Rui Neves da Silva – A Comendadora (I)*

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Não podia no entanto fechar os olhos aos muitos atributos físicos da rapariga. De facto, ainda que Clarimunda não alimentasse qualquer gosto pelo safismo, era óbvio que o corpo de Clara a perturbava. A começar pela pele, de um branco leitoso, que lhe cobria com a maciez do mármore as coxas roliças e firmes, que uma cintura de inusitada delgadeza ajudava a realçar. Os seios, empinados, não ofendiam o equilíbrio da sua estrutura física, e o rosto… Bem, um esteta diria que aquele rosto era de uma perfeição absurda em alguém tão moralmente imperfeito.
Mas o que emocionava Clarimunda era a visão dos órgãos genitais externos de Clara, sobretudo dos lábios menores e do vestíbulo da vagina, que apesar de as milhares de penetrações sofridas mantinham uma saudável cor coralina.
– Clarimunda, ajuda-me…! O teu… dedo, depressa!
A urgência a manifestar-se num grito…
Clarimunda ainda hesitou, mas receou que a jovem ninfomaníaca perdesse o controlo e com os seus gritos deitasse tudo a perder. E acabou por enfiar-lhe no sexo dois dedos compridos e ossudos, que passou a movimentar como um êmbolo com furiosa violência até sentir o corpo de Clara aquietar-se após uma sucessão de violentos espasmos.
(…)
Clarimunda pensou que o nome de Esperanza na dona de um bordel era uma ironia do destino. Esperança de quê?
Maria da Glória adivinhou-lhe o pensamento.
– Para raparigas como nós, sem família, sem dinheiro e sem estudos, exploradas e abusadas pela sociedade que devia proteger-nos, o recurso à prostituição é a última, senão a única, esperança.
– Pois… – concordou Clarimunda, cuja vontade de argumentar foi vencida pelo cansaço da viagem.
Doña Esperanza era uma mulher alta e extremamente elegante. Não teria mais de cinquenta anos e conservava os traços de uma beleza que murchara de forma controlada. Recebeu Clarimunda, agora Delfina, com mostras de simpatia. A rapariga, que receava ser rejeitada por não ser um modelo de beleza, ficou agradada quando a sua futura patroa a informou, num castelhano falado de forma lenta e martelada para melhor ser entendido, que nunca tinha conhecido uma mulher que não pudesse ser, se assim o quisesse, o objecto do desejo de qualquer homem.
– Temos de corrigir umas coisitas, mas vais sair das minhas mãos mais atraente do que Diana – afirmou com um sorriso enquanto lhe dava uma palmadinha na face.
Depois de lhe comunicar que, à noite, ela teria de partilhar a sua cama com Delfina e de lhe pedir que a informasse sobre as regras da casa, deu a entender a Diana que gostaria de ficar sozinha com a nova recruta.
– Quero ver como és… despida.
Clarimunda estremeceu. Nem mesmo o idiota que a desflorara vira o seu corpo totalmente nu… E era um homem!
Mas mandou o pudor às urtigas e obedeceu, não tardando a ficar inteiramente nua diante dos olhos inquisidores da futura patroa.
Por segundos nada aconteceu. A mulher passeou o olhar pelo corpo de Clarimunda, detendo-se nos seus seios relativamente pequenos, na delgadeza das suas ancas, no monte-de-vénus exageradamente peludo, na magreza das coxas e nas nádegas firmes mas talhadas quase a direito, como as das mulheres asiáticas.

* Rui Neves da Silva é escritor e Revisor Oficial de Contas.

Alberte Momán – Trazo*

trazo
cun forte movemento dos brazos
do corpo todo
as figuras que me dita o tempo
en pequenos suicidios
da ética inoportuna
en favor da política correcta
inherente á madurez

visito os lugares doutro tempo
falo
coa gravidade propia da razón absoluta
e fico prendido ao asento
seguro de ser observado
polo fío da última cervexa

non son horas xa
a máquina de amasar
fixo o seu traballo
e os doces fican na bandexa
agardando a chegada dos máis novos
como esgrime a prudencia

* Alberte Momán é um poeta galego e autor do blogue Moman

A propósito da Feira do Livro

O doutor Lasalle, médico experiente mas nem por isso menos intrigado com aquele estranho caso, resolveu chamar-lhe A Metáfora. E nenhum outro epíteto seria mais conveniente para Kurt Crüwel, um homem que, “no sabiendo cómo evidenciar su rechazo ante lo que sus sentidos le mostraban, había optado por una solución drástica: suspender sus vínculos com la realidad”.

Um jovem alfaiate alemão, presa de um momento histórico atroz, participa na investida das tropas nazis sobre uma França derrotada. Em 1941, em Mieux, na Bretanha, assiste a um massacre perpetrado pela sua companhia. Perante o extremo horror, o seu corpo perde a capacidade de receber os estímulos do exterior e encerra-se no refúgio da imaginação e da memória. Insensibilidade física e espiritual em resposta aos horrores do mundo. Uma bela metáfora deu origem a uma interessantíssima novela de Ricardo Menéndez Salmón: La Ofensa.

Fátima e a sua dimensão humana

Paradoxalmente, nada faz sentido se olharmos para Fátima como um fenómeno religioso! Só a Fé é que pode atribuir significado a três pastorinhos, crianças iliteradas e às sua visões da Senhora numa azinheira.Por mais naíf que seja,por mais belo que nos pareça, por mais luz que jorre…
O fenómeno de Fátima tem que ser olhado para a sua vertente humana.Para os milhões de pessoas que em todo o Mundo depositam ali as suas esperanças,para os peregrinos que ano após ano ali procuram um pedaço de alegria.Quem for a Fátima para ver algo de grandioso naquele lugar vulgar sai de lá profundamente desiludido, ou quem lá for para ver as multidões a acenar, ou a arrastar-se de joelhos, percebe que são liturgias encenadas.Mas quem lá for despido de preconceitos, genuínamente aberto a encontrar verdades, as verdades dos outros, não poderá deixar de sentir profunda compaixão por quem sofre, por quem foi abandonado, por quem procura redenção!Fui lá duas vezes. Na primeira vi quatro jovens mulheres que ali se deslocaram para agradecerem à Virgem a protecção do seu irmão mais novo, que voltara da vida militar são e salvo (mais salvo do que são).Na segunda , vi a silhueta de outra mulher com quem estive face a face no primeiro momento da minha vida! Há cinquenta anos que não a via…

A Marlowe, entre espirros

Confesso-vos esta fraqueza. Ao primeiro arrepio, quando se sente o corpo subitamente exausto e dolorido, naquele momento em que começamos a sentir-nos tomados pela pena de nós mesmos, eu afundo no sofá e deito mão a Chandler. Ou a Hammet, embora prefira o primeiro.

No isolamento da gripe gosto particularmente da companhia do detective Philip Marlowe. Solitário, endurecido pelo muito que viu mas não o suficiente para não se condoer da condição humana, Marlowe acompanha as minhas convalescenças com o seu sarcasmo.

Quando me preparo para tomar o paracetamol, não me atrevo a esboçar uma expressão de sofrimento. Marlowe passa-me o comprimido e lança-me à cara, sem me dar tempo a gaguejar uma resposta:

– Escute, vou dar-lhe aquilo de que precisa. Não sou uma pessoa crédula, que acredite em qualquer história. De maneira que aceite o que lhe é oferecido e porte-se bem. Quero ver-me livre de si porque tenho um mau pressentimento.

Estremeço, tomo o comprimido sem pestanejar, sorvo mais um gole de chá e aconchego a mantinha. Na doença, ainda que banal como esta, encontro um inexplicável conforto nos cenários decadentes do policial negro. Mulheres fatais, homens destruídos pelo álcool, ricaças ninfómanas, corpos que aparecem a boiar numa piscina… este cocktail insólito funciona melhor do que qualquer panaceia de farmácia.

Se falta o livro, um filme pode fazer um efeito semelhante, embora com resultados mais lentos. O film noir dos anos quarenta e cinquenta, com os insuperáveis Bogart e Bacall, ajuda sempre, mas quando os sintomas da gripe se intensificam dificilmente consigo acompanhar um filme.

Prefiro ler um livro num estado febril, ir caindo no interior de uma história meio lida e meio delirada, adormecer sobre as páginas e sonhar que, num bar esconso, não muito longe de Sunset Boulevard, à hora do crepúsculo, quando as sombras se adensam, sento-me ao lado de Marlowe e começo a ouvir a sua história.

– A primeira vez que vi Terry Lennox ele estava bebêdo, dentro de um Rolls-Royce Silver Wraith, à porta da esplanada do The Dancers… Espirro, deliciada, encolho-me um pouco mais, aproximo a caixa dos lenços, e bendigo a sorte que me constipou.

Reviver e lutar pelo 25 de Abril

História de uma noite de Inverno, localizada em determinado Novembro ou Dezembro do início da década de 1970. Saí do cinema Roma, onde assisti a um filme de cujo título nem sequer me lembro. Mantenho viva a recordação, essa sim, de me deparar com o Zé, aquele miúdo franzino, enregelado e que aparentava nove ou dez anos de indigência desde o berço, e de quem ouvi um amargurado gemido: “preciso de comer, estou com fome e frio”. 

A frase, naquela voz infantil e débil, suscitou-me uma dor violenta. Não física, claro. Como diz o povo, foi uma dor de alma, neste caso esmagadora, angustiante e de enorme revolta. Ainda para mais vivida naquele local lisboeta, Avenida de Roma / Praça de Londres. Ali proliferavam os cafés frequentados por gente da classe média alta. Eles de gravata de seda e fatos do Lourenço & Santos; elas decoradas no peito, nos punhos e nas mãos com obras reluzentes de joalharia de luxo, e ostentando vestuário de alta-costura, talvez confeccionados com tecidos da Casa Frazão. Todos tinham em comum a indiferença à miséria que os rodeava.

Entrei com o Zé no café Londres, um dos ditos. Pedi que lhe servissem um copo de leite quente e um pão com fiambre. O que, aliás, correspondia ao desejo que me foi expresso. A insensibilidade do meio era tal que o empregado recusou satisfazer o pedido. Ordenou que me retirasse com a criança. Claro, no desassossego do meu espírito, protestei, barafustei e, graças à perícia do chefe a evitar escândalos, lá consegui mitigar a fome da criança. Ao menos naquele pedaço de noite.

Reviver o 25 de Abril implica trazer à memória histórias como esta, de pobreza, de sofrimento e de desigualdade obscenos. Infelizmente, todos estes fenómenos estão de volta, sob uma forma desumana e destruidora de direitos de cidadania fundamentais. Dois exemplos: o País tem mais noventa e tal mil desempregados do que há um ano, isto na versão oficial, da qual naturalmente desconfio, pela escassez argumentada; segundo estudos do Banco de Portugal, em 2005/2006, tínhamos (e continuamos a ter, acrescento eu) um dos índices mais elevados de pobreza da UE, envolvendo cerca de 2 milhões de cidadãos, entre os quais se estima haver à volta de trezentos mil menores –TVNET – Pobreza em Portugal atinge números preocupantes.

O 25 de Abril pôs fim à ditadura feroz. Prosas e poemas teceram em palavras a alegria e a libertação do povo português. Vem-me à memória ‘As portas que Abril abriu’, que Ary dos Santos escreveu e recitou de forma vigorosa. Mas, ao fim de 35 anos, tornou-se imperioso (re)abrir portas, fechando os alçapões da mentira, da demagogia e das iniquidades, itinerários entretanto preferidos por este e outros governos, de filhos de deuses menores, oportunistas e amanuenses.

O revivalismo da data é saudável mas não suficiente. Celebremos o ’25 de Abril’ com entusiasmo, mas tenhamos consciência de que, no dia-a-dia, é necessário continuar a defender ideais da democracia autêntica e do compromisso social do Estado, que Sócrates e os políticos que têm governado o País ignoram, em particular na saúde, no ensino, no sistema de justiça e no direito ao trabalho. E até na liberdade de expressão.