Não é o fim nem o princípio do mundo

Passaram três meses e o Manuel António Pina já nos fez falta muitas vezes. Já não me acontece pegar no JN e virá-lo para começar pela última página, mas andei semanas a fazê-lo. Imagino que não fui a única. Depois chega uma manhã em que nos lembramos e o jornal fica intocado sobre a mesa. Resignamo-nos às ausências. Se todos os grandes poetas fazem falta, o MAP cronista não o faz menos. Ele sabia que tudo é política e não voltava às costas a nenhum tema. Foi um crítico mordaz e lúcido deste e de outros governos, escreveu sobre economia, direitos sociais, educação, desemprego, crise, desigualdade. E quando lhe apetecia, enxotava a política para fora da sala, e sentava-nos ao lado dele para contar-nos coisas que realmente importam, como a notícia de que haviam nascido três melros na trepadeira do muro do seu quintal. 

Pouco tempo antes da morte do MAP, apareceram pelas ruas do Porto uns misteriosos cartazes. Recuperavam o grafismo dos muito famosos “Keep calm”, os cartazes criados durante a II Guerra Mundial para levantar a moral do povo britânico em caso de invasão pelo exército nazi, mas colocavam o escudo da nossa República onde no original figurava a coroa, e o “Keep calm and carry on” era substituído pelo título do primeiro livro de poesia que MAP publicou:

Estes cartazes tinham algo de contra-senha para iniciados. Cartazes para serem decifrados pelos membros de uma secreta comunidade de leitores, que se reconheciam quando abrandavam o passo e se detinham frente a eles.

Alguns desses cartazes resistiam ainda quando chegou a notícia da morte do MAP. E se naquela sexta-feira, que foi de chuva e céu cinzento, esses cartazes nas paredes entristeceram ainda mais a tarde, nos dias seguintes trouxeram algum conforto. Porque neles vivia o humor inteligente do MAP, a sua lucidez tocada pela melancolia, e por isso traziam-nos algum ânimo, sim, apesar da nossa perda comum, apesar de sentirmos que o país vai ficando sem os seus homens justos e bons enquanto a corja se multiplica. É um pouco tarde, e já perdemos muito, mas não é o fim nem o princípio do mundo. Muitos dias se seguirão e o passado não tem de repetir-se a cada esquina.

Esses cartazes, soube-o há pouco, foram criados pela Iniciativa POP, um grupo de intervenção cultural, ao que parece com o incentivo do próprio MAP ou pelo menos com a sua simpatia. Assim como floriram pelas paredes, logo murcharam, mas cumpriram o seu papel, que seguramente não deveria ser o planeado, de facilitar-nos a despedida, ou de dar-nos uma frase a que nos agarrarmos, o que já não é pouco nos dias que correm.

Ainda visito muito as crónicas do MAP, e não me parece que elas tenham perdido actualidade, ou não fossem os problemas do país sempre os mesmos. Mas o silêncio é maior desde que ele partiu, e  o que calamos faz-nos mal. No poema de abertura de “Ainda não é o fim (…)”, ele contava-nos como seria este tempo:

“Os tempos não vão bons para nós, os mortos / Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se). / As palavras esmagam-se entre o silêncio / que as cerca e o silêncio que transportam. (…) Falo contigo de mais assim me calo e porque / te pertence esta gramática assim te falta / e eis porque não temos nada a perder e por que é / cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.”

Por estes dias aspiramos à calma, sim, mas não à paz dos cemitérios, e quem nos ensina aquilo que é sólido e verdadeiro nunca chega a estar morto.

Comments

  1. marta says:

    um leve aperto no coração: esse poeta homem sempre presente nos meus dias, as suas palavras que me acompanham sempre e a falta que me fazem as suas crónicas diárias. saudades!


  2. Lia sempre as crónicas do Manuel António Pina pela internet, tão verticais, tão simples, tão sem prosápia. Continuo a sentir muito o seu desaparecimento, pelo que escrevia e pela pessoa que percebia ser. Encomendei agora a poesia completa. Já pouco leio o JN. Sou cá debaixo e era por causa dele que o procurava mais.


  3. “Já não me acontece pegar no JN e virá-lo para começar pela última página, mas andei semanas a fazê-lo. Imagino que não fui a única”.
    Não, não foi a única.

Trackbacks


  1. […] on” era substituído pelo título do primeiro livro de poesia que MAP publicou (…)» Mais aqui, pela Carla […]

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