Lagarta na comida é um problema menor

Nos últimos dias, tem circulado um vídeo de uma lagarta a movimentar-se no interior de um prato de comida numa cantina escolar. Não quero, de maneira nenhuma, desvalorizar  a falta de cuidado ou de higiene dos responsáveis pela confecção de uma refeição, mas devo dizer que o mesmo já me aconteceu – e a muitos outros – há muitos anos nas cantinas por onde passei. Não é uma situação agradável, mas, apesar de tudo, é fácil de resolver, entre protestos e a remoção do bichinho.

Nos dias que correm, diria que é muito mais fácil descobrir lagartas numa refeição escolar, tendo em conta que os pratos estão desérticos. No meu tempo, a abundância exigia um olho clínico ou a experiência de um David Attenborough e não me admiraria que muita lagarta tivesse passado pelo meu aparelho digestivo. Mais: tendo em conta a qualidade de comida imposta aos alunos, a existência de lagartas no prato acaba por ser uma alternativa nutritiva, perdoe-se-me a rima. Já não deve faltar muito para haver um protesto de jovens esfomeados que não tiveram direito a lagarta, levantamento de rancho, bandejas pelo ar, o caos na escola. [Read more…]

Contratar mercenários para proteger a tropa

Escrevi um texto há quase dois anos acerca do facto de haver empresas privadas de segurança a tratar da segurança de forças de segurança do Estado. Parece um trocadilho, mas é também a realidade a ser mais tristemente cómica do que qualquer comédia. Confirma-se: não deve faltar muito para que um arremedo de ficção seja menos verosímil do que a verdade.

Dois anos depois, um paiol foi assaltado nas calmas, tão nas calmas que poderia ter sido eu o assaltante. Ainda por cima, verifica-se que, mais uma vez, o Estado comprou serviços, pagando a privados aquilo que deveria resolver com recursos próprios. Os engravatados que governam os governos chamam a isso outsourcing, que é uma coisa tão externa que só pode ser dita em inglês.

Tenho horror a simplismos, mas parece-me demasiado óbvio que também este problema resulta das negociatas feitas em nome do Estado por gente que dele se apropriou para o vender aos bocadinhos, numa actualização da metáfora em que a raposa toma conta do galinheiro. É assim nas Forças Armadas, é assim na Educação, é assim na Saúde. Ou como escreveu Saramago: “privatize-se também/a puta que os pariu a todos.”