pais e cônjuges

no dia das crianças, lembranças do casal Mama Esperanza e Hermínio

Normalmente, poder-se-ia pensar que ser pais e cônjuges é uma sequência normal. Pai ou mãe, marido e mulher, seria, então, uma continuidade dum processo natural. Cuidado pela lei. Considerado pelo grupo social. Escolhidos os cônjuges entre as várias pessoas duma mesma geração. Para fazer aliança. Uma aliança a dois que envolve as famílias de um e de outro. O desprendimento de um rebento duma árvore genealógica que entra como incerto na outra. E desse incerto, nascem mais rebentos, que alargam a organização dos seres humanos na instituição que designamos família. Entre nós, um homem e uma mulher, relação que denominamos monogamia; entre outros grupos sociais de outras culturas do mundo, um homem e várias mulheres, a que damos o nome de poliginia; ou ainda, uma mulher e vários homens, conhecida por poliandria. O nome dado à relação não é importante, o que interessa é dizer que a relação reprodutiva é necessária para fazer ainda mais rebentos. Criá-los, nutri-los, ensiná-los. Um grande trabalho. Trabalho reprodutivo, trabalho de fazer mais história, trabalho para trabalhar e ganhar o sustento. Trabalho reprodutivo legislado pelo Direito Canónico numa extensa região do mundo, pelo Direito Muçulmano noutra grande extensão de grupos sociais, pelo Direito do Karma entre os Budistas, pela lei civil do estado não religioso. Cônjuge, um de dois que morrem de paixão, um de dois que deseja, um de dois que se completam. Um de vários, quando há mais de dois conforme a lei e a crença, que toma a iniciativa de procriar, de fazer crianças. Um de dois que faz circula bens entre as duas árvores familiares. Como mandam os costumes do tempo. Como entre nós, manda a cultura judaica cristã do Oriente que entra assim no Ocidente, como o meu eterno mestre Jack Goody diz: uma obrigação permanente e eterna de cuidados entre esses um de dois. E vice-versa. Como manda a lei, como diz a cultura. Como o costume ancestral fica afincado em nós.

1. Serem cônjuges.

Um de dois? Ou dois em um? Tenho enredado o leitor entre costumes de culturas de processo poligâmico, seja poliandrico – mulher com vários maridos -, ou poligínico, homem com várias esposas. Onde todas as mulheres são as mães das crianças, onde todos os homens são os pais da pequenada. E as suas famílias: irmãos do pai, macho ou fêmea, pai; irmão da mãe, macho ou fêmea, mãe. E nós? Pai é pai, mãe é mãe. Amor eterno como diz a lei e a paixão? Como manda o costume? Como é o hábito? Será? Será que o hábito de sermos pais eternamente ainda existe? Porque há divórcio e há adultério. Porque há separação e há inconstância. Inconstância durante o matrimónio. Dois em um? Como diz o mito! Como manda a ideia religiosa que governa a nossa forma de agir? Complemento de um para o outro? Cultivo da prole, que pertence aos pais. Aos cônjuges. Enquanto a criança cresce e deve ser cuidada. Os pais, ele e ela, andam atrás dessa criançada como seu objectivo principal na vida. Seja através do trabalho, seja directamente em casa. Nascida a criança, no seio de dois adultos, muda a missão dos cônjuges. Muda o objectivo do casal. Esses que eram, na nossa cultura Ocidental, apenas, um para o outro e vice-versa, passam a ser dois para um terceiro. Um terceiro que nasce da paixão e do desejo de paternidade ou maternidade que fica entre os indivíduos do casal. Emoção nova que aparece na pessoa sem a consciência do sentimento. As emoções nascem dentro de nós e são cultivadas pelo meio envolvente, orientadas pela forma de agir dos outros. Emoções que vão mudando de geração em geração, de constância em constância. Emoções que começam de um indivíduo para outro e vice-versa, até passarem a ser de dois para um terceiro. Terceiro que pode ser vários indivíduos no transcorrer do tempo. O casal avança porque a natureza manda. Manda por cima da racionalidade. A natureza diz que queremos outra pessoa connosco. Hoje em dia, seja homem para mulher, homem para homem, mulher para mulher. Com um ritual que costumava ser público e para a divindade. Ou civil, para o grupo. Casal que hoje cultiva o rito a partir da sua própria intenção de ser um grupo doméstico no meio dos outros, uma união de facto que está a tomar conta do carinho e do amor, que faz dessa união um rito permanente, seja qual for o tipo de casal organizado. A conjugalidade recebe um rebento e, ou faz como sempre foi feito, ou (re)inventa a  forma de relacionamento entre eles. No ninho da paixão, é introduzido um amor não escolhido, imbricado pelo carinho dos dois seres originais. Como o mito judaico cristão de Adão e Eva ensinara aos seus descendentes, a conjugalidade é o percurso a desaguar na progenitura: há, pois, que tomar conta da descendência. Este novo papel diminui a atenção ao vice-versa da relação conjugal, pelo que um deles se ressente, normalmente, da mulher, essa parte do casal que assume duas obrigações: ser autora da outra entidade a cuidar, ser mulher da outra parte que faz a criança, o marido.

Marido que, num país Mariano como os ocidentais católicos, tenta encontrar na mãe dos seus descendentes a sua própria mãe. Como tenho referido noutros textos, o homem produz e luta, mas procura o carinho de uma mulher destemida que trate dele. Enquanto ele trata dela com o carinho do salário, da habilitação profissional, do cuidado. Porque todo o país judaico cristão, é ao mesmo tempo, Mariano e Patriarcal: procura-se a mãe, mas manda o pai. É essa, no meu ver, a relação a dois no seu começo: uma mulher mãe que toma cuidado na vida privada, um homem pai que luta para a sua mulher, no domínio público. Uma paixão que alimenta o amor, um amor que passa a ser carinho depois de se acalmar a paixão. E passa a ser um amor de cuidados, de signos entendidos, de atalhos procurados. De silêncio e autonomia na construção da emotividade, no cuidado da mesma; parece que a mulher é mais calma e procura a paz, contrariamente ao homem que pode sentir raiva e quer mandar sempre. E não consegue. Quer desempenhar o seu papel patriarcal, enquanto a força mariana coexiste a par e passo da patriarcal. Nada melhor do que esta «bomba» para toda a relação conjugal estalar. Normalmente, como tenho observado no meu trabalho de campo, a bomba é o resultado da rebelião do par masculino. Porque aparece outra paixão que não envolve filhos e é bígama durante um tempo, ou é fonte de amantes, ao longo do tempo. Quando se percebe que a família é o elo central da vida conjugal. Elo central surpreendente para o par que quer ser o centro das atenções desta difícil maneira de amar. O matrimónio ou conjugalidade. Essa que inclui um terceiro de vários números: três, quatro, nenhum. Tenda de acolhimento dos extra numerários feitos ao calor da lareira do íntimo lar, esse que reside no metafórico coração e que perdura na medida de abstinência do adultério, do evitar do adultério, do cultivo do rito, da permissão para o outro agir conforme a sua individualidade manda e o outro passa a entender, aceitar e amar.

2. Serem pais.

Nem por isso, uma tarefa fácil. Bem pelo contrário. Ser pai/mãe implica ter filhos. Ser pai/mãe é a consequência da criançada que se faz. Criançada que começa a entender a vida de acordo com a forma como os pais a transfere para ela. Como os seus adultos entendem a vida. Como os seus adultos fazem progredir entre eles, a miudagem, a memória do social. Os costumes do social. Os costumes da ética. Uma ética nada igual e semelhante entre todos os membros de um mesmo grupo social. Admitimos sempre, entre nós, que há a ética do pobre (para quem a melhor força para optimizar os seus bens escassos é a manipulação do real) e a ética do rico (que acumula para criar lucro que lhe permita uma vida autónoma dentro da família). Distinção fundamental para entender a permanência do grupo doméstico ou a sua desorganização. Mais comum entre pobres a procura dum outro que ajude a juntar bens, menos comum entre ricos que, enquanto andam juntos, podem manter a sua maneira de viver estética e económica. O pobre não pode pagar o divórcio, o rico paga e volta a casar. O pobre leva o seu rebanho à casa do outro, o rico sai só e pactua as horas de visita para o que lá ficou sem os filhos. O pobre foge ou deita fora, o rico tem o requinte de fixar duas casas para a sua prole. Etcetera, etcetera. E as crianças?

Será que sofrem? Será que têm nostalgia? Será que amam como era o hábito? Porque a pequenada ficou habituada às formas de agir dos seus adultos. As formas de serem, aos atalhos afectivos. Às brincadeiras, aos hábitos do lar. A criança fica empatada. Fica parada. Não tem poder de opção, não tem força, nem percebe que esses dois que ama, essa união de emoções por ela percebida, passa a ser uma dualidade a qual ama de forma partida. Especialmente, quando entra outro ser dentro da casa do pai ou da mãe. Para a criança, os cônjuges não são namorados, são criadores da sua vida, são a emoção que educa, são a racionalidade que sabe confrontar a vida. São os espelhos do que a vida deve ser. Do que a vida é como ética, amor e costumes. Para a criança não há erotismo entre esses dois seres, há amor ou zanga entre os seus adultos. Unidade ou divisão. Acaba por entrar num jogo nunca feito por ela. A criança entrou num mundo que não conhecia, habitado pelos adultos e os seus parentes, e a páginas tantas do livro da sua vida, o seu adulto passa a ser mais uma pessoa na multidão. A criança recebe um adulto novo que nem é pai nem mãe, nem autoridade. Que faz fracassar a nova união se o adulto que entra não aprende a considerar a pessoa amada, como uma unidade com os seus descendente. Se o adulto que parte (só) não aprende que a sua descendência se deve ao ancestral, tal e qual como se estivesse dentro do antigo lar. Pai ou mãe à distância, mas pai e mãe apesar dos desentendimentos que a vida traz. A criança não entende a luta supra individual que trava o marianismo de um dos progenitores e o patriarcalismo do outro, nem a tomada de poder patriarcal de pessoa mariana, ou a necessidade de se marianisar por parte de quem sempre foi patriarca. Opções difíceis nesta batalha travada entre o marianismo e o patriarcalismo de uma cultura em constante mudança, como a nossa. Excepto se o adulto entende a fragilidade a que está sujeita a relação que começou por paixão e não consegue fazer dela amor. Um amor que pode levar ao carinho entre adultos. Quando não e há separação, o adulto tem a obrigação de entender que é, pelo menos, ainda progenitor. Situação difícil para o adulto, porque, entre nós, progenitor e cônjuge aparecem como entidade única. A cultura ocidental judaica cristã anda, actualmente, a tentar entender a possibilidade de se ser consequência e permanência. Consequência do contexto, permanência do íntimo. E a criança é resultado do íntimo dum casal. Porém, a vida continua unida e projectada se os cônjuges param a sua relação entre eles mas continuam a ser origem de outras vidas. Com mil artimanhas. Todas elas existem. O que não existe, é a unicidade do permanente par como modelo. Que se torna a repetir quando se faz uma outra união. Condenada ao fracasso por se adoptar o mesmo comportamento. A criança só entende se o adulto for capaz de guardar o compromisso assumido com ela. Porque ser cônjuge é a bola que dinamiza o facto e sentimento de se ser progenitor. Não há adulto que não tenha sido introduzido e catequizado nesta ideia. O futuro da criançada é muito mais importante que a felicidade das pessoas que já andaram a viver a vida. Que é natural ser poligâmico? Mas, e a cultura? E os hábitos? São culturalmente monogâmicos, com as tentações de olhar ao pé da vida em comum da família e se ser feliz um dia e pagar o preço da distância e infelicidade dos mais novos até ao fim da vida. Feita masculina para a mãe abandonada, feita feminina para o pai traído. Eis os elementos para um debate que já há algum tempo espero que aconteça. Ficam cá as ideias. A palavra final é a da História, sempre feita por nós. Porém, debate importante além das teorias, só na base dos sentimentos e das ideias do quotidiano, como fazia a Mama Esperanza com o seu Hermínio. Eis porque não recomendo nenhuma bibliografia. Vamos ler esta história no livro da vida quotidiana.

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