A análise e os conhecimentos que tenho sobre a independência da Catalunha, País Basco etc. permitem -me, quando muito, uma opinião, e não uma certeza sobre qual dos lados tem razão, e sobre o caminho a seguir. Isso, na realidade, é para quem lá vive, para quem sente de perto os problemas e para quem sabe verdadeiramente o que quer, e mesmo esses…muitas vezes contradizem-se. A quem está de fora, é difícil uma tomada de posição acertada. Mas todos temos direito à nossa forma de ver as coisas.
Quanto á opinião da Carla e do A. Pedro Correia de que a abolição das touradas na Catalunha não passa de uma manobra política para pôr de fora o último grande símbolo do Estado espanhol, não estou de acordo. Não quer dizer que não venha a jeito, mas tal maneira de interpretar só se torna redutora, ao fim e ao cabo, de uma luta e de um movimento de resistência tenaz, que está acima de mera finalidade política, contra o sofrimento inútil e bárbaro de um ser vivo, para deleite de uma assistência sadomasoquista. É um movimento com 25000 assinaturas, emque se empenham directamente 180000 cidadãos, e em que Parlamento catalão decidiu, por 68 votos a favor, 55 contra e 9 abstenções, que as corridas estão fora da lei na região. Ou melhor, estarão a partir de 1º de janeiro de 2012. Abandonadas até por aficionados da velha guarda, as touradas sobrevivem à custa de subsídios do governo, o que não seria mau se as touradas fossem, como entende a nossa pianista da cultura, um caminho cultural.
A criminalização da tourada não foi, portanto, ao contrário do que muitos espalham, um golpe parlamentar, uma jogada política eleitoreira, uma manobra nacionalista visando distinguir a Catalunha do resto da Espanha, mas a última faena de uma dura luta popular, democrática, histórica, seguindo os trâmites exigidos pela ordem jurídica, após amplo debate canalizado institucionalmente desde novembro de 2008, à luz de depoimentos de cidadãos os mais diversos, etólogos, filósofos, toureiros e defensores dos direitos dos animais.
Touradas
Touradas e Catalunha
Apesar deste meu poste, cujo conteúdo mantenho inteiramente, não quero passar por aquilo que não sou: um paladino quixotesco da actividade taurina. No entanto, esta reflexão da Carla Romualdo e a ligação que ela faz entre o meu texto e a recente proibição das touradas na Catalunha, trazem-me de novo à vaca fria ( já que regressar ao touro quente poderia ferir susceptibilidades).
A recente proibição das touradas na Catalunha, disfarçada, como e bem diz a Carla, de “preocupação com os direitos do animal”, mas que “não deve ser mais do que as ganas de pôr fora do território catalão o último grande símbolo do Estado espanhol” faz-me notar uma terrível, e para mim insanável, contradição: alguns dos argumentos que aplicam ao fim das touradas deveriam ser dirigidos à vontade independentista.
Entre outras razões, afirmam os proibicionistas ser anacrónico, nos tempos que correm, a manutenção das faenas. Ora, é precisamente isso que eu acho da independência da Catalunha – totalmente anacrónica nos tempos que correm. Não ponho, sequer, em causa que existem razões históricas para que esse sonho se manifeste e tivesse toda a razão de ser até há três ou quatro décadas. Concordo com a vontade autonómica, a revitalização da língua, a valorização de usos e costumes (de que, curiosamente, a tourada faz parte). Mas a independência da Catalunha, no actual quadro europeu e no futuro desenho federalista da europa, faz tanto sentido como a independência das Berlengas ainda que se lhes acrescentasse a Madeira, Porto Santo e as Selvagens. Ou seja, não faz sentido nenhum.
Tendo a Catalunha autonomia crescente e estando os estados europeus em fase de progressiva diluição de poderes, a criação de um estado independente na Catalunha não passaria de um ridículo espectáculo em que o touro catalão seria morto em plena arena ao fim uma vida brevíssima, que não justificaria, nem de longe, nem de perto, o bilhete que os aficionados pagariam pelo ingresso (não se cria um país para durar vinte ou trinta anos). [Read more…]
Viva a Catalunha

Manet, O Toureiro Morto
A Catalunha continua em grande. Depois de ter vencido o Campeonato do Mundo de Futebol, ainda que sob a imprópria bandeira do estado monárquico espanhol, acaba de proibir a barbárie taurina, juntando-se assim às Canárias na interdição desse espectáculo degradante de glorificação da morte.
Respiram de alívio os pobres toureiros, que já não levarão cornadas nas arenas catalãs.

Picasso, A Morte do Toureiro
Espero que Portugal, historicamente já andamos atrás da Catalunha pelo menos desde 1640, siga o exemplo.
Entretanto uma boa notícia para o Bloco de Esquerda: é só mais este mandato e perde a Câmara de Salvaterra de Magos, um alívio, portanto.
Dois tipos de mentalidade em confronto – ainda a propósito das touradas (Memória descritiva)
No Parlamento da Catalunha prossegue a discussão sobre a abolição das corridas de touros no território da comunidade catalã. Ontem as alegações e a intervenção de peritos nas diversas áreas envolvidas, foram quase todas no sentido da defesa da continuidade das touradas. Na sessão da manhã, depuseram, entre outros, Hervé Schiavetti, «maire» de Arles e presidente da União das Cidades Taurinas de França, e o filósofo Francis Wolff, professor da Sorbonne, e autor de uma “Filosofía de las corridas de toros”. Na sua intervenção, declarou que a corrida «já não é a festa nacional de Espanha, pois agora é património mundial».
De uma forma geral, as alegações basearam-se nas banalidades do costume, salientando-se no entanto, na intervenção de Schiavetti a chamada de atenção para a vertente económica do assunto: «Não se trata apenas de um elemento cultural, mas também de uma questão económica; hoje em dia criar touros e aquilo que a criação comporta, constitui um forma imprescindível da gestão do território». O que põe o dedo na ferida.
E lembrou que só em França a exploração que inclui a criação do touro, implica a manutenção de mais de 300 000 hectares de reservas húmidas. Um ganadeiro catalão voltou a chamar a atenção que se os deputados catalães aprovarem a lei, serão responsáveis pela extinção desta espécie animal. Vale tudo, não só os deslocados apelos aos princípios conservacionistas como até disparatadas comparações políticas, como a de um indivíduo de Tarragona, ligado ao negócio das touradas, que comparou a eventual abolição das touradas com a censura franquista. [Read more…]
A «tradição» das touradas (Memória descritiva)
No 2º volume dos « Cadernos de Lanzarote», José Saramago reproduz um artigo que publicou na revista Cambio 16. Transcrevo dois trechos:
«O touro entra na praça. Entra sempre, creio. Este veio em alegre correria, como se, vendo aberta uma porta para a luz, para o sol, acreditasse que o devolviam à liberdade. Animal tonto, ingénuo, ignorante também, inocência irremediável, não sabe que não sairá vivo deste anel infernal que aplaudirá, gritará, assobiará durante duas horas, sem descanso. O touro atravessa a correr a praça, olha os “tendidos” sem perceber o que acontece ali, volta para trás, interroga os ares, enfim arranca na direcção de um vulto que lhe acena com um capote, em dois segundos acha-se do outro lado, era uma ilusão, julgava investir contra algo sólido que merecia a sua força, e não era mais do que uma nuvem. Em verdade, que mundo vê o touro?» (…)
«O touro vai morrer. Dele se espera que tenha força suficiente, brandura, suavidade, para merecer o título de nobre. Que invista com lealdade, que obedeça ao jogo do matador, que renuncie à brutalidade, que saia da vida tão puro como nela entrou, tão puro como viveu, casto de espírito como o está de corpo, pois virgem irá morrer. Terei medo pelo toureiro quando ele se expuser sem defesa diante das armas da besta. Só mais tarde perceberei que o touro, a partir de um certo momento, embora continue vivo, já não existe, entrou num sonho que é só seu, entre a vida e a morte».
Quando José Saramago leu o texto a sua mulher, Pilar, disse – «Não podes compreender…” Tinha razão» diz o escritor»Não compreendo, não posso». É sempre o que os defensores das touradas, quando vêem que os seus «argumentos» não são aceites, dizem. Quem acha que as touradas são um espectáculo degradante e advoga a sua proibição imediata «não compreende». Porque, dão a entender, para compreender uma coisa tão poética, tão tradicional, é preciso ter uma sensibilidade especial. [Read more…]
A máquina do tempo: Bon colp de falç! – a Restauração portuguesa e a Catalunha (2)

(Texto de Carlos Loures e Josep Anton Vidal)
Depois de termos ouvido a versão oficial do hino nacional catalão, ouçamos agora a versão histórica, cantada por Rafael Subirachs no festival «As seis horas de Canet», em 1975. Foi três meses antes da morte de Franco, a ditadura estava moribunda, mas vigorava ainda. A ânsia de liberdade florescia por toda a parte. Subirachs cantou «Els segadors» enganando a censura. No final da sua interpretação a frase «Segueu arran!» ( «segai rente» ou «cortai pela raiz»), entre os gritos da multidão pedindo a liberdade. Este vídeo conserva toda a força e emoção desse momento histórico.
A máquina do tempo: Bon colp de falç! – a Restauração portuguesa e a Catalunha (1)

(Texto de Carlos Loures e Josep Anton Vidal)
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ando-se igualmente a aceitar exigências que colidiam com a legalidade catalã (Els Usatges). Voltou a fracassar a ofensiva de Olivares quando as Cortes foram reatadas em 1632. Nesta altura, Olivares recorreu a uma artimanha: tentou usar a legalidade catalã para a aniquilar: mercê do usatge “Princeps Namque”, era concedido ao conde de Barcelona (soberano do país), o direito de chamar às fileiras os súbditos em defesa do território. Porém as instituições catalãs mantinham a argumentação de que sendo essa potestade exclusivamente destinada à defesa do Principado da Catalunha, não era legítimo usar as forças assim constituídas para atacar outros territórios. Portanto, constituído um exército com recurso a essa lei, não podiam as tropas ser empregues noutro fim que não a defesa, nem podiam sair do território.







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