Reviver e lutar pelo 25 de Abril

História de uma noite de Inverno, localizada em determinado Novembro ou Dezembro do início da década de 1970. Saí do cinema Roma, onde assisti a um filme de cujo título nem sequer me lembro. Mantenho viva a recordação, essa sim, de me deparar com o Zé, aquele miúdo franzino, enregelado e que aparentava nove ou dez anos de indigência desde o berço, e de quem ouvi um amargurado gemido: “preciso de comer, estou com fome e frio”. 

A frase, naquela voz infantil e débil, suscitou-me uma dor violenta. Não física, claro. Como diz o povo, foi uma dor de alma, neste caso esmagadora, angustiante e de enorme revolta. Ainda para mais vivida naquele local lisboeta, Avenida de Roma / Praça de Londres. Ali proliferavam os cafés frequentados por gente da classe média alta. Eles de gravata de seda e fatos do Lourenço & Santos; elas decoradas no peito, nos punhos e nas mãos com obras reluzentes de joalharia de luxo, e ostentando vestuário de alta-costura, talvez confeccionados com tecidos da Casa Frazão. Todos tinham em comum a indiferença à miséria que os rodeava.

Entrei com o Zé no café Londres, um dos ditos. Pedi que lhe servissem um copo de leite quente e um pão com fiambre. O que, aliás, correspondia ao desejo que me foi expresso. A insensibilidade do meio era tal que o empregado recusou satisfazer o pedido. Ordenou que me retirasse com a criança. Claro, no desassossego do meu espírito, protestei, barafustei e, graças à perícia do chefe a evitar escândalos, lá consegui mitigar a fome da criança. Ao menos naquele pedaço de noite.

Reviver o 25 de Abril implica trazer à memória histórias como esta, de pobreza, de sofrimento e de desigualdade obscenos. Infelizmente, todos estes fenómenos estão de volta, sob uma forma desumana e destruidora de direitos de cidadania fundamentais. Dois exemplos: o País tem mais noventa e tal mil desempregados do que há um ano, isto na versão oficial, da qual naturalmente desconfio, pela escassez argumentada; segundo estudos do Banco de Portugal, em 2005/2006, tínhamos (e continuamos a ter, acrescento eu) um dos índices mais elevados de pobreza da UE, envolvendo cerca de 2 milhões de cidadãos, entre os quais se estima haver à volta de trezentos mil menores –TVNET – Pobreza em Portugal atinge números preocupantes.

O 25 de Abril pôs fim à ditadura feroz. Prosas e poemas teceram em palavras a alegria e a libertação do povo português. Vem-me à memória ‘As portas que Abril abriu’, que Ary dos Santos escreveu e recitou de forma vigorosa. Mas, ao fim de 35 anos, tornou-se imperioso (re)abrir portas, fechando os alçapões da mentira, da demagogia e das iniquidades, itinerários entretanto preferidos por este e outros governos, de filhos de deuses menores, oportunistas e amanuenses.

O revivalismo da data é saudável mas não suficiente. Celebremos o ’25 de Abril’ com entusiasmo, mas tenhamos consciência de que, no dia-a-dia, é necessário continuar a defender ideais da democracia autêntica e do compromisso social do Estado, que Sócrates e os políticos que têm governado o País ignoram, em particular na saúde, no ensino, no sistema de justiça e no direito ao trabalho. E até na liberdade de expressão.