O duplo-padrão (e a hipocrisia) de Paulo Rangel

Devo começar por dizer que partilho da preocupação do eurodeputado Paulo Rangel. Preocupa-me que o PS e que o grupo S&D não se tenham já distanciado do SMER e de Robert Fico.

Aliás, já o deviam ter feito há muito, porque Fico não acordou populista e pró-russo esta semana.

Mas julgo que o critério que leva a imprensa nacional a omitir este facto será o mesmo que a levou, durante 11 anos, a omitir que o Fidesz de Viktor Orbán fazia parte do PPE, o grupo do PSD no Parlamento Europeu.

Orbán que teve (tem?) como consultor Mário David, outrora Secretário de Estado do PSD e colega de Paulo Rangel em Estrasburgo, algo que os mesmos media sempre foram exímios a abafar. [Read more…]

Propagar, enforcar, ressuscitar

A contradição do costume voltou em força: em Democracia todos os fascistas votam. E, se nem todos os que votam em neo-fascistas (dos Fratelli ao Lega, em Itália, do CHEGA, em Portugal, ao Vox, em Espanha, do Fidesz, na Hungria, ao PiS, na Polónia, passando pelo SD, na Suécia) são neo-fascistas, a verdade é que a “moderna” extrema-direita europeia se soube re-inventar e aproveitar os fracassos dos partidos democráticos, sobretudo de esquerda, catapultando-se para o poder.

O aproveitamento populista de certos temas, o cultivo do ódio e do ressentimento pelos próximos e por quem é pobre e/ou diferente, a cultura do “contra tudo-contra todos” não são factores novos nem foram inventados pelos que, agora, se chamam “iliberais”; ao invés, são fotocópias ajustadas aos tempos de hoje, daquilo que foi a estratégia dos – outrora – fascistas dos anos 20 em diante para tomar o poder. E é sabido que quando a coisa aperta, o fascismo aperta também. O povo vai atrás, porque se revê na ideia do “Salvador”, na imagem do deus supremo que tudo resolverá e, também, porque os partidos democráticos lhes falharam e continuam a falhar.

Dizia Pepe Mujica, antigo presidente do Uruguai, que o Ser Humano é provável que seja o único animal que é capaz de tropeçar vinte vezes na mesma pedra sem aprender a desviar-se dela. A onda fascista que ameaça, de novo, a Europa é prova dessa mesma incapacidade de nos tornarmos sagazes.

A Itália propagou o fascismo, enforcou-o e agora ressuscita-o. As melhoras, Itália.

Ah, só mais uma coisa: hoje, Vladimir Putin também ganhou.

Giorgia Meloni. Fotografia: Getty