Mimo ou solidão? Ensaio de etnopsicologia da Infância

mimo

…para o meu novo neto, Javier Isley, mi Weñe e o meu primo irmão Pablo… 

O mimo é uma adição. Sabe-se dele, pratica-se e sente-se que não se pode abandonar. O mimo apodera-se da pessoa e, o que não se diz en palavras, passa a ser gestos bem balançados, elegantes, esguios. Esta frase não é minha, é referida por Paul Curtis, director e fundador do American Mime Theater. O mimo é o que pensamos entregar às nossas crianças, como as define um dos meus Santos Padroeiros nestas temáticas, Wilfred Bion em 1966, no seu texto Learning from experience: todo o ser

humano desde o terceiro mês da concepção até mais ou menos aos 5 anos e meio, entende que o mundo não é apenas dele, o mundo é partilhado, como já referi num livro e em alguns textos da Página. Ideia que aprende ao desenvolver o entendimento da existência da História e da interacção com outros seres humanos. Essa adição, é a procura de carinho, de emotividade, de palavras, de companhia, de simpatia, acrescentaríamos ao definidor do conceito, bem como na forma de nos aproximarmos das pessoas que mais amamos, com as que temos maior intimidade e procuramos, até em adultos, falar como crianças. Porque o mimo, não é apenas o de um ser de cinco anos, é também desse denominado adulto que vive e mora na concorrência, na competência, no acumular e no lucrar. Normalmente, a criança adulta procura a camaradagem, a amizade, o entendimento, o apoio e a compreensão. Adjectivos que a vida da mais valia não permite realizar entre a maior parte das pessoas. Muitos de nós, queremos mimo, procuramos ser mimados. Adoro entrar numa sala de aula e falar dos meus Padroeiros, sentar-me nas mesas dos meus discípulos, ser lembrado por eles, ser procurado e ser ouvido com atenção e carinho. Adoro que a minha Secretária aqueça o meu gabinete ou lhe ponha flores. Ou ainda, um telefonema de um antigo discípulo/a, um trocar de novas ideias, um minuto apenas para bater à minha porta e dizer: T’a bom?….Passou bem…? Andar pelo corredor enquanto falamos de crianças, das nossas, como é evidente.

O mimo apoderou-se de mim e dou-o aos meus em textos, em livros, em pesquisa, numa explicação do que as palavras da nossa cultura não permitem dizer. Sim, é verdade que a criança procura o mimo numa bolacha oferecida pelos pais, bem como é verdade que o mimo obriga o adulto a dizer: bolacha? Ainda não, só a seguir ao almoço, para não perderes o apetite: é tão pervertido o assuntos das bolachas, como comer rebuçados que ferem os dentes… O melhor mimo é a disciplina do corpo, a simpatia, o sorriso, não ameaçar nem punir, mas explicar o porquê. Brincar, acolher o pequeno corpo que soluça, abraçá-lo em silêncio e dizer as palavras adequadas à situação. Porque se o mais novo nos confidencia os seus problemas, não os devemos repetir a outros, pois ao sabê-lo, passariam de mimo a solidão. Se o pequeno ser aprende a desconfiar, vai crescer dentro da ideia da traição. O mimo afinal, é a companhia, o estar perto da pessoa, sem interferir todos os dias, apenas uma visita adequada e combinada, um convite, uma conversa. Especialmente se a outra pessoa foi um dia o nosso descendente e hoje já tem os seus. Porque os nossos, nunca foram nossos, foram apenas cuidados por nós durante um tempo. A casa, é já a deles, para aceitar, eventualmente, uma refeição. Factos que provam a existência do mimo e não a aborrecida solidão. Como acima referido, o mimo toma conta da situação, esse afazer social positivo, processo de ensino e disciplinador da interacção. Com o mimo nos sentimentos, nunca estamos sós e aprendemos a falar com confiança dentro das situações adequadas.

Mimar, é ser responsável pelo outro. Mimar, é nunca esquecer o outro e muito menos procurá-lo por interesse. Em suma, mimar é entender o outro sem compaixão mas com fraternidade solidária! Mimar, é nunca abandonar a quem queremos, procurando a sua companhia para nunca estar só. Essa solidão que mata o mimo e faz de nós palhaços, como a imagem do texto.

Mimar é companhia, amar, se entregar ao outro/a, ate o ponto de fazer de nós pessoas calmas e disfarçadas para divertir os que adoramos…como costumava fazer o meu primo Pablo, falecido esta semana, como fará o meu neto Weñe denominado Javier por todos os que não entregam carícias procuradas para se ser feliz.

Mimo é este texto para Pablo e mi Weñe e as suas famílias. Amor é mimo e essa ideia ninguém me tira nem me convence do contrário…

Comments

  1. Paulo Mendes says:

    Gostava de lhe deixar um mimo, Professor.
    Fui aluno do Curso de Antropologia do ISCTE, frequentei, em ano que já não recordo, a cadeira de Etnopsicologia da Infância. Aprendi muito e cresci.
    Senti-me mimado pelas suas aulas, nunca me senti só, nem senti que, ali, alguém se tivesse sentido dessa forma.
    Gosto e não resisto a citá-lo, para o mimar “(…)Em suma, mimar é entender o outro sem compaixão mas com fraternidade solidária! Mimar, é nunca abandonar a quem queremos, procurando a sua companhia para nunca estar só.”

    Bem haja, Raul.


  2. E…chega mais uma antiga aluna…que saudades das aulas tão diferentes, nascidas de dentro como espasmos partilhados do saber para o crescer. Obrigada Professor.

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