Carta de amor e de eutanásia

[Pata Negra]

Amélia,

Espero que esta carta te vá encontrar de saúde que por cá a guerra não deixa que te dê boas notícias.

Estranharás a falta da palavra “querida” antes do teu nome mas reconhecerás certamente a caligrafia. Sou o Janardo, o amigo a quem o teu Bernardo tem ditado todas as cartas de amor que tens recebido. Sei que também tu és uma analfabeta e peço, por isso, à interposta pessoa que faça guarda do que te vou contar e que, tal como eu sempre faço, tenha com este serviço uma fidelidade inabalável ao dito e ao lido e um voto de segredo tão sagrado como o dum padre confessor.

Bem sabes, das missivas passadas, como é a vida da tropa no inverno das trincheiras mas o Bernardo nunca te disse que, por vezes, as ânsias de sair da podridão são tantas que recebemos com alívio as ordens para uma missão de reconhecimento nas hostes ou mesmo para fazer um avanço com fogo sobre as suas linhas. No passado dia 10 de Fevereiro, eu, o Bernardo e mais dois camaradas partimos, destemidos, para uma dessas arriscadas incursões. Os boches atacaram-nos, os outros dois caíram que nem tordos, o Bernardo ficou desfeito e moribundo mas ainda com vida para me fazer um último pedido. [Read more…]

O problema do custo da diária na prisão

Diana Andringa

Anunciou o jornal Público que a Direcção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais pretende vir a afastar os directores das cadeias que não conseguirem reduzir a reincidência dos seus reclusos. De acordo com a época, as razões avançadas são contabilísticas. É que metade dos 14.500 reclusos portugueses voltam à cadeia e, segundo um responsável daquela direcção geral, cada um custa ao Estado 50 euros por dia: “O tratamento penitenciário é caro e, por isso, não nos podemos dar ao luxo de encarar a reincidência de ânimo leve”, explicou. Daí a decisão de avaliar os resultados e o perfil do director, sendo este responsabilizado e podendo ser afastado se nada mudar.

Há anos, numa intervenção no Centro de Estudos Judiciários, sugeri que todos aqueles que têm responsabilidades no sistema judicial – incluindo políticos e legisladores que respondem com aumento de penas aos medos sociais que, muitas vezes, incentivaram – deveriam passar algum tempo encerrados numa cela. Talvez isso lhes permitisse ver a prisão com outros olhos, bem diferentes do custo da diária. [Read more…]

Não é o fim nem o princípio do mundo

Passaram três meses e o Manuel António Pina já nos fez falta muitas vezes. Já não me acontece pegar no JN e virá-lo para começar pela última página, mas andei semanas a fazê-lo. Imagino que não fui a única. Depois chega uma manhã em que nos lembramos e o jornal fica intocado sobre a mesa. Resignamo-nos às ausências. Se todos os grandes poetas fazem falta, o MAP cronista não o faz menos. Ele sabia que tudo é política e não voltava às costas a nenhum tema. Foi um crítico mordaz e lúcido deste e de outros governos, escreveu sobre economia, direitos sociais, educação, desemprego, crise, desigualdade. E quando lhe apetecia, enxotava a política para fora da sala, e sentava-nos ao lado dele para contar-nos coisas que realmente importam, como a notícia de que haviam nascido três melros na trepadeira do muro do seu quintal.  [Read more…]

Medalha de ouro

Para Ferreira Fernandes por esta crónica olímpica .

Vulcão como Nós

A relação entre certo Poder e certa Corrupção atingiu a proverbial razão directa entre a cavadela e a minhoca. Mas não faz mal, porque já não somos povo mas público apenas. Não é isso porém o que hoje aqui me move.
Para entreter o público, e nem de propósito, tivemos aquela maluqueira do vulcão com sua nuvem de cinza à escala multicontinental. Julgo que foi providencial, a gireza do fenómeno. Pela primeira vez, e só porque encurralados nos nossos aeroportos de feira popular, os estrangeiros turistas perceberam o que os Portugueses sofrem há coisa de cinco anitos: não poderem sair daqui nem terem alternativa de ir a nenhures.
Só pela graça de Deus é que o nevoeiro vulcânico não coincidiu com a visita próxima do chefe de vendas máximo do mesmo alegado Deus. Sua, dele, Santidade, em o Maio que aí vem, já poderá imitar o voo dos anjos com escala na nuvem que quiser. E reforçar em Fátima que a pedofilia é coisa dos homossexuais, não dos padres irlandeses, norte-americanos, alemães, canadianos ou da nossa viática e viriática Beira Alta etc.
Com ou sem vulcão, quem não há-de voar longe é o poeta Alegre, esse grande Exilado de Argel, esse Bardo de Águeda, essa vítima recorrente do Marajá das Seychelles, vulgo Mário Soares. Há-de ser tão próximo Presidente para o ano como o Sporting campeão este.
Tudo isto, afinal, é justo e bom. E o público agradece, até por vingançazita daquela meia dúzia de meses que o poeta Alegre esteve na folha de pagamentos da Emissora Paroquial, ou Nacional, a ponto da reforma de uns milhares de tostões dos novos que só por isso lhe cabe. Quando, e se, chegar a votos, há perceber que há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz vulcão.
Deixando o senhor por ora em paz, tenho algum receio do dia seguinte ao do levantamento da tal nuvem do tal vulcão. O meu receio provém da certeza-certezinha de que, por mais límpida e solar venha a próxima manhã, nos continuaremos a não enxergar como Povo nem um palmo à frente do nariz.