Contratar mercenários para proteger a tropa


Escrevi um texto há quase dois anos acerca do facto de haver empresas privadas de segurança a tratar da segurança de forças de segurança do Estado. Parece um trocadilho, mas é também a realidade a ser mais tristemente cómica do que qualquer comédia. Confirma-se: não deve faltar muito para que um arremedo de ficção seja menos verosímil do que a verdade.

Dois anos depois, um paiol foi assaltado nas calmas, tão nas calmas que poderia ter sido eu o assaltante. Ainda por cima, verifica-se que, mais uma vez, o Estado comprou serviços, pagando a privados aquilo que deveria resolver com recursos próprios. Os engravatados que governam os governos chamam a isso outsourcing, que é uma coisa tão externa que só pode ser dita em inglês.

Tenho horror a simplismos, mas parece-me demasiado óbvio que também este problema resulta das negociatas feitas em nome do Estado por gente que dele se apropriou para o vender aos bocadinhos, numa actualização da metáfora em que a raposa toma conta do galinheiro. É assim nas Forças Armadas, é assim na Educação, é assim na Saúde. Ou como escreveu Saramago: “privatize-se também/a puta que os pariu a todos.”

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “Em Portugal, os jovens deixaram de ser chamados para cumprir o serviço militar a partir de 2004. O PCP foi o único partido a contestar a decisão, mas mais de dez anos depois o regresso do SMO é visto como uma possibilidade por deputados do PS e do PSD.”
    Jornal SOL 6 de Abril 2017

    Para que não hajam dúvidas como chegámos até aqui. Não foi por um acaso, mas sim porque nós escolhemos este caminho.
    E agora, que ninguém ponha o rabo de fora!
    O fim do SMO foi uma medida prometida em campanha, com forte potencial eleitoral. Nessa medida, ninguém se quis deixar perder na “duvida metódica” de questionar, se isto um dia não podia ter consequências nefastas? Com excepção do PCP, foram todos a favor.
    Dava votos, não dava?
    Pois, o problema começa logo por aí.
    O Serviço Militar Voluntário, sob a forma profissional, tipo contrato a termo certo, não é um drama. Existe em muitos países. Mas tem custos. E custos elevados. Quem não tem dinheiro, não tem vícios!
    Agora, não podemos é fazer de conta que queremos ser como os ricos, com orçamento de pobre.
    Quando assim é, o melhor é ir à Fátima a pé (assim faz rima), e pedir proteção divina.
    Talvez os pastorinhos beatificados, façam por nós, aquilo que os Órgãos de Soberania não fazem.

  2. Não é concebível que um país pequeno (n.º habitantes) como nosso não tenha SMO. Andou bem o PCP.
    A experiência nesta matéria aconselhava mesmo isso porque a nossa influência no mundo teve sempre o contributo das forças Armadas com o SMO.
    Parte dos políticos são uns manipuladores e agitadores.
    Depois, num terreno cheiro de iliteracia política, a bronca aparece.

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