Lagarta na comida é um problema menor


Nos últimos dias, tem circulado um vídeo de uma lagarta a movimentar-se no interior de um prato de comida numa cantina escolar. Não quero, de maneira nenhuma, desvalorizar  a falta de cuidado ou de higiene dos responsáveis pela confecção de uma refeição, mas devo dizer que o mesmo já me aconteceu – e a muitos outros – há muitos anos nas cantinas por onde passei. Não é uma situação agradável, mas, apesar de tudo, é fácil de resolver, entre protestos e a remoção do bichinho.

Nos dias que correm, diria que é muito mais fácil descobrir lagartas numa refeição escolar, tendo em conta que os pratos estão desérticos. No meu tempo, a abundância exigia um olho clínico ou a experiência de um David Attenborough e não me admiraria que muita lagarta tivesse passado pelo meu aparelho digestivo. Mais: tendo em conta a qualidade de comida imposta aos alunos, a existência de lagartas no prato acaba por ser uma alternativa nutritiva, perdoe-se-me a rima. Já não deve faltar muito para haver um protesto de jovens esfomeados que não tiveram direito a lagarta, levantamento de rancho, bandejas pelo ar, o caos na escola.

A febre do outsourcing comanda os que defendem um Estado mínimo, desde que sirva para sustentar clientelas. Desumanizar a escola é um projecto que já leva uns anos, obrigando a tirar cozinheiros e a abandonar os alunos a uma sorte que é um azar. Ganham os privados: por um lado, as empresas que fornecem às escolas imitações de alimentação; por outro, os cafés das redondezas, para os alunos com uma carteira um pouco mais recheada.

Diante disto, parece que há directores de escolas que consideram que o verdadeiro problema está em fotografar refeições escolares. Tal reacção faria sentido, se os ditos directores, pedagogicamente, quisessem afastar as crianças da visão do horrível ou do vácuo, porque o primeiro não se deve ver e o segundo está vedado à visão e, portanto, à fotografia.

Entretanto, junto-me ao Bruno e louvo Catarina Martins.

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    “A febre do outsourcing comanda os que defendem um Estado mínimo, desde que sirva para sustentar clientelas. Desumanizar a escola é um projecto que já leva uns anos, obrigando a tirar cozinheiros e a abandonar os alunos a uma sorte que é um azar.”

    Sou dos que defendem que o melhor para as escolas seria sempre ter por perto quem lhes confecionasse os géneros na hora, adquiridos na véspera. Com uma equipa própria, avaliada pela Direção da Escola e pelo Conselho Geral, organismo complementar no qual entra toda a comunidade educativa. Mas esta apenas com recomendações.
    Mas admito que chegados aqui, por questões de logística seja de todo inevitável esta solução do outsorcing, no curto prazo.
    Mas então se assim é, vamos colocar a capitação por aluno, custo da refeição, num patamar que não deixe margem alguma às empresas de catering para falharem. E criem-se mecanismos legais para que elas sejam automaticamente penalizadas caso se verifiquem anomalias. Em especial se as falhas forem recorrentes. E não andarmos com processos em tribunais anos a fio.
    Eu tenho conhecimento de que há empresas de catering a receber o pagamento de facturas emitidas ao Estado, através dos seus mais variados órgãos, Autarquias incluídas, com seis meses de atraso. Muitas delas acabam com juros de mora. Alguém se importa com isso? Ninguém.
    Talvez o tribunal de Contas, um ano depois, quando constatar a asneira.
    Digamos que, o Estado quer fornecimento de refeições a 1,86€ como acontece com as escolas de Gaia, mas paga aos fornecedores a meio ano.
    Dir-me-ão, então se assim é, porque concorrem tantas empresas para a prestação desses serviços.
    A resposta é óbvia. O Estado é que alimenta de forma direta ou indireta, incluindo os fundos europeus, mais de 80% da nossa economia privada.
    Eles é que não querem assumir que assim é, que sempre assim foi, e assim será no futuro.

  2. Ernesto says:

    “A febre do outsourcing comanda os que defendem um Estado mínimo, desde que sirva para sustentar clientelas. Desumanizar a escola é um projecto que já leva uns anos, obrigando a tirar cozinheiros e a abandonar os alunos a uma sorte que é um azar. Ganham os privados: por um lado, as empresas que fornecem às escolas imitações de alimentação; por outro, os cafés das redondezas, para os alunos com uma carteira um pouco mais recheada.”

    Nem mais, caro António! Não diria melhor. – Branco é, galinha o põe!

    Só queria acrescentar que acho isto muito estranho, porque o “nosso” ilustre deputado, Pedro Leitão Amaro, já veio dizer que durante o (des)governo do qual fez parte, foram proibidas as lagartas nas comidas das cantinas, portanto só há uma hipótese, é culpa deste governo!

  3. Vareja na sopa says:

    O bichinho foi deslocado para um ambiente hostil e quiçá mortal.
    Os vários Pan não intervêm ?

  4. Carlos Silva says:

    Devo ser o único a achar que existe sabotagem.
    É que para cozer uma sopa de legumes é preciso ferver a água a um temperatura que seria mortal para o bicho.
    Um aluno colocou a lagarta só para o vídeo para lhe dar mais likes nas redes sociais. De outra maneira a lagarta não estaria viva.

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