges

no dia das crianças, lembranças do casal Mama Esperanza e Hermínio

Normalmente, poder-se-ia pensar que ser pais e cônjuges é uma sequência normal. Pai ou mãe, marido e mulher, seria, então, uma continuidade dum processo natural. Cuidado pela lei. Considerado pelo grupo social. Escolhidos os cônjuges entre as várias pessoas duma mesma geração. Para fazer aliança. Uma aliança a dois que envolve as famílias de um e de outro. O desprendimento de um rebento duma árvore genealógica que entra como incerto na outra. E desse incerto, nascem mais rebentos, que alargam a organização dos seres humanos na instituição que designamos família. Entre nós, um homem e uma mulher, relação que denominamos monogamia; entre outros grupos sociais de outras culturas do mundo, um homem e várias mulheres, a que damos o nome de poliginia; ou ainda, uma mulher e vários homens, conhecida por poliandria. O nome dado à relação não é importante, o que interessa é dizer que a relação reprodutiva é necessária para fazer ainda mais rebentos. Criá-los, nutri-los, ensiná-los. Um grande trabalho. Trabalho reprodutivo, trabalho de fazer mais história, trabalho para trabalhar e ganhar o sustento. Trabalho reprodutivo legislado pelo Direito Canónico numa extensa região do mundo, pelo Direito Muçulmano noutra grande extensão de grupos sociais, pelo Direito do Karma entre os Budistas, pela lei civil do estado não religioso. Cônjuge, um de dois que morrem de paixão, um de dois que deseja, um de dois que se completam. Um de vários, quando há mais de dois conforme a lei e a crença, que toma a iniciativa de procriar, de fazer crianças. Um de dois que faz circula bens entre as duas árvores familiares. Como mandam os costumes do tempo. Como entre nós, manda a cultura judaica cristã do Oriente que entra assim no Ocidente, como o meu eterno mestre Jack Goody diz: uma obrigação permanente e eterna de cuidados entre esses um de dois. E vice-versa. Como manda a lei, como diz a cultura. Como o costume ancestral fica afincado em nós.

1. Serem cônjuges. [Read more…]

A conheci e nada pedi. Um poema

a mulher do meus sonhos

Entrei na sala de aulas. Era o meu dia de proferir uma lição. A lição da semana. Não olhei para sítio nenhum, conforme meu hábito, nem falei. Distraia-me. Distrair-se no começo da elocução, era um pecado. Um grave pecado. O meu dever era ensinar. Para ensinar, deve-se estar concentrado. Todos o sabiam e por isso não me falavam. Era sabido por todos que no meio da conferência, ia parar, calar e dizer, caramba, estava tão dentro dos meus pensamentos, que me esqueci de cumprimentar. Todos riam. Mas ninguém falava. Conhecido era que qualquer frase ia danar-me, perdia o fio da memória, esquecia a frase seguinte. A prova era dura. Era meu costume enviar as habituais seis páginas da temática que ia proferir, vários dias antes. Todos liam e sabiam do que eu ia tratar. Carregado de textos, enquanto falava, procurava citações em livros sinalizados por mim com pequenos colantes amarelos escritos com a ideia central para desenvolver ao longo de 45 minutos. Nenhum minuto mais, nenhum minuto menos. O título da aula era a minha hipótese, e os pequenos colantes que marcavam diversos sítios dos vários textos, as ideias substantivas para provar a central. Esses 45 minutos voavam como borboletas, com os meus olhos fixados em cada flor que ai estava. Olhava-as, mas não as vias. Bem sabiam as minhas borboletas que um pequeno sussurro delas, encurtava o meu pensamento e não ia saber como continuar. Cada dez minutos, contava uma anedota para aligeirar a lição e aliviar a forçada concentração a que as obrigava. Borboletas femininas, borboletas masculinas, de curta idade, à tarde e à noite, adultos que trabalhavam durante o dia e apareciam às 18.15 – a minha lição devia começar às 18, mas eu dava quinze minutos de tolerância, porque, em hora de ponta, as deslocações eram cumpridas e pesadas, porque um café para estarem acordados, porque um queque para entreter a fome. Porque a conversa de corredor era obrigatória. Porque milhares de motivos entretinham as minhas borboletas.

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